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Desenvolvido, porém muito desigual

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Números revelam: mais importante que celebrar a entrada do Brasil no grupo de países de alto IDH é ampliar lutas que podem reduzir as injustiças sociais no país. Também na coluna: vantagens da ferrovia, lâmpadas certificadas, chuveiro de névoa e muito mais

Luiz André Ferreira - (30/11/2007)

Pela primeira vez, o Brasil figura no grupo de países de "alto desenvolvimento Humano, segundo o novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Devemos ver com cautela este resultado.

Embora tenhamos ultrapassado o índice 0,800, a partir do qual os países entram no "primeiro time" do PNUD [1], caímos do 67º para 70º lugar, entre 177 Nações. O aumento da expectativa de vida no Brasil, que passou para 71,7 anos, foi impulsionado pela revisão nas estimativas de mortalidade pelo HIV. E, verdade seja dita, se há algo de que podemos nos orgulhar é o nosso programa de combate e tratamento da AIDS, que já virou referência internacional. Diga-se de passagem que a displicência também puxou o país para baixo. O ministério da Educação admitiu que ter enviado dados defasados, que não computaram os avanços que o país teve nesta área.

Para fazer justiça ao atual governo, os programa Bolsa Família, a melhora de alguns benefícios previdenciários (como a aposentadoria rural) e elevação do salário mínimo foram fundamentais para o desempenho nos campos renda, educação e saúde. Ainda entre os fatores positivos, contaram algumas variáveis como a valorização do real frente ao dólar, fenômeno que impulsionou a melhoria de renda das famílias, quesito com forte peso no cálculo do IDH.

Em compensação, temos índices vergonhosos: pobreza, desigualdade social, mortalidade infantil e materna, saneamento básico. Destes, o nosso calcanhar de Aquiles é a desigualdade. A renda média dos mais ricos brasileiros é 21,8 vezes superior à dos mais pobres. Num recorte específico aparecemos lá em cima, 11ª posição posição entre os mais desiguais do planeta.

Ainda lendo as entrelinhas, aparecem informações que não recomendam clima de comemoração ufanista. Estamos entre os "grandes", mas somos a lanterna deste grupo. Continuamos distantes do patamar de outras nações em desenvolvimento, como Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai, Venezuela, Colômbia, Costa Rica, Cuba e México. Entre os pré-requisitos fundamentais para melhorarmos as condições humanas está um tabu brasileiro: a redistribuição de terras. Ou seja, o Brasil tem que mexer com o tema reforma agrária, um vespeiro que arrepia qualquer governante, tamanha a sua complexidade e conseqüências. Junto com isso, assegurar crédito agrário. Precisamos ainda democratizar as políticas públicas, ampliando o espaço das camadas marginalizadas na formulação das políticas sociais. Afinal são os principais atingidos e portanto os primeiros que deveriam ser ouvidos e não calados como é feito rotineiramente. Mas o grande puxão de orelha recebido pelo Brasil é relativo ao Meio Ambiente. Apesar de reconhecerem os esforços brasileiros para a preservação da Amazônia, os técnicos do PNUD ressaltaram a continuidade da destruição da maior área verde do hemisfério ocidental. "O desmatamento da Amazônia representa uma das grandes fontes de emissões globais" de CO2, afirma o estudo categoricamente. Em seu terceiro capítulo, o documento alerta que "os 30% de aumento nos preços da soja exportada, entre 1999 e 2004, deram um forte impulso ao desmatamento". O IDH foi criado em contraponto ao PIB, que verifica apenas o crescimento econômico — sem levar em conta indicadores sociais que refletem qualidade de vida bem melhor que a renda. Porém soa estranho que, enquanto comemoramos nosso avanço, as manchetes dos jornais estampam casos como da menina de 15 anos jogada em um xadrez junto com vários presos, as constantes denúncias de trabalho escravo e infantil em pleno século 21, envolvendo inclusive fazendas de grandes empresas e de autoridades.

Numa analogia com o futebol, é como se o saíssemos da segunda divisão e entrássemos como lanterninha na primeira. Ao invés de considerar suficiente a presenta no grupo, é preciso levar em conta a longa distância que nos separa dos países que superaram o abismo de desigualdade que marca o Brasil.

SALADA

TREM-BALA NA LINHA: Muito valorizado tanto em países ricos (os da Europa) como no mundo em desenvolvimento (por exemplo, a Índia), o transporte ferroviário de passageiros continuam, no Brasil, cada vez mais desestimulado. Desde os anos 70, as políticas públicas priorizam o poluente transporte rodoviário. Nos últimos anos, as ferrovias passaram a contar com mais uma vantagem: os sistemas de posicionamento via satélite permitem reduzir ainda mais o risco de acidentes, porque informam com precisão a localização das composições e qualquer irregularidade nos trilhos. O sistemas já vem sendo adotado no transporte ferroviário de cargas no Paraná e São Paulo. Deve-se lembrar que um primeiro trem-bala, entre Rio e São Paulo, está entre as novidades prometidas para a Copa do Mundo.

LÂMPADAS CERTIFICADAS: Entra em vigor a regulamentação que atesta a qualidade e eficiência energética das lâmpadas fluorescentes, através de um selo de uso racional. A metodologia para aferição, estabelecida pelo ministério das Minas e Energia, leva em conta a potência, durabilidade, gasto de energia e menor impacto ambiental. Bastante difundidas durante o período de racionamento de energia, as lâmpadas fluorescentes, quando dentro das especificações, podem consumir 80% menos energia do que as incandescentes e possuir uma vida útil até seis vezes maior. A substituição de uma lâmpada normal por uma fluorescente de 20W, ligada por cinco horas diárias, evita e emissão de 20 quilos de CO2. Isso equivale à absorção de gás carbônico por uma árvore, ou à emissão de um carro modelo 1.0 em 150 Km rodados. O grande problema é a falta de controle em fluorescentes piratas ou das que entram irregularmente no país, sem os devidos testes e certificações. E ainda, são falhas as fiscalizações no processo de recolhimento das lâmpadas pela indústria, após o uso. É que são mais sustentáveis durante a vida útil, mas podem ser mais nocivas na fase de descarte, se abandonadas no meio ambiente. Há risco de desprendimento do gás usado dentro das cápsulas e de acidentes com o tipo de vidro usado. Porém, o maior entrave para a difusão dessas lâmpadas é o preço para o consumidor, já que são mais caras que as incandescentes. Mas não se pode deixar de levar em conta a recuperação deste investimento, graças à redução do consumo de energia.

CHUVEIRO DE NÉVOA: Apesar do sobrenome, é brasileiro o estudante finalista de 2006 do Internacional Design Lab. João Diego Schimansky, aluno da PUC – Paraná, desenvolveu o Chuveiro de Névoa. O aparelho usa apenas dois litros de água para um banho de cinco minutos, comparadoS aos 26 litros gastos pelos mais eficientes modelos hoje à venda. A tecnologia desenvolvida pelo estudante cria um fluxo de vapor com gotas microscópicas. A água é aquecida e emitida sob a pressão a um vaporizador. Um sistema inteligente de sensor aponta em ângulos diferentes variando de acordo com os movimentos do usuário. Como reduz a água usada, acaba diminuindo também a energia gasta para o aquecimento. Além disso, a invenção pode utilizar energias de fontes renováveis, como a solar e eólica.

ANO DA BATATA: A ONU, através da Organização para Agricultura e Alimentação (FAO), declarou 2008 como o Ano da Batata. Este tubérculo foi escolhido por estar presente em praticamente todo o mundo e ser estratégico no combate à pobreza e desnutrição. O produto é rico em carboidratos e vitamina C, além de conter o maior número de proteínas, entre as espécies de raízes. Pelo jeito, a batata já está virando celebridade. Tem muito comerciante já aumentando o preço da por conta. Está entre os produtos que mais subiram na cesta de compra nos grandes centros.

PRATO DE VERÃO: A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) prepara-se para ampliar de cooperação científica firmado com a Índia. Numa primeira fase, houve estudos conjuntos para tentar reduzir os efeitos das secas na agricultura. O novo passo serão pesquisas ligadas a material genético — especialmente de espécies frutíferas como manga e laranja — e de produção de biodiesel.

RESPIRAR SEM CÂNCER: O Nossa São Paulo, movimento que foi responsável no Brasil pelo Dia Mundial Sem Carro, está de olho agora na qualidade do diesel. Articula campanha para garantir a plena entrada em vigor, em 2009, da resolução 315.2002, do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama). Essa norma determina que o óleo comercializado no país tenha, no máximo, 50 ppm (partículas por milhão) do cancerígeno enxofre. Hoje, no Brasil, esse índice chega a 500 ppm enquanto que nos Estados Unidos não ultrapassa 15ppm e na Europa e Japão, 10ppm. O lobby contrário à resolução é forte.

ÁRVORES DE VERDADE: Este ano, a montagem da maior árvore flutuante de Natal do Mundo, a da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio, está envolvida no compromisso Carbono Zero. A empresa patrocinadora da montagem selou parceria com a ONG S.O.S Mata Atlântica. Em contrapartida à instalação do ornamento de 85 metros (três a mais do que no ano passado), os organizadores vão plantar árvores de verdade, em vários estados. Para cálculo do número de mudas necessárias para neutralizar os efeitos provocados pela árvore gigante, serão computadas as emissões durante a montagem, operação e desmontagem, assim como os deslocamentos de automóveis de toda a produção. Os motores dos geradores para o espetáculo de luz e balé de água serão movidos a biodiesel, assim como os flutuadores. A 12ª instalação da Árvore de Natal tem como símbolo “A esperança para a família brasileira", com cenografia inspirada nos vitrais das mais importantes igrejas brasileiras. Na composição, foram usadas quase três milhões de microlâmpadas e 37 mil metros de mangueiras luminosas.

PRESERVAÇÃO DA CAATINGA: A Floresta Nacional de Negreiros, em Serrita (PE) vai ser administrada pelo novo órgão do governo federal, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. A área é composta por 3 mil hectares destinados à conservação da caatinga, além de projetos de capacitação e conscientização de proprietários de terras e agricultores para o manejo florestal. A área é ameaçada pela exploração da cultura de gesso desenvolvida na região.

RESPONSA

BOPE DO BEM: A equipe de Prevenção Laboral do Paraná está promovendo o BOPE- Blitz para Orientação de Posto Ergonômico. Fisioterapeutas aparecem de surpresa nas empresas e avaliam se os funcionários e as organizações seguem as determinações ergométricas. O objetivo é prevenir doenças ocupacionais e acidentes de trabalho.

PARLAMENTARES CHOCADOS: Acostumados a escândalos envolvendo mordomias, desvios, maracutaias, corporativismo, favorecimentos e situações muito mais cabeludas, os parlamentares paulistas ficaram muito chocados com a apresentação de um transformista em trajes mínimos, nas dependências da casa. O objetivo era chamar a atenção para o preconceito contra homossexuais. Por conta disso, o deputado Carlos Giannazzi (organizador da performance) pode perder seu mandato, por suposta falta de decoro. Será que os mesmos parlamentares escandalizados se chocariam em receber os votos das comunidades GLTB?

PETROBRÁS SOCIAL: A estatal de petróleo abriu seleção para patrocínio de projetos sociais. São R$ 27 milhões. As organizações têm até o dia 11 de janeiro para se inscrever. As propostas devem ser destinadas às áreas de: Geração de Renda, Oportunidade de Trabalho, Qualificação Profissional, Garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente.

SPRAY DE CARNAVAL: Existe algo mais chato do que aqueles sprays com espuma, muito usados em festas de rua como o Carnaval e o Reveillon? Quantas brigas provocam? Em algumas cidades com tradição de grandes eventos ao ar livre, como Rio de Janeiro, tem liminar proibindo o produto. Mas como aqui no Brasil, nem toda lei pega... não se impede, na prática, nem a venda, nem o uso. A Anvisa determina que esses produtos, inclusive os importados, devam ser submetidos a testes de absorção cutânea, toxicidade, alergia da pele e dos olhos. No entanto, muitos entram irregularmente no país, sem nenhuma fiscalização ou controle sanitário. Independente de dano saúde, que tal respeitar os direitos dos outros? Ninguém gosta de sair todo sujo por aquela espuma. Quem quiser comprar, que use em si mesmo.

Mais

Luiz André Ferreira é colunista do Caderno Brasil de Le Monde Diplomatique.

Edições anteriores da coluna:

Valei-me Santa Bárbara!
As chuvas de verão chegaram antes da época, num possível reflexo do aquecimento global. Um efeito pouco conhecido é o aumento do número de raios, que matam cem pessoas por ano no país. Também na coluna: bancos de leite humano, obesidade animal, moda de verão, Oswaldo Cruz e muito mais

O gás que falta nos postos
Uma das causas da forte elevação dos preços, das filas e da falta do combustível para o consumidor final, é a decisão de priorizar a entrega às grandes corporações. Também na coluna: cipó-titica, onças sem-teto, jogos indígenas e muito mais

Morrer e virar verde
O sucesso de iniciativas ambientalistas adotadas por funerárias no Paraná revela como a opinião pública está aberta ao tema do aquecimento global. Também na coluna: ações do Greenpeace contra Angra III, monitoramento de peixes, cinema itinerante, panetone do bem e muito mais

A Copa (verde) do Mundo é Nossa!
Diplô Brasil estréia coluna sobre Responsabilidade Social. Primeiro número avalia: emergência da questão ambiental foi decisiva para o retorno do mundial de futebol ao país. Mas haverá mobilização real em favor da natureza, ou tudo se resumirá a marketing vazio?



[1] Para saber mais sobre o cálculo do IDH e o ranking dos países, vale consultar a Wikipedia

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