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CULTURA PERIFÉRICA

A dor e a delícia de ser negro

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Dia da Consciência Negra desencadeia, em São Paulo, semana completa de manifestações artísticas. Nosso roteiro destaca parte da programação, que se repete em muitas outras cidades e volta a realçar emergência, diversidade e brilho da cultura periférica

Eleilson Leite - (19/11/2007)

O 20 de Novembro não é celebrado apenas como um dia de protesto. Há tempos, homens e mulheres negras vêm comemorando esta data pela afirmação da beleza, do encanto, da ginga que só o negro tem. A arte de matriz africana é exuberante, comovente e contagiante. A música é a expressão mais reconhecida desse inesgotável manancial. Blues, jazz, rock, gospel, soul, funk, rap, samba, rumba, reggae. Quase tudo que de mais importante se produziu em termos de música desde o Século 19 tem relação direta com arte feita pelos negros. Mas essa influência está presente também na culinária, vestimenta, dança, religiosidade e mitologia, além do cinema, teatro, artes plásticas e literatura.

E para exaltar essa cultura, um dia só não basta. Preparei um roteiro com várias dicas de eventos que acontecerão dos dia 19 (segunda-feira) a 25 de novembro (domingo). O destaque é para os artistas das periferias da região metropolitana de São Paulo, tanto em apresentações nas quebradas, como em aparições na região central. Confira endereços e outras informações na Agenda Cultural da Periferia no site da Ação Educativa

Segunda-feira: Neste dia rola a quinta e última sessão da I Mostra do Cinema Africano Contemporâneo, organizada pela dançarina e antropóloga Luciane Ramos. Em cartaz, os filmes A Árvore dos Antepassados e As Pitas, produções moçambicanas de 1994, de Licínio Azevedo. Estes e os demais filmes apresentados na Mostra (que iniciou no dia 12 de novembro) são do acervo da Casa das Áfricas. Ao final da apresentação, Luciane faz um bate-papo sobre a obra. Fique ligado. No dia 26 haverá uma palestra com o sociólogo moçambicano Carlos Subuhana. Ele fará uma exposição de encerramento da Mostra. Aproveite também para conferir, no mesmo local, a Exposição África, com grafites de artistas negros como Thiago Vaz, Bonga e Tota entre outros.

Terça-feira: Chegou o grande dia. São inúmeras as atividades, em todas as partes. Destaco dois eventos: um no centro, outro na periferia. Na Praça da Sé, as secretarias de cultura do Estado e do Município se unem para fazer o grande show Consciência Negra SP. A parada começa as 10h com uma Missa Conga. Ao meio dia entra em cena o Bloco Ilê Aiyê e a partir daí a chapa começa a esquentar com atrações internacionais e nacionais. Os rappers MV Bill e Rappin’Hood são alguns dos nomes confirmados. O sambista Martinho da Vila encerra o espetáculo, com um show as 19h. Em Parelheiros, fim da Zonal Sul, rola uma versão do mesmo evento, sob o comando da CONE – Coordenadoria do Negro de São Paulo. A partir das 10h até as 21h o palco acolherá diversos artistas periféricos em apresentações musicais, dança e mostra de trajes e comidas típicas.

Quarta-feira:. O Sarau da Cooperifa vai se transformar num quilombo. Será uma edição especial, que destacará autores negros, tanto os consagrados pela literatura brasileira e internacional, como os autores e autoras de todas as periferias: Allan da Rosa, Maria Tereza, Elizandra e Akins, Fuzziu, Marcio Batista, Periafricania e muitos outros declamarão a dor e a delícia de serem negros. Nesta noite, os tambores soarão mais alto. O Grupo Espírito de Zumbi fará uma apresentação histórica.

Quinta-feira: Mais um sarau de preto. Agora em Pirituba, periferia da Zona Oeste. O poeta Michel Silva estará à frente dos microfones para realizar mais uma sessão do Sarau do Elo da Corrente, que rola todas as quintas-feiras. Noite especial, noite de Zumbi dos Palmares. Sob a mesma lua, do outro lado da cidade, os tambores do Ilú Oba de Min estarão em comunhão com toda a raça negra. O famoso grupo feminino de percussão afro-brasileira se apresentará no Teatro Alfredo Mesquita em Santana, Zona Norte.

Sexta-feira:. Vai rolar a Festa Umoja. O grupo de cultura afro-brasileira que dá nome ao evento, fará uma apresentação de 5 horas com muita música, dança, literatura, cinema e outras performances. Destaque para o samba de roda, coco e a leitura cênica de um mito em homenagem a iabás (orixás femininos). Participação do Cine Becos, que fará exibição do curta Vaguei nos livros e me sujei com a m… toda, de Akins Kinté, Mateus Subverso e Allan da Rosa.

Sábado: A literatura negra ocupará o Museu da Língua Portuguesa. Com o intuito de desvendar e vivenciar a escrita do negro brasileiro, Rita Camargo organiza um seminário que vem tendo sessões desde o dia 6 de novembro. No dia 24, acontecerá o encerramento e haverá um sarau as 17h, com o pessoal da Cooperifa e do Quilombohoje. Ali mesmo, pegue o Metrô e siga para a Barra Funda. No Memorial da América Latina estará acontecendo, desde o meio dia, o I Encontro Paulista de Hip Hop. E para o pessoal do ABC, a dica é o tradicional Hip Hop em Ação, da Casa do Hip Hop de Diadema.

Domingo: Para encerrar a maratona, dois eventos de peso. Em São Paulo acontece a VI Feira Preta e em Santo André rola o Dia da Cabeça Preta. O primeiro é uma grande produção. A parada acontece no Palácio de Convenções do Anhembi. A programação tem shows, espaço hip hop, feira de negócios, moda, acessórios, produtos, cabelereiros e todo tipo de empreendimento voltado para o segmento. No palco, diversos artistas de periferia. O encerramento ficará por conta do grupo carioca Afroreggae, que trará, como convidada especialíssima, a cantora Paula Lima. Em Santo André, a pegada é independente mas não menos atraente. Com promoção da Casa de Cultura e Política do ABC, tem música, teatro, literatura e tudo o mais, porém sem nenhum caráter comercial. Ambos os eventos começam às 12h e acabam as 22h.

A ascensão do artista de periferia traz em grande medida a afirmação da cultura negra. Na periferia, negro não é minoria. Não por acaso temos uma programação cultural tão pujante como esta. E isso é apenas uma parte. Com a benção dos orixás, muitas outras manifestações culturais acontecerão em São Paulo e em todo o Brasil. Axé aos filhos de Zumbi!

Mais

Eleilson Leite é colunista do Caderno Brasil de Le Monde Diplomatique. Edições anteriores da coluna:

Onde mora a poesia
Invariavelmente realizados em botecos, os saraus da periferia são despojados de requintes. Mas são muito rigorosos quanto aos rituais de pertencimento e ao acolhimento. Enganam-se aqueles que vêem esses encontros como algo furtivo e desprovido de rigores

O biscoito fino das quebradas
Semana de Arte Moderna da Periferia começa dia 4/11, em São Paulo. Programa desmente estereótipos que reduzem favela a violência, e revela produção cultural refinada, não-panfletária, capaz questionar a injustiça com a arma aguda da criação

A arte que liberta não pode vir da mão que escraviza
Vem aí Semana de Arte Moderna da Periferia. Iniciativa recupera radicalidade de 1922 e da Tropicália, mas afirma, além disso, Brasil que já não se espelha nas elites, nem aceita ser subalterno a elas. Diplô abre coluna quinzenal sobre cultura periférica



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