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CRÍTICA

O ressentimento da tropa

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Tropa de Elite erra o alvo ao denunciar a suposta cumplicidade da classe média com o crime. O ataque serve de álibi para subestimar os preconceitos que marcam a ação policial e esquecer que uma nova polícia só seria possível num país transformado

Laurindo Dias Minhoto - (23/11/2007)

Vistas de fora, todas as favelas se parecem. No entanto, quem tem de entrar nelas sem ser convidado sabe que isto constitui grossa simplificação. O capitão Nascimento raciocina mais ou menos nesses termos, durante uma das sessões darwinistas de treinamento da elite da tropa.

“Tropa de elite” investe, por um lado, no foco subjetivo, interno à corporação policial. O objetivo é criticar as supostas simplificações da esquerda, nos diagnósticos sobre segurança pública e criminalidade no Brasil contemporâneo. A exposição do método bárbaro de combate ao crime pelas forças da ordem convive de perto, no filme, com o mantra do “polícia para quem precisa de polícia”. É como se a brutalidade da ação de uns e a miséria da reflexão de outros se alimentassem reciprocamente.

Salvo engano, é esse um dos sentidos da “formação” presente no filme. Ou seja, a constatação de que há um ponto cego no diagnóstico de esquerda sobre a crise de segurança pública: a falta de reflexão aprofundada sobre a especificidade das estruturas de repressão ao crime, dentro das balizas do Estado de Direito.

Na narrativa, as “formações” da tropa, do cidadão e do país aparecem entrelaçadas. Ou, mais especificamente: a formação da tropa tem de lidar com o déficit de legitimidade da polícia, que teria como origem a caricaturização feita pela esquerda — e enraizada socialmente no país desde pelo menos o período da ditadura militar. A partir dessa perspectiva, a dissociação entre democracia e polícia constituiria um capítulo relevante da má formação nacional. É sobre ela que importaria lançar luz, elevando o debate público a um patamar supostamente mais elevado de reflexão.

Quando a crítica ao Estado é ofuscada pelo ressentimento contra os "maconheiros"

De outra parte, o foco no sujeito permite denunciar a negligência de sucessivos governos, incapazes de formular e executar uma política pública consistente para as polícias brasileiras. Em conseqüência, elas tendem a reproduzir o favor, a malandragem e a corrupção como dispositivos paradoxais. Condenáveis em si mesmos, eles possibilitam, no entanto, a própria continuidade das ações policiais e, no limite, reforçam o descontrole institucional da corporação.

Aquilo que no filme aparece como o funcionamento do “sistema” constitui prova irrefutável do caráter assistemático das políticas de segurança pública no país. Ao déficit simbólico referido acima, acrescenta-se o sucateamento material da polícia, cujos atores viram-se como podem entre a esfera da ordem e da desordem, mimetizando, no andamento errático de suas ações, a ausência de planejamento institucional e a precariedade administrativa da instituição.

Interessante notar como o personalismo que alimenta a precariedade da tropa comum também se faz presente na formação da tropa de elite. Numa de suas melhores cenas, o filme mostra uma aula do capitão Nascimento sobre o conceito de estratégia. Nas imagens, o arbítrio personalista e o arremedo de inteligência andam de mãos dadas.

É esse mesmo foco interno que possibilita uma crítica implacável ao “shinny happy people” que fuma maconha, participa de ONGs, discute Foucault e alimenta o negócio do tráfico de drogas e de armas. No filme, essa “comunidade” parece personificar o simplismo dos diagnósticos pseudo-progressistas e, nessa condição, é submetida a uma crítica tão radical e truculenta quanto o bárbaro padrão histórico de atuação policial no Brasil contra os de baixo. Trata-se de um nivelamento bastante discutível, que parece evidenciar os limites da perspectiva interna adotada pela narrativa, bem como o travo específico do ressentimento que pontua o filme do princípio ao fim.

É como se o clichê policial – que reduz com freqüência o outro ao estatuto universal do vagabundo e do maconheiro – saísse de mãos dadas com a pregação moral de certa esquerda, retratada no filme como míope e burguesa, e que se expressa no automatismo de equações do tipo “pobreza mais polícia truculenta é igual a política de extermínio” etc. São duas simplificações igualmente perniciosas, parece bradar reiteradamente o filme, justificando nessa medida a truculência regressiva no trato com os de cima.

Esse nivelamento das simplificações opera quando aplica o clichê policial à sua clientela não preferencial: as classes média e alta. Essa inversão, pela qual o “mauricinho” é esculachado como maconheiro e alienado, empresta à narrativa um verniz crítico, que auxilia a amarração de uma das pontas do ressentimento. Está-se vendo que a tropa de elite não brutaliza apenas os desfavorecidos mas também — e significativamente da perspectiva do filme — a consciência alienada dos “bacanas”.

O filme admite, pela porta dos fundos, o moralismo que pretensamente quer exorcizar

Este ressentimento de classe pode seduzir, especialmente por ocultar, ainda que de forma parcial, o sentido mais fundo do comportamento classista da polícia no Brasil. Para além da truculência em si mesma, parece estar aí o sentido regressivo da inversão.

A representação do discurso do falso progressismo como discurso alienado encontra seu ponto máximo, no filme, na cena que desautoriza a passeata de burgueses contra a violência. Este artifício deriva de um traço objetivo da sociabilidade contemporânea: a perda de substância social do discurso e das práticas da nova esquerda, que converte progressivamente a gramática dos direitos humanos em retórica vazia e coreografia patética, carente de conteúdo histórico no cenário de guerra civil e estado de sítio em que nos encontramos.

Ao assumir o ponto de vista da necessária racionalização da segurança pública no país, o filme permite que entre pela porta dos fundos o moralismo que, em princípio, procura exorcizar. Em nenhum momento, Tropa de Elite se dispõe a refletir às claras sobre os limites dessa racionalização no atual contexto brasileiro. É como se o filme impusesse sua tese por decreto narrativo -– uma espécie de AR-15 civilizatório -– e diante da resistência do objeto em se deixar apanhar por esse flanco, só lhe restasse o deblaterar ressentido sobre a pretendida mudança que não veio.

Assim é que o ressentimento do policial incorruptível e truculento contra o burguês inconseqüente parece ser da mesma ordem do ressentimento de quem apostou na via do combate eficiente ao crime (Neto) dentro da legalidade (Matias) e pretendeu, por assim dizer, saltar sobre a nossa própria realidade. Além do que comporta de trágico, não deixa de ser perversa a ironia pela qual o filme torna-se “objeto cultural” no Brasil de hoje, precisamente naqueles aspectos que reforçam esses limites.

Se as favelas são de fato muito diferentes entre si, o que importa, no final das contas, é definir a melhor estratégia de ocupação do próximo morro ou, nos termos do capitão Nascimento, saber se a invasão se dará por mar, por terra ou pelo ar. Esse é o sentido inequívoco da simplificação violenta que tem prevalecido historicamente entre nós.



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