Jornalismo Crítico | Biblioteca e Edição Brasileira | Copyleft | Contato | Participe! |
Uma iniciativa


» Gilvan, trabalho e sono no capitalismo periférico

» Por um imposto global sobre as transnacionais

» As eleições 2020 na encruzilhada brasileira

» Cinema: Os últimos soldados da Guerra Fria

» A eleição mais árdua de Evo Morales

» Reviravolta no Oriente Médio: os curdos podem resistir

» Atualismo: assim percebemos o tempo no século XXI

» Porto ameaça cartão-postal amazônico

» Banco Mundial, parceiro de maldades de Bolsonaro

» Por que os EUA traíram a guerrilha curda

Rede Social


Edição francesa


» Un journalisme de racolage

» Une Europe des citoyens

» Ces dures grèves des ouvriers américains

» 17 octobre 1961 : rendez-vous avec la barbarie

» La gauche dans son ghetto, la droite à la radio

» Les médias américains délaissent le monde

» Fruits et légumes au goût amer

» La Bolivie dans l'étau du néolibéralisme

» La crise suscite de sérieux remous en Irak et relance la guerre froide en Proche-Orient

» Les rivalités entre Washington, Moscou et Pékin


Edição em inglês


» Response to Pierre Bourdieu

» Analysing an appearance on the airwaves

» Iraq's demographic time bomb

» October: the longer view

» Socialism resurgent?

» Power to decide who's guilty

» East Germany's loyal returnees

» Ankara realpolitik

» South Africa's lands must be shared

» Turkey's rival Islamists


Edição portuguesa


» A crise catalã nasceu em Madrid

» Quantas divisões há entre os curdos?

» Edição de Outubro de 2019

» Estabilidade para quem?

» Washington contra Pequim

» Edição de Setembro de 2019

» Portugal não pode parar?

» Quem elegeu Ursula von der Leyen?

» Edição de Agosto de 2019

» Plural e vinculado à esquerda


Individualidade e história

Imprimir
enviar por email
Compartilhe

No romance Uma questão de loucura, Ismail Kadaré empresta ao narrador aguda capacidade de observação e de fantasia, para recuperar, como em outras obras, a história da Albânia

Dida Bessana - (07/12/2007)

“Fomos à biblioteca da cidade. A chatice transparecia nos títulos: A boa gente da estepe; Primavera; A grande esperança... Outros títulos nem valia a pena abrir. Trabalho por toda parte, sorrisos, gente de coração sem mácula, atarefada na busca de pão ou abrigo para os companheiros. Nada eletrizante do tipo ‘a noite é tenebrosa e o corvo crocita sobre o abismo’. Nenhuma paragem descoberta onde ninguém confia em ninguém. E principalmente nenhuma paragem onde não se enalteça o trabalho.”

Com essas palavras, o personagem-narrador de Uma questão de loucura (Editora Cia. das Letras), do escritor albanês Ismail Kadaré, expõe sua frustração diante de uma literatura – a russa – que, desenvolvida segundo os princípios do realismo socialista, invade as prateleiras das quais, até aquele momento, ele extraía histórias e personagens que lhe serviam de divertimento, estímulo à imaginação e referência para uma tentativa de apreensão de sua realidade. Como explicar por que o partido comunista, que chegara ao poder quando a República substituiu a Monarquia, depois de também ter lutado para expulsar os nazistas do país, se escondia, por que seus filiados não podiam ser conhecidos, suas sedes não podiam ser identificadas, se na verdade todos eram comunistas. Por que ninguém podia dizer que o tinha visto pessoalmente? Para ele, só mesmo uma analogia com a literatura possibilita entendimento e o tranqüiliza: o partido “aterrorizava a todos justamente por ser assim, quer dizer, invisível, como o homem invisível”.

Dias depois, entretanto, anuncia-se pelo rádio que o partido vai sair da clandestinidade, uma “terrível notícia”, afirma-se aqui e ali, para sobressalto de toda a cidade, gerando apreensão, e cujos desdobramentos romperão os limites da normalidade.

Desintegração do mundo conhecido

Na escola, disciplinas como o latim, o francês e o grego antigo são substituídas pelo russo. Nas ruas, espalham-se cartazes com a foto de Stálin, tratado como “tio” e “pai”. Para o personagem, a expectativa gerada pela visita de Enver Hodja, líder máximo do partido na Albânia, dá lugar à decepção: “sorrisos” e “palavras de queijo e mel”. Mesmo sem poder aquilatar a profundidade e o alcance das transformações que a emergência do partido representa, ele não deixa de identificar o germe das imensas mudanças que estão por vir, como o culto à personalidade. O universo conhecido que o garoto vê se desintegrar o faz concluir que tudo está às avessas, e a concordar quando lhe dizem que se trata da manifestação da loucura de um e de outro, como afirma seu pai, tentando justificar o comportamento dos que lhe são mais próximos.

E essa loucura atinge simultaneamente sua família. Primeiro, uma possível tentativa de suicídio do tio mais novo que põe a casa em estado de alerta. Em seguida, seus tios passam de uma harmoniosa convivência, expressa pelo revezamento que fazem de citações do latim durante o jantar (uma das maiores diversões do garoto), para o embate aberto, em que o mais velho acusa o mais novo de dissimulado e maluco, até tornarem-se inimigos; é louca também a tia Djem, cuja soberba é um claro sinal de “seu desprezo pela coletividade”. Quanto ao patriarca da família, este definha na espreguiçadeira da varanda, acompanhado por um grupo de violinistas que ocupam parte do jardim da casa, resquício de um status perdido com o confisco das propriedades do velho. Mas o maior segredo da família ainda está por ser revelado e ocorrerá justamente no velório do avô.

Em resumo, neste curto romance, com pouco mais de setenta páginas, Ismail Kadaré entrelaça os planos histórico e individual, emprestando ao narrador aguda capacidade de observação e de fantasia, para recuperar, como em outras obras, a história da Albânia, a fim de tentar compreender seu país e seu povo. Após quatro séculos de domínio turco-otomano e uma independência ocorrida há pouco (1912), ele enfoca o momento crucial em que o partido se “legaliza”. E usa seu personagem para identificar o germe da Albânia dos anos seguintes, indiciando os conflitos, os abusos, as experiências dolorosas, enfim, as características do regime autoritário que levariam o autor a se asilar na França na década de 1990.



Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BUSCA

» por tema
» por país
» por autor
» no diplô Brasil

BOLETIM

Clique aqui para receber as atualizações do site.

Leia mais sobre

» Cultura
» Literatura
» Seção {Palavra}


Destaques

» O planeta reage aos desertos verdes
» Escola Livre de Comunicação Compartilhada
» Armas nucleares: da hipocrisia à alternativa
» Dossiê ACTA: para desvendar a ameaça ao conhecimento livre
» Do "Le Monde Diplomatique" a "Outras Palavras"
» Teoria Geral da Relatividade, 94 anos
» Para compreender a encruzilhada cubana
» Israel: por trás da radicalização, um país militarizado
» A “América profunda” está de volta
» Finanças: sem luz no fim do túnel
Mais textos