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A essência esquecida

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Se o crítico é o maior defensor da literatura, ele tem o dever de saber que o melhor livro já escrito não vai cair em suas mãos nesta vida.

Renata Miloni - (23/11/2007)

A revista EntreLivros publicou recentemente o decálogo do leitor (feito por Alberto Mussa), do escritor (por Miguel Sanches Neto) e do crítico (por Michel Laub). Dos três, o que mais me chamou a atenção, e não por bons motivos, foi o último.

No decálogo, Laub quis resumir a utilidade da crítica literária — se há alguma. Li a frase “Você lerá só por obrigação” com uma pequena indignação. Pequena porque é de se esperar que aqui no Brasil se chegue ao ponto de aceitar a profissão de crítico (ou qualquer uma relacionada à literatura) como ingrata. Laub parece considerar a profissão como uma péssima escolha que alguém pode fazer, como se não houvesse saída (?) para o sofrimento que é ser crítico, seja onde for.

Sempre considerei que o motivo básico para se trabalhar com literatura é gostar de ler. É preciso estar apegado a esse princípio (antes mesmo da necessidade de se expressar), especialmente quando se lê um livro ruim.

Talvez o mito de que os críticos tendem a ser rabugentos vez ou outra seja verdadeiro. Mas o que causa tal reação? Ler um texto ruim pode ser uma desculpa válida, mas, ainda assim, não gostar de um livro jamais justificará, por exemplo, a violência que transborda em alguns textos.

É necessário que se lembre de um ponto crucial: não é culpa do autor se o livro é ruim. É culpa (se é que existe) da incompatibilidade de pensamentos e gostos, algo que deveria ser tratado com mais respeito e até reverência.

O crítico como escritor

Se o crítico é o maior defensor da literatura, segundo escreveu Laub, ele tem o dever de saber que o melhor livro já escrito não vai cair em suas mãos nesta vida. Portanto, não há necessidade de freqüentes reclamações. Parece que todo crítico espera por um milagre que o salvará do lado negro da literatura. É o resultado de se focar no que não existe.

Mas, por outro lado, muitas vezes me interesso por um livro mais pelo que o autor da crítica deixou de falar do que pelo que está no texto. O escritor e crítico Flávio Carneiro consegue ver aspectos extremamente valiosos: se tentarmos analisar o que o crítico não falou sobre determinado livro, é possível encontrar uma visão interessante da cultura. O que o levou a não prestar atenção ou a desconsiderar certos pontos? Se ele tivesse nascido sob outros costumes culturais, o livro lhe seria o mesmo?

Outra questão levantada por Carneiro em uma palestra foi: o processo de criação de uma crítica não chama a atenção dos leitores. O foco, na verdade, é apenas no conteúdo, na opinião emitida. Mas o crítico, “afinal de contas”, diz Carneiro, “é um escritor”. “Por que o crítico escreve?” A ligação a uma outra pergunta é rara mas simples: por que o escritor escreve?

Carneiro citou uma famosa frase de Fernando Pessoa (“A literatura, como toda arte, é uma confissão de que a vida não basta”), apresentando um novo e considerável ponto: e se o crítico escrever porque a literatura não basta? Por que somente o ficcionista (ou poeta, cronista, etc.) tem direito ao lirismo? Assim como na ficção se usa certas técnicas de narração (cabe ao autor escolher ou inventar a sua), nada impede o crítico de utilizar recursos semelhantes em seus textos.

Relação afetuosa

Na opinião de Flávio Carneiro, o crítico deve correr o mesmo risco que o escritor: o de não conseguir seduzir o leitor. Segundo Carneiro, o escritor não pode partir do pressuposto de que já ganhou leitores com a publicação de um livro que muito agradou. O que prende o leitor? O escritor deve se preocupar com a forma que inicia um texto ou muda de capítulo. Por que com o crítico tem de ser diferente? Por que só o escritor precisa pensar se o próximo capítulo vai seduzir o leitor? O crítico deve considerar os mesmos aspectos de construção. Não é porque o autor escreve um capítulo sedutor que o parágrafo da crítica sobre ele não deva seduzir da mesma forma ou melhor.

Por perceber que a maioria dos críticos não leva em consideração qualquer um desses pontos, Carneiro afirma que a crítica, de uma forma geral, é muito mal escrita. Ele diz não ser possível alguém ser um bom crítico sem antes ser um bom escritor.

É por não serem bons escritores que a relação com eles é imensamente ruim. Flávio diz que é preciso haver uma relação afetuosa entre críticos e escritores. Um crítico ranzinza faz um escritor ranzinza e, muitas vezes, acontece o oposto. O escritor deve saber que ele não tem e jamais terá a obrigação de escrever para agradar. E o crítico necessita perceber que não é preciso escrever somente porque o livro não agradou.

Às vezes a contramão leva a melhores saídas.



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