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Meu combate pela Amazônia

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Militante em defesa da floresta relata décadas de uma batalha que começou em Boca do Acre e se desdobrou na formação de comitês no Brasil e em outros países. Uma conclusão: "é preciso enfrentar as teorias de desenvolvimeno que vêem o mundo a partir do cálculo econômico"

Marilza de Melo Foucher - (30/11/2007)

Ao vir para Paris junto com outros companheiros (as) do Pará, Amazonas e Rio Janeiro fundamos o Comitê Internacional de Defesa e Desenvolvimento da Amazônia, (CIDA), que continua até hoje com seu registro de associação 1901 (lei que rege as associações sem fins lucrativos na França). Depois de quase trinta anos, percebo que a vigilância na defesa da Amazônia deve continuar. As atividades do CIDA foram encerradas com a volta da maioria de seus integrantes ao Brasil. Achávamos que havíamos cumprido nossos objetivos, tendo em vista que a causa da defesa da Amazônia e da busca de alternativas para um outro desenvolvimento tinha sido abraçada por muitos — inclusive por Chico Mendes com outros amigos no Acre, que faziam resistência às políticas devastadoras. Os MDAs (Movimentos de Defesa da Amazônia) espalhavam-se pelo Brasil. Nossos gritos de protestos saíam das fronteiras brasileiras e a Amazônia entrava para cena internacional. A conferência RIO-92, da ONU, representava um compromisso com as causas que defendíamos.

Tudo levava a acreditar que, com o processo de democratização do Brasil, a questão das políticas desenvolvimentista para a Amazônia iria mudar. Esperava-se que os governos locais e governo federal tomassem consciência do enorme patrimônio ecológico e cultural da região e passassem a valorizá-lo, optando por um desenvolvimento com visão mais integrada respeitando a biodiversidade e sócio-diversidade da região.

Relendo hoje a imprensa internacional e alguns artigos, vejo que, após tantos anos de combate, a agressão aos ecossistemas amazônicos continua. Todavia, vale ressaltar e levar em conta inúmeros avanços, que deram origem a vários eventos e iniciativas, entre eles a realização da RIO-92 no Rio e a criação da agenda 21. Além disso, uma grande pressão dos movimentos sociais e ONGs permitiu que a Amazônia constasse em nossa Constituição. Hoje ela aparece no Artigo 225, parágrafo 4º, da Carta: "A Floresta Amazônica é patrimônio nacional, e sua utilização far-se-á, na forma da lei, dentro de condições que assegurem a preservação do meio ambiente, inclusive quanto ao uso dos recursos naturais".

Para garantir a Constituição, levantar a voz junto às autoridades

Apesar de certos avanços, ainda é preciso levantar a voz, gritar nos ouvidos das autoridades, para garantir que se aplique a Constituição! Chamar atenção para que eles empreendam políticas regionais capazes de barrar a lógica da devastação e da destruição do patrimônio eco-cultural. O exemplo mais gritante dos abusos foi a autorização, por Fernando Henrique Cardoso, do plantio da soja na Amazônia. Apesar do absurdo, não houve, infelizmente, muita mobilização contra tal plano. Como controlar o uso da soja transgênica na Amazônia? Que fiscalização existe nesse sentido junto ao agronegócio de soja, presente na região? Como delimitar e proibir que se expanda? E em relação às áreas de pastagens: existem alternativas à concepção da ditadura militar, que visava o progresso amazônico carimbado pelas patas de boi?

Para a defesa de nosso patrimônio ecológico e da diversidade biológica e cultural teremos que defender e por em prática a filosofia do desenvolvimento territorial integrado, solidário e sustentável. Não podemos ter visão setorializada do desenvolvimento, dai o fracasso das políticas desenvolvimentistas que partem sempre do cálculo econômico.

Ao mesmo tempo, temos que denunciar os que se apropriam do desenvolvimento sustentável com finalidade do marketing ecológico, sob a égide dos resultados econômicos. Na Amazônia, existem certas associações que atuam nesse sentido. Travestidas de ecológicas, pregam o desenvolvimento sustentável, mas faturam em cima do “rótulo” com nossas essências florestais, que, ao meu ver, devem ser também fiscalizadas. Os governos locais e a sociedade civil organizada precisam verificar se tais associações estão fazendo replantio de árvores e se a população local está sendo beneficiada e educada ao manejo florestal para o uso ecológico da floresta. Urge verificar a contabilidade dessas associações que, às vezes, passam por ONGs ambientais sem fins lucrativos. Justamente para que elas não deturpem a imagem de muitas outras que atuam na região, agem com uma visão holística do desenvolvimento e lutam pela inclusão social das populações amazônicas.

Quando se atua com uma visão sistêmica do desenvolvimento, não se separa o ecológico do político, cultural, social e econômico. A economia tem de estar a serviço do ser humano que protege a biodiversidade e sócio-diversidade. Os ecossistemas são parte integrante de nossa existência.

Nenhuma reforma é eficaz quando não há noção de cidadania

Nasci em Boca do Acre. Como para toda criança amazônica nascida no interior, a floresta é parte integrante de minha vida: carregada de forças sagradas, de mitos que alimentaram meu imaginário infantil. Minha convivência com o verde, em todas suas tonalidades, imprimiu um estilo de vida e cultura marcada pela esperança e uma forma de liberdade e convivência espontânea com a natureza. Daí meu eterno combate, pois faço parte também das mulheres guerreiras! Minha floresta de convivência, de símbolos, mitos, minha cultura amazônica não podem continuar a ser agredidas e destruídas sem escrúpulos.

Que as ONGs comprometidas com o desenvolvimento territorial integrado e sustentável, o mundo acadêmico da Amazônia e do Brasil, as organizações indígenas, os partidos políticos comprometidos com a inclusão social e progresso para todos não baixem o nível de vigilância na defesa da integridade ecológica da Amazônia. O governo Lula, altamente legitimado pelo voto na região, deve dar todas as condições necessárias para sua sustentabilidade ecológica, cultural, social, econômica e política. Cobrar resultados dos projetos governamentais a curto, médio e longo prazo é um dever nosso no exercício da florestania/cidadania. As reformas não reformam quando os atores do desenvolvimento não estão preparados ao exercício da cidadania.

Vamos continuar a denunciar todos os dias os que continuam agredindo os ecossistemas e as culturas do povo da floresta. Vamos continuar propondo alternativas para um desenvolvimento territorial integrado, solidário e sustentável para a Amazônia.

MAIS

Identidade Tropical

Nasci e cresci na Amazônia
Boca do Acre, Rio Branco, Manaus.
Denominada Amazônia Ocidental.
Nela forjei minha identidade tropical
No lugar de cidadania
Reivindico da “florestania”
Pertenço aos povos da Floresta
Sou cabocla!
Nascida na beira do Rio
Sou da sociedade da canoa
Nada de esforço desnecessário
Navegar é preciso
Remar nem sempre
Tudo depende das correntes
Eis o aprendizado dos rios:
Saber aproveitar da calmaria
Observar os remansos
Olhar o rebojo sem se apavorar.
Na filosofia cabocla
A noção do tempo é distinta
Tudo depende da intensidade
Emocional da espera...

Marilza de Melo Foucher, 14 de abril de 2005



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