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ENTREVISTA

Um mestre na periferia

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Escritor de pedras e livros, inventor de desvairios como os Saraus e a Semana de Arte Moderna da Periferia, Sérgio Vaz fala sobre literatura, talento pessoal, rap&MPB, esquerda. Ele vê as quebradas como "a Palestina brasileira", mas avisa: "Não abrimos mão da dignidade. E nosso palco é merecido"

Danilo Siqueira - (24/12/2007)

Nas palavras do jovem griô [1] Gaspar, do Záfrica Brasil, Sérgio Vaz é o oráculo da periferia. "Um dos mais imprescindíveis", para o historiador Guinão do grupo Preto Soul. E sabemos que realmente Vaz está para a literatura periférica assim como alguns dos melhores MCs [2] brasileiros — como Brown e GOG — estão para o rap nacional. Colecionador de pedras desde a infância, em Piraporinha, no extremo sul de São Paulo, ex-militante do PT na juventude, foi escutando rap e escrevendo poesia que Sérgio encontrou a melhor forma de amar. E portanto de guerrear, com malandra sabedoria, e sem perder a ternura.

Adotou e foi adotado pela cidade de Taboão da Serra "que sonha", do outro lado do extremo sul, onde começaram os saraus da Cooperifa há pouco mais de seis anos, numa fábrica ocupada por artistas. Hoje o poeta Vaz já acumula mais de vinte anos de pedras escritas, cinco livros lançados, e os saraus multiplicam-se na periferia de São Paulo e pelo Brasil afora, transformando espaços abandonados e botecos em quilombos culturais.

Conforme o Diplô noticiou, a última idéia desvairada dos poetas foi a "Semana de Arte Moderna da Periferia – Antropofagia Periférica", ocorrida entre 4 e 11 de novembro deste ano, em diversos locais públicos da Zona Sul de São Paulo (de CEUS à sacolões e botecos). Mais de trinta grupos ligados às artes plásticas, dança, literatura, cinema, teatro e música dividiram-se pelos dias da Semana, compartilhando espaço para quase 300 artistas, todos oriundos da periferia. E milhares de pessoas apreciando tudo isso, para lá das pontes sobre o Rio Pinheiros. Por enquanto.

Na entrevista a seguir, Sérgio Vaz fala um pouco de sua trajetória e da Cooperifa, sobre questões latentes no cotidiano periférico, e faz alguns apontamentos sobre a recente semana antropofágica. Seguida de seu manifesto.

Diplô: Você — junto ao Ferréz e outros — está para a literatura periférica assim como alguns dos melhores MCs brasileiros estão para o rap nacional. Em seu caso, mais que a forma, principalmente pela militância cotidiana e o compromisso coletivo com a formação de leitores e escritores nas quebradas. Queria que você falasse um pouco dos principais traços dessa trajetória de mais de vinte anos de poesia: dos cartões e livros "de piada" até a Cooperifa, passando por programas de rádio e a recitação em inúmeros shows de rap. O que mais te ensinou?

Sérgio Vaz: - Eu, como todo moleque de periferia queria ser jogador de futebol — aliás, ainda quero. Comecei a escrever mais ou menos com uns 16 anos. Não sabia que era poeta, não sabia que escrevia poesia. Apenas gostava de escrever. Na periferia, o talento, quando se manifesta é, por falta de conhecimento, muito fácil de confundir como esquisitice. Na periferia, ler e escrever não era, há mais de 25 anos, comum para muitos garotos. Tanto que quando lancei meu primeiro livro, eu jogava na várzea, e quando alguém me perguntava o que escrevia, eu respondia: piada! Comecei a pensar em escrever este livro (Subindo a ladeira mora a noite) em 1986. Só consegui lançar em 1988, dois anos juntando dinheiro para isso.

Naquela época, o país recém-saido da ditadura, muita gente falava que eu escrevia poesia panfletária, que estava fora de moda etc. Só quando o rap surgiu, minha poesia fez sentido para algumas pessoas. Fiz muita apresentação poética em shows de rap. Devo muito ao hip-hop. De lá pra cá lancei cinco livros.

Por falar em rap, você sempre diz o quanto o hip-hop mudou sua visão das coisas. Queria que você detalhasse um pouco mais a mudança provocada pelas letras e pela atitude do hip-hop naquele antigo militante da chamada esquerda, apreciador de MPB. Como foi esse chacoalhão?

S.V.: Quando o rap chegou a minha poesia já estava esperando, foi só somar com a rapaziada. Era militante de esquerda daqueles bem fervorosos (também já quis ser Che Guevara), mas descobri que a minha contribuição como ser humano e como brasileiro seria mais interessante como poeta do que como político-partidário. Não era fã de MPB, eu era militante da música brasileira. Não ouvia música internacional, e coisas assim, mas com o tempo descobri que essa música não falava mais aos meus ouvidos, e de uma certa forma fui perdendo a referência. Ainda ouço alguma coisa, mas... Não ouço só rap, mas curto muito.

O atual Sarau do rap [3] é uma tentativa de aprimorar a qualidade literária do gênero, resistindo contra sua mercantilização e esvaziamento?

S.V.: O Sarau do rap é muito mais para trabalhar a poesia com a galera do hip-hop. Para que eles nunca esqueçam que também são poetas. São cronistas. Alguns com uma qualidade literária de não dever nada a nenhum escritor.

Você transmite a impressão de que, pelo seu cotidiano, por conta daquele chacoalhão, e de uma série de decepções com a chamada esquerda do Brasil, guarda hoje certo ressentimento

S.V.: - Acho que sou um ser humano de esquerda, até hoje meu voto tem sido nas pessoas da chamada esquerda. Mas a periferia nunca é chamada para participar de nada que tenha a ver com os rumos do país. Falam dela, ecrevem sobre ela, mas ninguém quer andar com ela, entendeu? Na hora do vamos ver, ninguém quer saber o que a gente pensa. Me interesso muito mais por líderes comunitários do que senadores.

Respeito os movimentos sociais, as pessoas, etc. Mas na periferia, as pessoas ainda não sabem quem são, porque são, onde estão, enfim. Por quê? Porque ninguém informou pra ela. Se a classe média é esclarecida, oras bolas, por que não esclarecer os que não são? Falta generosidade. Intelectualidade demais, coração de menos.

Uma vez, fizemos um sarau num acampamento do MTST. Foi uma das maiores lições para as pessoas que estavam envolvidas, pois muitos nunca haviam ido a uma ocupação. Depois disso, vários poetas citaram o acampamento Chico Mendes em seus poemas, vários. A sedução é o grande barato da coisa. A periferia está doidinha para sair do casulo, mas quase ninguém a chama. É uma pena.

Qual o significado, os limites e potenciais da Cooperifa? Como lidar com um processo coletivo onde você tem uma posição diferenciada? E o equilíbrio entre o prazer do merecido palco e os riscos de mais um palco dominado por vaidades, agora na quebrada? Não há o que perder?

S.V.: - A Cooperifa é o meu sonho. O ar que respiro. A Cooperifa me salvou a vida, e salva todo dia um pouquinho mais. Esse povo lindo e inteligente é a coisa mais linda do mundo. A Cooperifa cresceu tanto que já temos os nossos próprios inimigos. Não era para a gente crescer, se é que você me entende...

O nosso palco é merecido. Primeiro, porque fomos nós que o construímos. Segundo porque somos nós que o sustentamos. Terceiro, porque a comunidade já tomou para si o projeto. Pra falar a verdade, eu prefiro trabalhar a vaidade do que lidar com frustração. Trabalho a minha todo dia, e todo dia cometo falhas. Nossa gente ficou muito tempo longe das oportunidades, por isso cometemos erros, muito mais pela ansiedade do que propriamente vaidade. Sorrir tem nos feito pessoas melhores. Transformar ódio em raiva é um processo muito lento. A vaidade, por pior que seja, tem nos ajudado a encontrar atalhos para a verdadeira auto-estima.

Seu último livro, "Colecionador de Pedras", reúne o principal de sua trajetória de mais de vinte anos de poesia. Foi editado de maneira independente (quixotesca) antes de entrar no catálogo da Global, como primeiro livro da coleção "Literatura Periférica". E seu título é também uma homenagem ao Mano Brown. De que maneira vê essa "entrada pra primeira divisão"? E o que está por vir pela coleção?

S.V.: - Na verdade, é uma homenagem a mim mesmo (olha a vaidade aí) (risos). É um livro que comemora vinte anos de poesia. Brown é meu amigo, fiz uma poesia em sua homenagem com este título, depois tomei o nome do meu livro pra mim. É legal saber que foi bem produzido e que está em várias livrarias do país. A distribuição mudou algumas coisas, mas a pegada é a mesma. Continuo perambulando com o livro por aí. A coleção não sou eu quem coordena, é o Eleílson Leite [4], mas posso contar que já vieram Alessando Buzo, Sacolinha e virão Dinha, Allan da Rosa, GOG e Nelson Maka. Estou preparando um livro com meus artigos.

A impressão que se tem muitas vezes é que a elite está dizendo: Viva a Periferia, portanto Morte à Periferia! A mesma rede global que produz Centrais da Periferia apóia políticas de "segurança" que se assemelham a terrorismo de Estado, e se voltam contra os mais pobres...

S.V.: A princípio, acho que nós, da periferia, somos tratados como se morássemos em outro país, um país considerado menor, na visão dos seus colonizadores. Somos a Palestina Brasileira. E como palestino me sinto no direito de lutar pelo meu território. Com pedras e poemas.

Somos massacrados pela mídia desde a época em que Gil Gomes entrava em nossos rádios, e por conta disso tínhamos que mentir sobre o nosso endereço para conseguir emprego. O táxi não levava nossas compras na quebrada. Precisamos criar nossos próprios espaços. Há tempos eu sonho com isso. Uma TV pra gente tomar conta, jornais, revistas, cinema, teatro, música,internet, blogs. Criar nossos próprios meios de comunicação, para a gente poder mostrar ao povo brasileiro, quem realmente sustenta esse país. A TV entra em nossos lares porque nossas estantes estão vazias.

Qual a melhor forma de transitar entre aqueles que prometem o Reino dos Céus e a Cidade de Deus na Terra, organizados com diversos recursos, armas e outros meios de comunicação (e cooptação)? A poesia? Os saraus? Até que ponto acender o pavio?

S.V.: Os saraus que estão acontecendo pela quebrada são a grande prova de que o povo quer uma alternativa à televisão. São mais de trinta. O incentivo à leitura, à criação poética. A luta pela melhor qualidade no ensino. Ler um bom jornal, uma boa revista. Levar as cadeiras para as calçadas. Precisamos conversar mais uns com os outros. Ler bons livros. Ler boas pessoas.

Você é a favor das cotas para negros e pobres nas universidades públicas? Como superar os racismos capitalizados que, do lado de cá e de lá da ponte, nos aprisionam?

S.V.: Sim, sou a favor das cotas. De resto, deixo um poema:

"que a pele escura não seja escudo
para os covardes que habitam a senzala do silêncio.
porque nascer negro é conseqüência
ser, é consciência."

Como você avalia os resultados da I Semana de Arte Moderna da Periferia? Por que, apesar do envolvimento de tantos artistas em tantas quebradas, nem a grande mídia nem a imprensa alternativa abordaram à altura?

S.V.: O resultado é simples: NÓS PODEMOS FAZER! Independente de verba pública ou não, nós, artistas, podemos fazer. A mídia não nos apoiou por inveja. Por raiva. Por falta de gentileza. Por falta de respeito. Por ignorância. Porque o evento não foi promovido por gente deles. Porque nós somos chatos. Porque não abrimos mão da dignidade. Porque não teve sangue. Porque a gente estava feliz. Porque a mídia é classe rica e não sabe o que acontece na periferia. Sabe como alguns pensaram: "quem eles pensam que são?". Eu respondo: "’NÓS SOMOS FODA!"

Quais das expressões artísticas você acha que se destacaram durante a semana, e merecem atenção especial pela sua qualidade?

S.V.: Artes plásticas. Eles promoveram um evento digno de uma exposição em Nova York. O Sacolão [das Artes – antigo sacolão de horti-fruti ocupado por artistas] parecia um museu francês. Tem muita gente espalhada que a gente não conhecia. Por ser uma arte dita elitizada, a periferia quase não conhece. Vale para o cinema, também.

Que história é essa de Poesia-clipe, que você lançou no dia da literatura no sarau antropofágico da semana periférica?

S.V.: Uma maneira de aumentar a circulação da literatura entre os meios possíveis. Explorar caminhos onde o livro caro não chega. [Sobre a TV pública...] Sim, por que não? O poeta tem que sair do casulo.

Haveria aí uma boa idéia a ser explorada em iniciativas como a TV Pública?

S.V.: Sim, por que não? O poeta tem que sair do casulo.

Quais as perspectivas e os principais projetos da Cooperifa e do movimento periférico do qual ela é parte fundamental, para 2008 em diante? No caso da Cooperifa, agora sendo uma Oscip, as coisas serão mais tranqüilas ou mais difíceis?

S.V.: Não pensamos, ainda em 2008, mas certamente serão coisas grandes e novos desafios. Éramos só um bando de vagabundos fazendo cultura, só que me parece que a gente vai ter que ter um pouco de juízo.

Alguma consideração final... Alguma questão que deixaria pro leitor...

S.V.: "A Arte que liberta não vem da mão que escraviza"



[1] Griôs, do francês griot são, na costa Oeste da África, guardiões e transmissores orais (canto-falado) das memórias históricas milenares. Desta parte do continente africano foi seqüestrada parte dos negros escravizados no Brasil.

[2] MC é o Mestre de Cerimônias do grupo de rap, um dos elementos do hip-hop, aquele que transmite o conhecimento através do canto-falado, da poesia ritmada.

[3] O Sarau do rap, realizado na ONG Ação Educativa, é um encontro mensal de rappers coordenado por Sérgio, onde recitam suas letras uns aos outros.

[4] Membro da Ação Educativa e editor da Agenda Cultural da Periferia, Eleílson Leite também é colaborador do Caderno Brasil de Le Monde Diplomatique, onde assina a coluna "Cultura Periférica"

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