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O caso dos pensadores mortos

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"O corpo de um matemático de renome, professor de cursos disputados, pesquisador das equações mais abstrusas, foi encontrado sentado em seu gabinete, a cabeça sobre uma pilha de papéis, os olhos arregalados, fixos, a boca escancarada, os dedos ainda apertando a caneta"

Diego Viana - (17/11/2007)

Um mistério assustador. As autoridades estão alarmadas com a onda de mortes que assola o país. As vítimas seguem um padrão: todas são trabalhadores intelectuais. A cada semana, o corpo inerte de um acadêmico ou pesquisador é encontrado em sua própria casa. Segundo os relatórios de investigação, os óbitos acontecem à noite, quando os pensadores estão solitários, trabalhando em suas escrivaninhas. Morrem de súbito, nenhum deles com carta de suicídio ou marca de violência. A polícia nem consegue levantar hipóteses para trabalhar.

Até a última semana, o governo procurava lidar com a crise a portas fechadas, conforme recomenda o protocolo. Os líderes da nação temiam causar pânico na opinião pública, já dada a comoções midiáticas quando confrontada a casos de mortes em série. Por prudência, escolheram a via do silêncio. Porém, a última morte recebeu uma cobertura tão escandalosa dos jornais e das rádios que foi impossível sustentar o segredo.

O corpo de um matemático de renome, professor de cursos disputados, pesquisador das equações mais abstrusas, foi encontrado sentado em seu gabinete, a cabeça sobre uma pilha de papéis, os olhos arregalados, fixos, a boca escancarada, os dedos ainda apertando a caneta. O pobre cientista perdeu a vida no momento em que estava para resolver o mais complexo problema de sua carreira, uma série estatística que haveria de revolucionar o funcionamento das redes de computadores. Contudo, o sinal de igualdade da última linha, que daria a resposta para toda a questão, desfez-se num traço aleatório. Na página, em vez de uma solução, a tinta reproduziu o gesto da mão que traçava o derradeiro desenho, sem forma ou sentido, do homem que expirava.

Confrontado com as suspeitas da população, o governo enfim concluiu que deveria convocar a imprensa para uma coletiva. O ministro da Segurança tomou a palavra para explicar, com toda franqueza, as providências que seriam tomadas com vistas a evitar novas perdas para a ciência. Uma força-tarefa de investigação foi montada às pressas, com os melhores detetives dos principais departamentos de elite. Pediu-se a cada antropólogo, sociólogo, filósofo e historiador que evitasse passar a noite sozinho, por via das dúvidas, mesmo que houvesse um artigo a entregar ou uma aula a preparar para o dia seguinte. Um telefone foi colocado à disposição para responder a todas as dúvidas, ainda que não houvesse muitas respostas a fornecer.

O ministro, para finalizar, cuidou de transmitir tranqüilidade à população. Apenas um setor da sociedade, ele lembrou, foi atingido por essas mortes misteriosas. Pelo menos por enquanto. Embora nossas ciências e nossa cultura tenham perdido alguns nomes insubstituíveis, a economia não foi, e nem será, abalada. Todas as vítimas são intelectuais: físicos, geógrafos, psicólogos, jornalistas. Perdeu-se até mesmo um jovem poeta, embora a ligação dessa morte com as demais ainda seja difícil de comprovar.

Nenhuma categoria indispensável foi atingida. Ninguém do mercado financeiro, à exceção do corretor com overdose de heroína e o investidor que, tendo feito uma má escolha, pulou da janela do escritório. Ninguém dos transportes, nem da geração de energia, nem da televisão ou do varejo. Faleceu, sim, um importante conselheiro político do presidente da República, é verdade, enquanto planejava a fusão de dois partidos progressistas que, pelo andar da carruagem, terão de seguir separados e em conflito. Mas essa perda, embora lamentável para as instituições, não haverá de atrapalhar a gestão do Estado. O chefe de governo é perfeitamente capaz de tomar suas próprias decisões, baseado apenas em seu instinto, seu bom senso e as opiniões sempre ponderadas de quem costuma discutir política.

Portanto, concluiu o ministro, não há motivo para alarme. A polícia trabalhará com afinco. O quotidiano de cada um não está ameaçado. A vida de todo mundo pode seguir tranqüila sem as teorias, as propostas e as advertências de quem é pago tão-somente para pensar, falar e escrever. Nada mudará, a não ser para aqueles que têm um pensador na família; esses viverão em constante receio de perdê-los. Mas que não se deixem dominar pela falta de esperança, uma vez que os zelosos policiais da pátria não medirão esforços para solucionar o caso.

Para os demais, não há risco algum, o ministro fez bem questão de frisar. Nada mudará. Os hábitos, os problemas, as condições de vida, os conflitos, as paixões, os preconceitos, as misérias. Para levar a mesma vida de sempre, afinal, não é necessário refletir. Basta continuar fazendo o que já se fazia. Basta ter as mesmas opiniões e os mesmos gostos. Basta ter fé nos mesmos profetas, sonhar os mesmos delírios, desejar os mesmos luxos levianos. A perda, no fundo, não é tão grande quanto chegou a parecer.

Posso perceber que as mortes vêm perdendo espaço no noticiário. Alguns artistas contestadores também apareceram inexplicavelmente sem vida. Mas ninguém comentou. A força-tarefa, envergonhada com a ausência de resultados, foi desmembrada e realocada para o combate ao tráfico de armas, um problema muito mais urgente e que não pára de crescer. A única grande reação aconteceu nas universidades, que fecharam ou reduziram os cursos de ciência pura e reforçaram o orçamento para Administração de Empresas, Turismo e Relações Públicas. Falta de interesse, elas explicam.

O entregador de jornais da minha rua riu às gargalhadas da nota de pé de página com o obituário de um grande filósofo, adepto da fenomenologia, que tombou nesta madrugada, quando as redações já estavam prestes a fechar. O garoto quase imberbe achou engraçado o nome do sujeito, realmente muito difícil de grafar. Só ficou quieto porque um guarda que passava aproximou-se para multá-lo; ele largara sua motoneta sobre a calçada. Diante de meus olhos, os dois engalfinharam-se após um breve intercâmbio de impropérios.

Não foi fácil separar a briga. Finalmente, terminamos todos no boteco da esquina, tomando cerveja com tremoços. Discutíamos o de sempre. Uma mulher famosa, um time ruim. Deixei de me preocupar com o mistério dos intelectuais tombados, mais insondável do que os problemas que eles mesmos faziam tanto esforço, e tanto sofriam, para abordar. É um caso do passado, convenhamos. Não restam, mesmo, muitos mais para morrer.



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