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Cento e sessenta homens parrudos

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Nem o mais aloprado dos econometristas haverá de encontrar traços de eficiência no ato de mandar cento e sessenta policiais (escrevo por extenso para aumentar o impacto) para combater uma pequena, digo mais, minúscula greve de estudantes.

Diego Viana - (30/11/2007)

Nunca vi tanta polícia na vida. Nem quando estudei na USP. Pouco mais, pouco menos de 160 sujeitos de coturno, jaqueta negra, capacete azul. Carregavam escudos de acrílico, transparentes, cujo formato, talvez inspirado no modelo celta, me pareceu um pouco ridículo. Tropa de choque, pois não. Espalharam-se pelas portas da universidade e, por falta do que fazer, tentaram puxar assunto com algumas estudantes de saia curta e maquiagem carregada. Apesar dos músculos, não conseguiram. Para delícia dos rapazolas enciumados.

Chegaram em camburões azuis, em resposta ao chamado do diretor da universidade. Oito por uma rua, oito por outra, interromperam o trânsito. Homens parrudos de cabelo quase raspado desciam em golfadas, velozes e determinados. Postaram-se diante das três portas como guardiães de um forte. Os estudantes, reunidos em assembléia uma hora mais cedo, haviam decidido bloquear o edifício para discutir o mais recente projeto de reforma universitária. Mas as novas sentinelas lhes negaram o prazer de interromper os cursos: essa tarefa ficou a cargo dos próprios policiais. Eles passaram o resto da tarde impedindo a passagem de alunos e professores, enquanto os jovens apenas batiam papo no meio da rua.

Não sei como esse povo consegue protestar às portas do inverno. Morto de frio, certo de que pouca novidade haveria por ali, tomei o caminho da biblioteca. Para minha sorte, ela não fica no mesmo edifício em que os cursos têm lugar. Sim, isso é uma aporrinhação sem tamanho. Hoje, porém, foi bom. Pude me abrigar em um ambiente aquecido e, no caminho, recapitular os eventos das últimas semanas. Bloqueios, desbloqueios, passeatas, manifestações, tropa de choque. Terei histórias para contar aos netos! Só que, pela falta de conflitos sanguinolentos, será necessário dramatizar um pouco o relato.

Minhas preocupações são um pouco egoístas. As férias de fevereiro, em que pretendo ir ao Brasil, estão ameaçadas? Como saber? Há dois anos, todas as universidades da França ficaram em greve por três meses. Um projeto de escravização dos estudantes foi retirado, o primeiro-ministro caiu, a juventude triunfou. Em 2007, a história é outra. Só alguns departamentos de um punhado de escolas decidiram parar. É difícil revogar leis sem um mínimo de unanimidade. Dessa vez, boa parte dos estudantes é favorável ao governo. Pois a lei não é de escravização, como a outra, mas de modernização. Com o que a palavra tem de bom e de ruim. Por fim, o governo mudou. Saiu Chirac, o tíbio. Entrou Sarkozy, o ambicioso.

O atual presidente da França é um dos personagens mais interessantes da nossa época. Como mérito, já tem ao menos um. Recolocou o território dos gauleses nas manchetes políticas do mundo inteiro. O Hexágono andava meio esquecido, como se sabe. Frente ao crescimento das novas grandes potências, China, Índia, Rússia, quem quer saber a opinião da velha Europa? Continente decadente, uma burrice aparelhada de museus, já disse o Otto Lara Resende. Com Sarkozy, é diferente.

Olhar fulminante, nariz enorme, estatura baixa, sobrenome estrangeiro, personalidade centralizadora e implacável. Poderia ser uma descrição de Napoleão, o outro imperador que quis reformar o país todo. Mas o caso de Sarkozy é diferente. Suscita uma questão em milhões de mentes. No âmago, quem é ele? Um reformador imbatível, paladino da eficiência? Ou um fascista!, racista!, xenófobo? O mundo inteiro, pelo visto, quer saber. Alguns trazem à lembrança a tarde em que ele, ainda ministro, chamou os rebelados da periferia de "escória" (racaille). Outros apontam para os projetos de modernização do Estado. Uns têm calafrios com a idéia de exames de DNA para imigrantes. Outros acreditam que ele eliminará privilégios antigos. E por aí vai.

Nada impede que ambas as respostas estejam corretas, é claro. Mas, hoje, pude verificar duas coisas. Ora, presenciei a manifestação concreta de uma política de confronto exacerbada, capaz de enviar cento e sessenta policiais da tropa de choque para impedir que uma dúzia de estudantes bloqueassem a entrada da universidade. Difícil não associar essa idéia, como as pancadarias no subúrbio, com a dificuldade de um governo em manter a ordem usando só a boa administração e o diálogo político. Ponto para quem acha que Sarkozy não se entende muito bem com a democracia.

Finalmente, o principal. O que é eficiência, senão a capacidade de obter um máximo de resultados, alocando um mínimo de recursos? Nem o mais aloprado dos econometristas haverá de encontrar traços de eficiência no ato de mandar cento e sessenta policiais (escrevo por extenso para aumentar o impacto) para combater uma pequena, digo mais, minúscula greve de estudantes. Para fazer o serviço, tantos homens são desnecessários. Se não houvesse problemas de criminalidade em outras áreas da cidade (e os há, cada vez piores), isso indicaria que as forças da ordem têm excesso de contingente. Caso contrário, a população está sendo exposta ao risco, para que o governo mostre força diante das câmeras, contra estudantes cujo movimento não se compara, nem de longe, com o de 2005. A não ser, é evidente, que a ordem seja buscar o espetáculo. Mas isso, já não sei.

Retornemos ao que é certo e concreto, ou seja, a narração de minha segunda-feira. Cansado da biblioteca, tomei uma bicicleta e voltei para casa. Pedalando ao anoitecer, fui ultrapassado por alguns dos camburões, que rumavam para a caserna. Policiais na universidade, que coisa! Dá uma estranha sensação de volta no tempo, como se os anos 60 e 70 se intrometessem em nossa vida. Só que os fatos contemporâneos deixam uma impressão de frivolidade. As tensões ideológicas e políticas daquelas décadas e dessa dificilmente podem ser comparadas. A truculência é leviana.

É difícil compreender o propósito do festival de policiais à porta do campus. Na última semana, por sinal, os estudantes haviam votado pelo fim gradual da greve, com a alegação de terem descoberto meios legais, muito mais eficientes, de derrubar a lei que detestam. Voltaram atrás justamente para explicitar o descontentamento com os brutamontes que lhes vetavam a livre passagem.

Só o que sei é que todos ficam bem na foto. Sarkozy é duro. Não deixa estudante ameaçar seu governo. A polícia é dura. Não deixa estudante bloquear a faculdade. Os estudantes são duros. Não deixam o governo intimidá-los. E eu, no meio do fogo cruzado, sou brasileiro, sabe como é, coração mole, boa-praça. Enquanto espero as definições, e elas virão em algum momento, aproveito para não encarar o frio. Fico em casa esgotando a bibliografia, estudando violão e escrevendo para o Diplô. Não é de todo mau.



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