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A morte sólida e terrível

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Em A estrada não há gratidão ou reconhecimento, mas apenas o impacto causado pelo encontro entre seres de uma raça que se aproxima da extinção, num pessimismo similar ao de Samuel Beckett.

Leandro Oliveira - (17/11/2007)

Logo que foi lançado nos Estados Unidos, o livro A estrada, do escritor Cormac McCarthy, publicado no Brasil pela Editora Alfaguara, chamou a atenção da crítica. Ambientado no futuro, A estrada desenha o mundo pós-apocalíptico como um inferno onde os sobreviventes procuram apenas percorrer os restos de um planeta queimado em busca de alimentos, evitando o encontro com outros seres humanos, encarados sempre como rivais. Neste mundo, um homem e seu filho rumam em direção ao Sul, onde imaginam encontrar um lugar menos frio, onde a sobrevivência será menos ameaçadora. A estrada do título é a principal paisagem do cenário, em algumas ocasiões com seu asfalto derretido pelo calor da queimada das árvores que ainda restaram e, em outras, coberta pelas cinzas e pela neve que caem de modo constante.

Esse cenário, no entanto, ao invés de transformar pai e filho em animais selvagens, ressalta a humanidade que existe nos personagens. O relacionamento entre os dois evidencia a recusa de se renderem, de encararem a dissolução da civilização como sinônimo de dissolução da humanidade. Em certo trecho, por exemplo, o filho convence o pai de dar alguns alimentos a alguém que encontram. Não há gratidão, nem reconhecimento, apenas o impacto causado pelo encontro entre seres de uma raça que se aproxima da extinção, num pessimismo similar ao de Samuel Beckett.

Linguagem ríspida

McCarthy é discípulo da melhor tradição de escritores dos EUA, em especial Hermann Melville e William Faulkner. Obras como Meridiano de sangue – eleito pelo New York Times como um dos livros mais importantes da ficção norte-americana nos últimos 25 anos –, Onde os velhos não têm vez, além da Trilogia da fronteira (formada pelos romances Todos os belos cavalos, A travessia e Cidades da planície, fazem de McCarthy um dos principais escritores norte-americanos contemporâneos. A linguagem ríspida, seca, com diálogos curtos, serve para reforçar a violência dos westerns que escreve e estão também presentes em A estrada.

Apesar da maior parte de sua obra estar traduzida para o português, o autor não repercute tanto por aqui, ao contrário do que ocorre em seu país. Lá, A estrada, além de ganhar o Prêmio Pulitzer de Ficção de 2007, foi recomendado para um clube de leituras de um dos programas de TV de maior audiência, um raro exemplo de autor elogiado pela crítica e que também atrai um grande número de leitores.

Sentimentos paradoxais

O ponto alto do romance é, sem dúvida, a escolha que o autor fez ao estabelecer como base da história a relação entre pai e filho. Tradicionalmente contaminada pelo mito do amor materno incondicional, a relação mãe e filho tornou-se quase um clichê da literatura para expressar o amor entre seres humanos. De tão comum, em muitos casos a relação se mostra inócua, fazendo o leitor passar por ela sem se impressionar, obrigando o autor a desenhá-la com novos contornos. No livro de McCarthy, porém, o modo afetuoso como o pai tenta proteger seu filho e até mesmo o modo como demonstra seu amor, em situações, por exemplo, onde um erro do garoto poderia custar-lhes a vida (num momento, o filho esquece uma válvula aberta, fazendo todo o combustível para aquecimento se perder), nunca passa despercebido. O modo implacável como o pai encara outros encontra na relação com o filho o seu pólo oposto, sempre agindo pacientemente e com um cuidado carinhoso. A impressão é que o personagem se constitui de sentimentos paradoxais; McCarthy conseguiu construir um homem duro que expressa sensibilidade humana no trato com o filho.

O livro, ao abordar a morte como tema, possui pontos semelhantes com outra obra lançada recentemente aqui no Brasil, o livro Homem comum, do escritor também norte-americano Philip Roth. Mas se em Roth a morte é observada de um ponto de vista pessoal, íntimo, em A estrada prevalece o ponto de vista coletivo, sob a perspectiva dos que sobreviveram ao desastre. No romance de McCarthy, a construção de um cenário paranóico, cujo objetivo principal é a sobrevivência, faz a idéia da morte parecer muito mais sólida e terrível. Ela se apresenta como uma esperança no caos, mas é preciso recusá-la, apesar dos indícios de que esta recusa causará mais sofrimento. Assim, o livro consegue mostrar o poder da literatura em transmitir pontos de vista que somente tornam-se conhecidos com a ajuda do imaginário.



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