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Ambição total

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Para um escritor com ambição total, a busca por todos os leitores possíveis não implica condescendência ou simplificação; ao contrário, ela implica excelência e versatilidade

Lucas Murtinho - (07/12/2007)

Eu ia falar de "romance total", mas a expressão já existe: Martim Vasques da Cunha a define como a quimera de grandes autores dos séculos XIX e XX, como Balzac, Flaubert, Joyce ou Proust. Segundo Vasques da Cunha, o romance total busca "a construção artística e rigorosa de uma realidade que reflita sobre a verdadeira realidade e que a retrate, desde de seus aspectos sociais-econômicos até os aspectos privados, incluindo aí os psicológicos e os existenciais". Se tal idéia parece megalomaníaca demais nos dias de hoje, algo como uma "ambição literária total" ainda pode ser encontrado em romances como Reparação, de Ian McEwan; As correções, de Jonathan Franzen; Dentes brancos e Sobre a beleza, de Zadie Smith; O legado da familia Winshaw, Bem-vindo ao clube e O círculo fechado, de Jonathan Coe; Ghostwritten e Cloud atlas, de David Mitchell. A ambição total é o resultado da soma de pelo menos três ambições:

- A ambição narrativa: os romances com ambição total têm vários protagonistas, e a história de cada personagem é enriquecida por cruzamentos com as histórias dos outros. As mudanças de ponto de vista são numerosas e um mesmo evento pode ser contado por vários personagens. As tramas desses romances são complexas e surpreendentes: revelações de última hora explicam comportamentos incongruentes, ligações inesperadas entre os personagens mudam o sentido de uma cena previamente descrita, coincidências extraordinárias levam a história a lugares imprevistos. Não por acaso, a ambição total gera romances longos: seus autores têm muito a contar.

- A ambição estilística: o texto de romances com ambição total é muito bem cuidado. Seus autores trabalham em diversos registros, do humor leve à tragédia absoluta. As mudanças de ponto de vista trazem consigo sutis mudanças de tom, que ajudam a caracterizar cada personagem sem quebrar a continuidade do texto.

- A ambição intelectual: autores com ambição total querem fazer seus leitores pensar, abordando em suas obras questões contemporâneas – dependência de drogas legais e ilegais, fundamentalismo, bioética, conflitos sociais e raciais, relações acadêmicas, liberalismo, nacionalismo – e atemporais – guerras, relações familiares, angústia adolescente, primeiros amores, inveja, traição, perdão. Tudo isso sem tratar os personagens como símbolos ou o enredo como alegoria: cada personagem mantém sua individualidade, cada acontecimento tem sentido no contexto do enredo, mas o autor incentiva seus leitores a também usá-los como ponto de partida para refletir sobre a realidade.

A ambição total é, portanto, querer escrever narrativas complexas num estilo envolvente e criativo; dizer algo sobre o mundo moderno sem deixar de lado temas universais nem transformar os personagens em fantoches sociais; oferecer entretenimento mas também reflexão, uma boa história mas também um bom texto. Numa palavra, é a ambição de atingir a excelência em todos os aspectos da obra literária, e de não deixar de lado nenhuma estratégia de sedução do leitor.

Como ter ambição sem leitores?

Outro ponto em comum entre os romances citados é que seus autores são jovens e anglófonos: Franzen é americano, McEwan, Smith, Mitchell e Coe são ingleses; apenas McEwan tem mais de cinqüenta anos, Smith e Mitchell têm menos de quarenta. Além disso, o mais antigo dos nove romances, O legado da família Winshaw, foi publicado em 1994. A ambição total é o cálice sagrado da literatura anglo-saxônica contemporânea.

O que não significa que todos os autores atuais sejam ou devam ser guiados por ela. A obra de Paul Auster não costuma dar espaço aos grandes debates do mundo contemporâneo, e as tramas de alguns romances de Coetzee são simples, diretas e centradas num único protagonista; os dois não deixam de ser grandes autores por causa disso. Mas há algo de estranho numa literatura como a brasileira, em que ninguém parece ter esse tipo de ambição.

A ambição total produz romances com várias portas de entrada. Você pode ler Bem-vindo ao clube para acompanhar a história do jovem Benjamin Trotter e seus amigos; para apreciar a prosa fluída e bem humorada de Coe; para conhecer a visão de um escritor de esquerda sobre a Inglaterra pré e pós-Thatcher; ou tudo isso junto. Mais portas quer dizer mais leitores potenciais: nem todos gostarão de Bem-vindo ao clube, mas há em Bem-vindo ao clube algo potencialmente interessante para todos.

O caso brasileiro

Quando não há leitores, como no Brasil, a motivação para acrescentar portas de entrada a um romance diminui. Um virtuoso do estilo não vai perder tempo criando uma trama envolvente; um criador de histórias nato não vai se preocupar com as relações entre suas tramas e a realidade; um autor politizado não vai se importar com tramas frouxas e parágrafos canhestros. Para que tentar atrair leitores que não existem? Ou, para não desmerecer o meu diploma de economia: para que investir tempo e dedicação num projeto com tão poucas chances de retorno financeiro quanto publicar um romance no Brasil? O resultado são livros cujo valor, ainda que grande, é quase sempre limitado: livros que falam a uma parte do público – a parte cujas inclinações literárias correspondem às do autor – mas não têm nada a dizer a outra. E isso leva os poucos leitores brasileiros a se afastar da literatura nacional, num círculo vicioso cuja verdadeira resolução só pode vir com a formação de novos leitores por meio da educação, mas cujos efeitos negativos os escritores podem ao menos tentar combater.

A busca por leitores é freqüentemente desprezada como uma prostituição do talento em nome do lucro ou da fama, e é verdade que muito do que é amado por muitos é simplista, apelativo, descartável. Mas nivelar por baixo não é a única forma de aumentar o público potencial de uma obra literária: um escritor também pode conseguir mais leitores tornando o seu trabalho mais sofisticado, acrescentando às suas preocupações e ambições literárias as preocupações e os desejos de diversos tipos de leitor. Para um escritor com ambição total, a busca por todos os leitores possíveis não implica condescendência ou simplificação; ao contrário, ela implica excelência e versatilidade, o aperfeiçoamento de todos os aspectos de um romance.

Um primeiro passo

Pode ser que eu esteja exagerando: a literatura francesa, cujo público é certamente maior do que o da literatura brasileira, também parece carente de ambição total, que talvez seja um conceito intrinsecamente anglo-saxônico. Ou talvez a ambição total exista no Brasil e eu é que não procurei o bastante. Mas, por via das dúvidas, e caso algum escritor esteja em busca de idéias: uma família de classe média numa cidade grande. O pai começa a sentir pânico de sair na rua e morrer durante um assalto. A mãe sai do trabalho direto para a ginástica e se apaixona pelo instrutor pitboy da academia. A filha adolescente ganha dez vezes o valor da sua mesada vendendo drogas para os amigos. O filho mais novo se transforma num Don Juan de chats pornográficos. E a empregada um dia vê a filha da patroa conversando com o chefe do tráfico na favela onde mora. Que tal? Pode ser melhor, eu sei, mas isso é o resultado de dois minutos de trabalho. Quem tiver mais tempo, paciência e talento, não se acanhe. E mãos à obra.



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