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De Drácula a Philip Marlowe

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Até que ponto é possível reduzir o gênero policial a um punhado de características?

Olivia Maia - (30/11/2007)

A origem do romance policial que conhecemos hoje — independente de possíveis divergências quanto à definição precisa do gênero — está na literatura gótica do século 18. Nesse grupo, estão histórias que tratam de cientistas, do mundo dos mortos e de aberrações. O impacto da revolução industrial fez surgir todo tipo de nova literatura, e a paranóia e o medo dessa sociedade faziam propícias essas manifestações de horror.

Mas mudam os medos da sociedade.

O que hoje chamam histórias de detetive, e o que muitos consideram o único tipo verdadeiro de literatura policial, é o que outros chamariam de romance policial clássico. Esse é o gênero criado por Edgar Allan Poe com o conto Assassinatos na rua Morgue. Dele veio Conan Doyle e Sherlock Holmes, Agatha Christie e Poirot. São histórias de um detetive brilhante que toma a investigação como uma espécie de exercício cerebral. O crime é uma aberração, não um problema social. Trata-se de um motivo individual e de uma culpa individual. Por isso, pode reparar, a maioria das histórias da Agatha Christie se passam em mansões, cidadezinhas do interior ou um trem. O local é fechado e isolado do mundo. O problema é um que pode ser apontado e eliminado. E, claro, o criminoso não pode escapar da mente superior do detetive, e ao final da história, o mistério será desvendado e punido. O detetive e a lógica controlam completamente o problema e o crime é reduzido a um quebra-cabeça.

Outra característica é a narração em primeira pessoa feita pelo parceiro mais burrinho do detetive. Dessa forma, as idéias mais mirabolantes podem permanecer ocultas até o último momento, e o leitor pode se identificar com esse intelecto menor, tentando acompanhar o raciocínio avançado do detetive.

Talvez seja o caso de chamar esse tipo de literatura de histórias de detetive, ou de mistério. É um tipo mais simples. Ele não quer mexer na ordem social. Muito pelo contrário, o que há é um recado otimista quanto à ordem social. Há um mistério a ser solucionado, e isso, o nosso querido detetive sabe fazer muito bem. A polícia pode ser um tanto quanto incompetente, mas é inofensiva. Surgiu como literatura de entretenimento e sobrevive como literatura de entretenimento, porque é o que faz de melhor.

Muita ambigüidade e pouco moralismo

Mas veio a década de 1920, nos Estados Unidos, para desconstruir um pouco essa noção muito bem estabelecida do romance policial. Outra vez, a sociedade muda. Assim como não há mais de se temer o Drácula, não há mais de se levar a sério as pequenezas de motivos dessas histórias de mistério.

Dashiell Hammett, com o clássico romance O falcão maltês, cria um gênero a que chamam hard-boiled. Hoje em dia, Raymond Chandler, um de seus seguidores, é um pouco mais conhecido, e muitos dirão que o aprendiz superou o mestre. O local da narrativa agora é a cidade, um espaço sórdido, sombrio e, principalmente, corrupto. O que há é a perversidade e o caos que regem as relações humanas. O gênero reflete, de certa forma, os preconceitos da época: a cidade decadente era tomada por imigrantes, socialistas e homossexuais.

Nesse novo espaço, tanto o detetive quanto o crime tornam-se mais complexos. O detetive é um tipo cínico e frustrado, e não necessariamente um grande mestre do raciocínio. Ele conhece o submundo e sabe se virar com ele. Mas é no fundo um sujeito virtuoso e honesto, enquanto a lei é ineficaz ou corrupta e a classe dominante é desonesta.

Na verdade, entre o detetive e o criminoso apenas um código de honra os separa. O detetive vive esse submundo. Vá ler O falcão maltês. Não é pouco o que Sam Spade, o protagonista, mente ou esconde de informações, tanto dos leitores (que se mantém como espectadores em uma narrativa neutra de terceira pessoa) quanto dos outros personagens. Há muita ambigüidade e pouco moralismo. Esse detetive é um sujeito comum, que precisa de dinheiro para sobreviver — e o dinheiro quase sempre está em falta —, mas que é, acima de tudo, honesto.

Ao contrário do romance policial clássico, o crime faz parte daquela sociedade. O criminoso costuma ser alguém de grande prestígio, não sem usar um ou outro pé-rapado no caminho. A função do detetive é expor a corrupção e a violência, mas ele não tem a capacidade de eliminar a raiz do mal. A lei não é o suficiente para nos proteger. O detetive pode sair vitorioso e alguém pode acabar atrás das grades, mas o mundo hostil em que ele vive nunca sai inteiramente derrotado. Eis então a ordem social a que estão submetidos. Talvez, seja o caso de se chamar caos social.

Pessimismo e entretenimento

Na verdade essa literatura não traz muito conforto. A mensagem é a de que o homem está sozinho em um universo corrompido e sem sentido. Respeito e amor são meras ilusões, que se desfazem com a mesma velocidade com que surgem. A literatura policial surgida nessa época era uma literatura pessimista, mas que, ainda assim, se manteve como literatura de entretenimento. Contos eram publicados em revistas sem-vergonha de papel jornal, e os clichês do gênero nunca deixaram que ele alçasse qualquer prestígio entre os literatos.

Assim até hoje.

O gênero hard-boiled permanece com Dennis Lehane, Michael Connelly e cia., e não é nada difícil identificar essas características nos policiais de hoje em dia. A nomenclatura norte-americana prefere chamar a esses crime fiction. Outros seguem uma linha que mistura um pouco o antigo e o novo, e o resultado são os CSI ou as histórias de Patricia Cornwell. O próprio Rex Stout já fazia um pouco um misto dos dois.

Mas então o que é a literatura policial? Vale colocar as histórias de detetive clássicas como única representação do gênero e dispensar os mestres que foram Dashiell Hammett e Raymond Chandler para a literatura policial que existe hoje em dia? Ou mesmo desprezar o que se encontra da tal crime fiction atualmente, principalmente nos EUA?

Não há dúvidas que o gênero policial, como qualquer outro gênero nesses tempos pós-modernos, empresta um pouco de outros gêneros, ao mesmo tempo em que empresta um pouco para outros gêneros. Não é o caso, porém, de sair por aí dizendo que Crime e castigo, Hamlet ou Édipo rei é literatura policial. A literatura policial tem uma origem definida e um desenvolvimento mais ou menos claro, e os autores que fazem essa literatura costumam saber muito bem o que estão fazendo. Os desvios acontecem e os gêneros híbridos continuarão sendo um desafio para os críticos mais chatos.

E no Brasil? Apesar da influência, a literatura policial brasileira seguiu um caminho diferente daquele de nossos colegas do hemisfério norte. E até hoje não sabemos muito bem o que temos para repertório brasileiro de literatura policial, e as controvérsias são muitas. A maioria dos autores do gênero permanece oculta e não vemos a mídia dar atenção para mais do que três ou quatro deles.

Mas isso já é assunto para um próximo texto.



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