Jornalismo Crítico | Biblioteca e Edição Brasileira | Copyleft | Contato | Participe! |
Uma iniciativa


» O vírus transparente e os unicórnios invisíveis

» Artimanhas do mercado para socializar prejuízos

» CARF: um tribunal paralelo a serviço dos sonegadores

» Bolsonarismo, manipulação e perversidade

» Pandemia expõe a Era dos Empregos de Merda

» Governo estrangula (ainda mais) Ciência brasileira

» Coronavírus e os limites morais do capitalismo

» Capital, pandemia e os papéis do feminismo

» Na pandemia, fermenta o Comum

» Literatura periférica, borbulhante e singular

Rede Social


Edição francesa


» L'Afrique tente de retenir ses médecins

» Du Monténégro au Kosovo, la Serbie défiée

» De l'utopie scientifique au péril sanitaire

» Controverses en Inde autour de l'histoire coloniale

» Le culte d'Internet

» Hobsbawm (1917-2012), un itinéraire dans le siècle

» L'Afrique, cobaye de Big Pharma

» Dépeçage des libertés publiques

» Punir le viol

» Stefan Zweig ou l'horreur de la politique


Edição em inglês


» April: the longer view

» To our readers

» Bangsamoro: Philippines' new Muslim-majority region

» Artist and filmmaker

» Looking without blinking

» Politics of city diplomacy

» Politics of city diplomacy

» The return of the city-state

» Philippines revives self-rule for Bangsamoro

» Marawi, the Philippines' ruined city


Edição portuguesa


» Edição de Março de 2020

» Um Brexit para nada?

» A precariedade não é só dos precários

» Edição de Fevereiro de 2020

» O que Donald Trump permite…

» As marcas do frio

» Edição de Janeiro de 2020

» Embaraços externos

» De Santiago a Paris, os povos na rua

» Que prioridades para uma governação mais à esquerda?


A essência esquecida

Imprimir
enviar por email
Compartilhe

Se o crítico é o maior defensor da literatura, ele tem o dever de saber que o melhor livro já escrito não vai cair em suas mãos nesta vida.

Renata Miloni - (23/11/2007)

A revista EntreLivros publicou recentemente o decálogo do leitor (feito por Alberto Mussa), do escritor (por Miguel Sanches Neto) e do crítico (por Michel Laub). Dos três, o que mais me chamou a atenção, e não por bons motivos, foi o último.

No decálogo, Laub quis resumir a utilidade da crítica literária — se há alguma. Li a frase “Você lerá só por obrigação” com uma pequena indignação. Pequena porque é de se esperar que aqui no Brasil se chegue ao ponto de aceitar a profissão de crítico (ou qualquer uma relacionada à literatura) como ingrata. Laub parece considerar a profissão como uma péssima escolha que alguém pode fazer, como se não houvesse saída (?) para o sofrimento que é ser crítico, seja onde for.

Sempre considerei que o motivo básico para se trabalhar com literatura é gostar de ler. É preciso estar apegado a esse princípio (antes mesmo da necessidade de se expressar), especialmente quando se lê um livro ruim.

Talvez o mito de que os críticos tendem a ser rabugentos vez ou outra seja verdadeiro. Mas o que causa tal reação? Ler um texto ruim pode ser uma desculpa válida, mas, ainda assim, não gostar de um livro jamais justificará, por exemplo, a violência que transborda em alguns textos.

É necessário que se lembre de um ponto crucial: não é culpa do autor se o livro é ruim. É culpa (se é que existe) da incompatibilidade de pensamentos e gostos, algo que deveria ser tratado com mais respeito e até reverência.

O crítico como escritor

Se o crítico é o maior defensor da literatura, segundo escreveu Laub, ele tem o dever de saber que o melhor livro já escrito não vai cair em suas mãos nesta vida. Portanto, não há necessidade de freqüentes reclamações. Parece que todo crítico espera por um milagre que o salvará do lado negro da literatura. É o resultado de se focar no que não existe.

Mas, por outro lado, muitas vezes me interesso por um livro mais pelo que o autor da crítica deixou de falar do que pelo que está no texto. O escritor e crítico Flávio Carneiro consegue ver aspectos extremamente valiosos: se tentarmos analisar o que o crítico não falou sobre determinado livro, é possível encontrar uma visão interessante da cultura. O que o levou a não prestar atenção ou a desconsiderar certos pontos? Se ele tivesse nascido sob outros costumes culturais, o livro lhe seria o mesmo?

Outra questão levantada por Carneiro em uma palestra foi: o processo de criação de uma crítica não chama a atenção dos leitores. O foco, na verdade, é apenas no conteúdo, na opinião emitida. Mas o crítico, “afinal de contas”, diz Carneiro, “é um escritor”. “Por que o crítico escreve?” A ligação a uma outra pergunta é rara mas simples: por que o escritor escreve?

Carneiro citou uma famosa frase de Fernando Pessoa (“A literatura, como toda arte, é uma confissão de que a vida não basta”), apresentando um novo e considerável ponto: e se o crítico escrever porque a literatura não basta? Por que somente o ficcionista (ou poeta, cronista, etc.) tem direito ao lirismo? Assim como na ficção se usa certas técnicas de narração (cabe ao autor escolher ou inventar a sua), nada impede o crítico de utilizar recursos semelhantes em seus textos.

Relação afetuosa

Na opinião de Flávio Carneiro, o crítico deve correr o mesmo risco que o escritor: o de não conseguir seduzir o leitor. Segundo Carneiro, o escritor não pode partir do pressuposto de que já ganhou leitores com a publicação de um livro que muito agradou. O que prende o leitor? O escritor deve se preocupar com a forma que inicia um texto ou muda de capítulo. Por que com o crítico tem de ser diferente? Por que só o escritor precisa pensar se o próximo capítulo vai seduzir o leitor? O crítico deve considerar os mesmos aspectos de construção. Não é porque o autor escreve um capítulo sedutor que o parágrafo da crítica sobre ele não deva seduzir da mesma forma ou melhor.

Por perceber que a maioria dos críticos não leva em consideração qualquer um desses pontos, Carneiro afirma que a crítica, de uma forma geral, é muito mal escrita. Ele diz não ser possível alguém ser um bom crítico sem antes ser um bom escritor.

É por não serem bons escritores que a relação com eles é imensamente ruim. Flávio diz que é preciso haver uma relação afetuosa entre críticos e escritores. Um crítico ranzinza faz um escritor ranzinza e, muitas vezes, acontece o oposto. O escritor deve saber que ele não tem e jamais terá a obrigação de escrever para agradar. E o crítico necessita perceber que não é preciso escrever somente porque o livro não agradou.

Às vezes a contramão leva a melhores saídas.



Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BUSCA

» por tema
» por país
» por autor
» no diplô Brasil

BOLETIM

Clique aqui para receber as atualizações do site.

Destaques

» O planeta reage aos desertos verdes
» Escola Livre de Comunicação Compartilhada
» Armas nucleares: da hipocrisia à alternativa
» Dossiê ACTA: para desvendar a ameaça ao conhecimento livre
» Do "Le Monde Diplomatique" a "Outras Palavras"
» Teoria Geral da Relatividade, 94 anos
» Para compreender a encruzilhada cubana
» Israel: por trás da radicalização, um país militarizado
» A “América profunda” está de volta
» Finanças: sem luz no fim do túnel
Mais textos