Jornalismo Crítico | Biblioteca e Edição Brasileira | Copyleft | Contato | Participe! |
Uma iniciativa


» Aos super ricos, os super genes?

» A Ideologia da Mineração está em xeque

» Orçamento 2020 expõe o Bolsonaro das elites

» A esquecida questão da desigualdade energética

» Crônica de Cuba, em incerta transição

» “Direitos Já”: Uma perigosa contradição

» Cinema: Espelhos deformantes

» As mentiras da ciência a serviço do mercado

» Anatomia da próxima recessão global

» Passo a passo para frear a devastação da Amazônia

Rede Social


Edição francesa


» Les beaux jours de la corruption à la française

» Parler français ou la « langue des maîtres » ?

» Au Portugal, austérité et contestation

» Le piège du 11-Septembre

» Quand la gomme arabique fait tanguer l'Amérique

» Au Kosovo, la « sale guerre » de l'UCK

» L'école publique à l'encan

» Le régime de Khartoum bousculé par la sécession du Sud

» Les apprentis sorciers de la retraite à points

» Hongkong dans l'étau chinois


Edição em inglês


» September: the longer view

» Afghan peace talks: Trump tweets, Taliban fights

» An inexhaustible myth in times of extreme adversity

» What happened to social solidarity?

» Sudan: conflict, violence and repression

» Russia's appointed billionaires

» Another end is possible

» Arms sales: the Swedish model

» Soft power influence in the Arabian Gulf

» Life with bribes and kickbacks


Edição portuguesa


» Edição de Setembro de 2019

» Portugal não pode parar?

» Quem elegeu Ursula von der Leyen?

» Edição de Agosto de 2019

» Plural e vinculado à esquerda

» Os talibãs de São Francisco

» Edição de Julho de 2019

» Inconsistências (ou o sono da razão?)

» Comércio livre ou ecologia!

» Edição de Junho de 2019


Vozes hispânicas

Entre o romantismo e a modernidade

Imprimir
Enviar
Compartilhe

Em contraste com a sintaxe e o léxico sonoros e altissonantes das obras de Espronceda e Zorilla, os poemas de Bécquer apresentam uma linguagem depurada e concisa

Marco Catalão - (23/11/2007)

O maior poeta espanhol do século 19, Gustavo Adolfo Bécquer (1836-1870), teve seu único livro de versos, Rimas, publicado apenas postumamente, por iniciativa de alguns amigos, em 1871. Bécquer é um romântico tardio: no momento em que ele escreve, o romantismo, tanto na Espanha quanto no resto da Europa, já é uma sensibilidade literária desacreditada, prestes a ser substituída pela estética realista. No entanto, essa circunstância temporal parece ter se aliado perfeitamente à singularidade do talento do poeta sevilhano, fazendo com que ele superasse as limitações do primeiro romantismo espanhol.

Em contraste com a sintaxe e o léxico sonoros e altissonantes das obras de Espronceda e Zorilla, os poemas de Bécquer apresentam uma linguagem depurada e concisa; em lugar da superficialidade dos elementos anedóticos que predominam na poesia espanhola do início do século 19, a das Rimas se destaca pelo intimismo; aos longos e prolixos poemas escritos em tom retórico por seus antecessores, Bécquer opõe poemas breves, sintéticos, em que predominam a rima toante e o tom menor. A enganadora simplicidade do seu estilo produz um efeito de intimidade, de confissão, que pode iludir o leitor mais ingênuo. Através de meios relativamente limitados, como o hipérbato ou o paralelismo, ele confere aos versos uma musicalidade eficaz, em que som e sentido estão indissociavelmente ligados.

É justamente esse propósito de construção de uma nova linguagem poética o que torna Bécquer um dos precursores do modernismo espanhol, movimento literário que, alguns anos depois da sua morte, tentará aproximar a poesia da música e da pintura. A consciência sobre a limitação da retórica tradicional romântica revela uma das características mais importantes da poética becqueriana: o caráter sugestivo e alusivo dos seus versos, que representarão uma lição fundamental para poetas do quilate de Antonio Machado e Juan Ramón Jiménez, que não hesitariam em assinar a definição sintética de Dámaso Alonso, segundo a qual a obra de Bécquer é o ponto de partida de toda a poesia espanhola moderna.

Poemas

Rima LXIX

Al brillar un relámpago nacemos,
y aún dura su fulgor cuando morimos:
¡tan corto es el vivir!

La Gloria y el Amor tras que corremos
sombras de un sueño son que perseguimos;
¡despertar es morir!

* * *

Ao brilhar um relâmpago nascemos,
e ainda dura o fulgor quando partimos:
tão breve é este viver!

A Glória e o Amor atrás dos quais corremos
sombras de um sonho são que perseguimos;
despertar é morrer!

Rima XIII

Tu pupila es azul y, cuando ríes,
su claridad süave me recuerda
el trémulo fulgor de la mañana
que en el mar se refleja.

Tu pupila es azul y, cuando lloras,
las transparentes lágrimas en ella
se me figuran gotas de rocío
sobre una vïoleta.

Tu pupila es azul, y si en su fondo
como un punto de luz radia una idea,
me parece en el cielo de la tarde
una perdida estrella.

* * *

Teus olhos são azuis, e quando ris
o seu brilho suave me relembra
o trêmulo fulgor da madrugada
que no mar reverbera.

Teus olhos são azuis, e quando choras
as transparentes lágrimas que os velam
são como gotas límpidas de orvalho
sobre uma violeta.

Teus olhos são azuis, e, se em seu fundo
como um ponto de luz fulge uma idéia,
é como o cintilar no céu da tarde
de uma perdida estrela.

Rima II

Saeta que voladora
cruza, arrojada al azar,
y que no se sabe dónde
temblando se clavará;

hoja que del árbol seca
arrebata el vendaval,
sin que nadie acierte el surco
donde al polvo volverá;
gigante ola que el viento

riza y empuja en el mar,
y rueda y pasa, y se ignora
qué playa buscando va;
luz que en cercos temblorosos

brilla, próxima a expirar,
y que no se sabe de ellos
cuál el último será;
eso soy yo, que al acaso

cruzo el mundo sin pensar
de dónde vengo ni a dónde
mis pasos me llevarán.

* * *

Seta que cruza voando,
arremessada ao azar,
que não pode saber onde
tremendo irá se cravar;

folha que da árvore seca
arrebata o vendaval,
sem que ninguém saiba o sulco
onde ao pó regressará;

gigante onda que o vento
eriça e puxa no mar,
e roda e passa e não sabe
que praias buscando vai;

luz que em locais tremulantes
brilha, próxima a espirar,
e que não sabe em qual deles
por último brilhará;

isso sou eu, que ao acaso
cruzo o mundo, sem pensar
de onde venho nem aonde
meus passos vão me levar.

Rima XI

—Yo soy ardiente, yo soy morena,
yo soy el símbolo de la pasión;
de ansia de goces mi alma está llena;
¿a mí me buscas?
—No es a ti, no.

—Mi frente es pálida, mis trenzas de oro;
puedo brindarte dichas sin fin;
yo de ternuras guardo un tesoro;
¿a mí me llamas?
—No, no es a ti.

—Yo soy un sueño, un imposible,
vano fantasma de niebla y luz;
soy incorpórea, soy intangible;
no puedo amarte.
—¡Oh ven, ven tú!

* * *

— Eu sou ardente, eu sou morena,
eu sou o símbolo da paixão;
de ânsia de gozos minha alma é plena;
a mim procuras? — Não; a ti, não.

— Meu rosto é pálido; as tranças, de ouro;
posso brindar-te ditas sem fim;
eu de ternuras guardo um tesouro;
a mim tu chamas? — Não; não a ti.

— Eu sou um sonho, um impossível,
um vão fantasma de névoa e luz;
sou incorpórea, sou intangível;
não posso amar-te. — Oh, vem, vem tu!...

Rima LIII

Volverán las oscuras golondrinas
en tu balcón sus nidos a colgar,
y otra vez con el ala a sus cristales
jugando llamarán.

Pero aquellas que el vuelo refrenaban
tu hermosura y mi dicha a contemplar,
aquellas que aprendieron nuestros nombres...
¡esas... no volverán!.

Volverán las tupidas madreselvas
de tu jardín las tapias a escalar,
y otra vez a la tarde aún más hermosas
sus flores se abrirán.

Pero aquellas, cuajadas de rocío
cuyas gotas mirábamos temblar
y caer como lágrimas del día...
¡esas... no volverán!

Volverán del amor en tus oídos
las palabras ardientes a sonar;
tu corazón de su profundo sueño
tal vez despertará.

Pero mudo y absorto y de rodillas
como se adora a Dios ante su altar,
como yo te he querido...; desengáñate,
¡así... no te querrán!

* * *

Voltarão as escuras andorinhas
seus ninhos na varanda a pendurar,
e outra vez com as asas em seus vidros
brincando vão chamar.

Mas aquelas que o vôo suspendiam,
tua beleza e meu júbilo a fitar,
aquelas que aprenderam nossos nomes...
essas... não vão voltar!

Voltarão as espessas madressilvas
de teu jardim as cercas a escalar,
e novamente à tarde, ainda mais belas,
suas flores vão lançar.

Mas aquelas molhadas pelo orvalho,
cujas gotas olhávamos brilhar
e cair como lágrimas do dia...
essas... não vão voltar!

Voltarão, sim, do amor em teus ouvidos
as palavras ardentes a soar;
teu coração, de seu profundo sono,
talvez despertará.

Mas mudo e extasiado e de joelhos,
como se adora a Deus frente ao altar,
como te amei um dia... ; desengana-te:
assim... não vão te amar!



Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BUSCA

» por tema
» por país
» por autor
» no diplô Brasil

BOLETIM

Clique aqui para receber as atualizações do site.

Destaques

» O planeta reage aos desertos verdes
» Escola Livre de Comunicação Compartilhada
» Armas nucleares: da hipocrisia à alternativa
» Dossiê ACTA: para desvendar a ameaça ao conhecimento livre
» Do "Le Monde Diplomatique" a "Outras Palavras"
» Teoria Geral da Relatividade, 94 anos
» Para compreender a encruzilhada cubana
» Israel: por trás da radicalização, um país militarizado
» A “América profunda” está de volta
» Finanças: sem luz no fim do túnel
Mais textos