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"O homem tinha (eu achava) cara mesmo de pescador: faces descarnadas, secas de sol, a barba cinzenta e rala encompridando o bigodão. Enfiados nos braços, os cestos de vime: gingando no passo dele, tampas saltando, os peixes querendo fugir, voltar ao Guaíba, ao Taquari – nadar"

Romilda Raeder - (23/11/2007)

Amoreira

Água na boca me dá, lembrar. Não sei quando a descobri. Desde que lembro: a amoreira vivia ali. Nascia do outro lado, verdade. Tão boazinha, que pulava a cerca. Estendendo galhos como abraços. Dizendo: vem. Eu deles embaixo, dentro. Do rosa-roxo. Do roxo-amora. Comendo. Tingindo os dedos. Querendo o roxo. O rosa-roxo das amoras por entre folhas. Rosa. Roxo. Quase negro. Tão doces. De aguar rosa-roxo-negro a boca.

E era cada uma daquele tamanho!

(Amoras, maçãs, caquis, pêssegos, pêras, abacaxis. Tudo encolhe de tamanho, quando a gente cresce. Naquele tempo, não pensava nisto: no inverso, no avesso. No tamanho mesmo das coisas pensava, sim. Pensava e enchia os olhos. E a boca.)

Pois: não que as achasse maiores que outras. Não vira outras. O tamanhão daquelas é que: dava o tamanho da vontade.

Mesmo sabendo. Da mancha na mão. No rosto. Na roupa. Da bronca. Do banho fora de hora, encolhendo o tempo. De comer amoras. De brincar: de tempo do tempo, de tempo do longe, de longe do longe.

E era quase uma vida. O tempo parava ali. Tudo o que havia: amoras. Doces amoras que eu nunca mais

maio de 1996

Goiabas

Eu era, sim: doida-doidinha por elas. Lá em cima. Nos galhos mais altos. Cheirando gostoso. Chamando.

Um olho à esquerda. Outro à direita. Ninguém por perto, eu subia. Agora: qual a melhor? Esta? Pequena. Aquela? Verde, ainda. Hum. Deixa eu ver: aquela ali! Casca grossa. Amarela-madura. Por dentro terá que ser: polpa rosada, quase vermelha. Doce como só. Mais alguma? Aqui. Outra, ali. E esta? Não. Que está é bichada.

Eu conhecia. De pegar, apalpar: muito mole? Premiada. Na certa. Às vezes, porém, apanhava. E quebrava na hora. Ali mesmo. Encarapitada. Não tinha um minuto, ele aparecia. Botava a cabeça de fora, me encarava. Indignado. Indignadíssimo. Onde se viu? Destruir casa-comida alheia? Gigantesca, poderosa, mostrava-lhe os dentes: vou te comer! Ele, atrevido: come, que eu quero ver. Não comia. Ele ria. E eu me vingava: ploff! - no meio do galinheiro.

Descer, isso era outra história. Não tinha mais mãos. Pés, cotovelos, era tudo o que eu tinha. E as goiabas. Não fosse perder as goiabas. Ai-meu-deus, que eu escorrego! Foi por pouco. Naquele ali. Será que dá? Deu.

Salto para o chão, corro para o tanque. A água esguicha. E elas se entregam. Cobertas de gotas cristalinas.

maio de 1996

Rubis

Pensando bem, já falei em rubis. Pendurados. Em parreiras, talvez. Ah! é isto: nas parreiras de D. Simira (entrevistas nos vãos da cerca). E ainda falei em cheiros. Noutras lembranças. Até que me veio esta uma. Do fundo do quintal, do lado daquela figueira. Então...

... curva-te um pouco, que a ramagem é baixa. Cuidado com os gravetos miúdos, debaixo das folhas secas — fincam na sola do pé. Agora vem. Olha aquela, de casca bem amarela, rachando de tão madura. Mas fecha os olhos, que é para sentir. Cheiram bem, não cheiram? Agora estende a mão, pega uma. Já podes olhar. Mas abre a baga com cuidado, que é p’ra não desperdiçar. E aí estão: Já viste coisa igual? Um gosto meio apertado, meio doce. Pequeno que ele só. Pedindo paciência.

Que eu tinha de sobra.

abril de 2001

ÓlhupÊixpintÁdu

Eu gostava daquele grito. Crescendo de longe, esganiçado e rouco. Era ouvir, largava tudo. Corria portafora. Ia-lhe ao encontro.

O homem tinha (eu achava) cara mesmo de pescador: faces descarnadas, secas de sol, a barba cinzenta e rala encompridando o bigodão. Enfiados nos braços, os cestos de vime: gingando no passo dele, tampas saltando, os peixes querendo fugir, voltar ao Guaíba, ao Taquari – nadar.

Às tantas, depunha os cestos e esperava.

Logo as mulheres surgiam. Dos portões, como um enxame. Apressadas. Enxugando as mãos em aventais xadrezes. Batendo alpercatas nos calcanhares. Falando todas ao mesmo tempo. O pedaço de rua virava um mercado. Alegre. Cheirando a louro, coentro, cebola – e a lenha verde, estalando no fogo.

O homem sorria: leva que é peixe bão, pode levá sem susto. Pega daqui, examina dali. Que peixe, se é fresco, tem olhos brilhantes e guelras vermelhas. Olhos baços e guelras pálidas – ai, meu Deus! – é peixe estragado, um veneno!

Não tá vendo que tão vivo, dona? Leva que é garantido!

Levavam. Eu, olhando e aprendendo: peixe, se é fresco, tem olhos brilhantes e guelras vermelhas.

Voltavam então aos fogões num plequepleque assanhado. Os cheiros de ensopado e de pirão logo viriam à rua: em mão dupla, visitando-se, crescendo água nas bocas.

E ia-se, o homem do peixe, anunciando o petisco do dia.

Na esquina por onde sumia, ficava o rabicho do grito. Que me entrou por um ouvido – e jamais saiu pelo outro.

março de 1994

Verdureiro

Um outro grito me encantava: o do verdureiro.

(Modo de dizer: verdureiro. Modo de se anunciar. Que a carroça tinha de tudo: frutas, verduras, legumes, temperos.)

Não que me atraíssem as verduras. Gostava mesmo era de carne. Assada. Frita. Guisada. Melhor ainda: na brasa. (Suculenta, fosse como fosse.) Verdura? Não comia – uma briga!

Mas tem que eu gostava das cores. Cores com cheiros. Cheiros com cores.

Fechava os olhos.

E rimava: amarelo com banana; branco-rosa com goiaba; roxo-palha com cebola; e carmim com beterraba.

Verde era mais complicado: o mundo virava em folhas. Largas, compridas, mirradas. Verde-louro-marrom-desbotado-escuro-claro-e-apaga-do-brilhante-verde-enjoado-comido-empurrado-obrigado-verde-de-não-se-acabar. (E um copo d’água pra empurrar!)

Agora: que eu gostava da carroça, lá isso eu gostava.

setembro de 1996

*Os textos acima (e outros, já publicados na internet) integram a obra Doces amoras que eu nunca mais....



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