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Eu ficava ali, chamando Deus

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"As provas da existência do inimigo interior são imensas e as de seu poder esmagadoras. Creio no inimigo porque, todos os dias e todas as noites, eu o encontro em meu caminho. O inimigo é aquele que, do interior, destrói o que vale a pena. É aquele que lhe mostra a decrepitude contida em cada realidade."

Amélie Nothomb, Cosmética do inimigo

Saint-Clair Stockler - (07/12/2007)

Há três dias estou bêbado. Três dias mergulhado nesse sono de gestos aquáticos, de tempo submarino. Seria mais fácil dizer que bebi, que é culpa do vinho ou de qualquer dessas bebidas que se vendem por aí. Mas estou bêbado de um outro jeito, diferente, talvez eu não consiga explicar — e nem mesmo sei se quero tentar explicar o que pressinto sem explicações, um fato que se coloca além das palavras.

Você se agarrava a mim e pedia, suplicante, que eu me abrisse.

Não. Isso não é para agora, não ainda. Precipito-me, confundo-me, esqueço dos princípiosmeiosfins. Primeiro preciso dizer desse tempo que chamo aquático.

Ele veio de repente, eu estava deitado na cama, já era noite, e por entre a cortina via um pedaço de céu sujo, cinza-fosforecente, radioativo. Ou talvez não fosse assim o céu, mas apenas os meus olhos que o viam dessa forma. O fato é que eu estava lá, deitado na escuridão como um imenso animal bem no meio da cama de lençóis revirados, um cheiro estranho penetrando minhas narinas, um cheiro que se desprendia de mim e não era de todo desagradável, um cheiro animal, mas que também lembrava ervas maceradas, cheiro de terra molhada. Ou eu inventava tal cheiro fugaz que mal é definido transmuta-se em outra coisa? Não tenho nenhuma certeza, além do fato de que estava na cama, deitado nu, o calor penetrando pela janela, com o céu cinza por cima.

Os olhos secos, os meus, olhavam a ondulação da cortina e o céu mais atrás e, sem querer, tentavam decifrar a linguagem secreta das ondulações da cortina e do céu, sim, porque eu pressentia que havia uma Mensagem, qualquer coisa que transcendia a mera cortina e sua ondulação e o céu por trás como uma moldura. As coisas nunca são, elas sempre significam. Ou será que sonhei? Certamente estava já mergulhado de leve no torpor que antecede o sono. Eu não queria dormir, queria apenas pensar nele e no jeito como ele se enroscava no meu corpo, ondulante, nesses momentos seu corpo tão humano parecia serpentino, ele se enroscava como uma cobra, sua língua procurando penetrar todos os meus orifícios num estranho ato de fecundação. Ele me pedia, se abre pra mim. Eu ficava em silêncio porque me sentia duplamente incomodado: por estar ali, aberto como uma flor que espera ávida a língua do beija-flor tocando o seu mais íntimo e por me ver vendo essas imagens: eu era incapaz de sentir como ele, integralmente. Sempre restava de mim algo que, de fora, observava tudo com olhos frios e distantes, olhos que catalogavam, e o que eu queria mesmo era isso: me entregar, mergulhar, me perder — definitivamente. Mas não podia, por secretas razões que nem mesmo eu conhecia, segredos, mistérios.

É verdade que me entregava a ele mais abertamente do que a qualquer outro, mas no entregar-se havia o secreto elemento do artificial, que acabava por azedar tudo. Me sentia ruim, quebrado, sem naturalidade. Daí o silêncio que ele interpretava como sinal do meu prazer, do meu êxtase. Então ele se enroscava mais e queria de mim mais e, por sua vez, dava de si mais e mais para mim. Eu tinha medo e então me agarrava ao seu corpo, frágil corpo de adulto que ainda não cresceu de todo, os braços magros, a penugem escura no corpo branquíssimo, a barba de três dias, me apegava a esse corpo como uma tábua de salvação: eu queria que o corpo dele me salvasse de mim. Ou antes, que me arrastasse para dentro de si como um mar profundo, que me levasse de vez para longe de mim e do observador que compartilhava comigo a mesma pele, o Estranho que não era eu.

Mas me precipito, me perco. Preciso falar do tempo em que fiquei sozinho naquela cama enorme e com aquele cheiro adocicado, pois certamente esse tempo veio antes. Ou não? Agora, mergulhado no tempo aquático, levemente tonto, confundo as coisas: descubro que o tempo nada tem de reto e sucessivo, mais parecido com um círculo, um anel, mas ao mesmo tempo em que digo círculo, anel descubro que também não é isso: a imagem é fácil demais e no fundo de mim sei que é falsa, também não é círculo, anel o que o tempo é: é algo mais.

Tudo isso está me parecendo demasiado confuso e quero parar. Quero levantar a voz e gritar imperativo: paro aqui! Mas sei que já é tarde, tenho agora que ficar até o fim falando pra mim disso tudo que estava aqui e que não está mais, me ninar com essa história não-reta e não-circular, que tem o tempo de dentro, e que tempo será esse meu Deus? que não sei e que duvido que alguém saiba. Como tudo vai me parecer estranho quando este tempo aquático em que estou mergulhado há três dias se dissipar, pois certamente ele se dissipará tão rapidamente quanto chegou, não? Ou... me horroriza a hipótese de que esse tempo veio para ficar.

Talvez se deitar e ficar bem quieto, a cabeça mergulhada no travesseiro e os olhos fechados, consiga entender tudo bem direitinho, ou talvez me sinta saindo deste tempo marinho em que estou, da sensação de que tudo gira levemente, docemente sim, mas de uma doçura que oculta venenos, sempre e sem parar em um carrossel que entrei sem que ninguém me dissesse: cuidado, é um carrossel isso! Ninguém me disse. Mas quem o faria? Acho que entrei porque quis... Pensar nele então: ele que era como um cavalo jovem, com os olhos negros e aquele corpo bom de tocar, sem uma gota de alguma coisa a mais, aquele corpo ao qual eu me apegava mais, à medida que ia me sentindo desprender dele. Uma vozinha me dizia: mais cedo ou mais tarde, mais cedo ou mais tarde... e fica nessa cantiga maluca até que eu me voltava em desespero e pedia: me beija, me abraça com força, me leva. Ele então continuava seu secreto ministério, o de me fecundar por todos os orifícios, eu me agarrava a ele pedindo: meu Deus! Meu Deus! Eu ficava ali, chamando Deus e olhando por trás do ombro dele o céu fosforescente, mas não pensava em nada, só sentia a presença do Outro, aquele que habita o meu corpo sem a minha permissão, o Inimigo, que só observa sem nunca se entregar, frio e monolítico como um pedaço de rocha. Ele me dizia baixinho que não suportaria se um dia me perdesse, se um dia sentisse que eu não estava mais ali; nessas horas me dava um susto, eu ficava mais silencioso, com medo de ser apanhado ocultando um segredo horrível, um segredo do qual não pudesse me livrar. Fechava os olhos, pobre recurso de quem não possui mais recursos, me dizendo que tudo estava bem, que não era culpa minha, que a culpa era do Outro, daquele estranho irmão que habitava comigo. Nessas horas pensava em fazer algo, matar esse outro habitante, irmão siamês, inimigo. Cheguei mesmo a fantasiar sua destruição, mas como fazê-lo sem causar algum dano a mim próprio? Pois eu queria viver, eu queria da vida eu mesmo e ele, esse que me amava tanto e que me provava, que me lambia por todos os orifícios, buscando meu secreto mel que nem eu sabia como doar.

Não sei precisar quando exatamente ele, o meu amante, percebeu o Outro. Tão preocupado eu estava, tão temeroso de me distrair e sem querer acabar permitindo que esse irmão se desse a conhecer, talvez ele o tenha descoberto num gesto que não rimou com todos os outros, ou num som ou palavra articulada de forma diferente da habitual, acabei não percebendo que pouco a pouco, aos pedacinhos, Ele, o Inimigo, se apossava de mim, tomava o meu lugar, a preocupação e o temor me tornavam cego, cego!, ele aproveitou para assumir o controle, talvez em júbilo por finalmente encontrar-se fora da minha constante vigilância, ele aproveitou então para, talvez num primeiro gesto tateante, inseguro, tocar no outro corpo que era o do homem que me amava, frágil corpo que esqueceu de crescer de todo, e ao perceber-se não repelido, sentir-se mais confortável, mais seguro, buscando para si e tomando, quase mesmo exigindo, o prêmio que seria seu desde o início dos tempos, talvez mesmo antes deste tempo aquático em que, à deriva, me encontro. Ele então, Ele o Outro, talvez num júbilo imenso, numa felicidade de quem, passando longos anos preso num porão escuro, vê de repente as portas de sua prisão abrirem-se e a réstia de luz da manhã ali tão perto, tão convidativa e próxima, bastando apenas esticar os dedos, aventurar-se um pouco, tomar com os dedos o fruto, o prêmio, o troféu, Ele avançava, em imensa alegria. Avançar era o que, precisamente, Ele estava fazendo, enquanto eu, perdido no mar dos meus temores, não percebia o que se desenrolava, não percebia o suspiro de prazer, de alívio, que o meu amante sem querer, sem mesmo perceber, soltava, o ar que saía de seus pulmões, a satisfação que tomava conta de seu corpo, primeiro inconsciente, depois mais e mais se fazendo notar e — de súbito — o choque, a surpresa, o horror de perceber que não era mais Eu, e sim Ele, o Outro, quem estava ali, submetendo-se com imensa alegria às carícias que eu, nunca antes, tinha apreciado com tal entrega, tal gratidão e abandono, não, nunca antes. Primeiro confuso, depois chocado, meu amante olhou-me com tamanha surpresa que finalmente seu olhar, como um farol, capturou minha atenção e me despertou do sono (talvez mesmo os inícios deste tempo aquático no qual estou perdido agora, mergulhado, eternamente a espera), me sacudiu do torpor e me restituiu a mim. Mas já era tarde, eu não poderia ter a ingenuidade de imaginar voltar ao momento antes de tudo, àquele momento em que ele pedia baixinho, implorava, se abre pra mim, ele agora se levantava, afastava-se da cama que se tornara um ninho perigoso, onde pequeninas cobras, que se julgava serem aves graciosas um momento antes que as cascas dos ovos se rompessem e o brilho esverdeado e serpentino dos seus olhos viesse dissipar o engano ou atestá-lo, ondulavam prontas a inocularem seu veneno pestífero, para o qual não havia cura, ah não!, a não ser o gesto de afastar-se, rapidamente pôr as roupas, o jeans, a camisa, quase como um sonâmbulo, alguém que tivesse caminhado horas e horas por um deserto tediosamente igual em cada duna antes de perceber que tudo fora um sonho e ver-se finalmente desperto sobre os lençóis. Eu ainda quis pedir fica!, por um segundo pensei na conveniência de mentir, de dizer que o Outro não existia, que fora tudo uma miragem, um engano, mas dizê-lo não acaba por produzir o efeito contrário, a sua confirmação, o reconhecimento da existência Dele?

Não esbocei nenhum gesto quando, após calçar os sapatos, ele parou um instante para me olhar, os olhos dizendo da sua confusão, ele ainda não sabia se era Eu ou o Outro, como sabê-lo?, pensei que ele diria alguma coisa, mas seu olhar foi escorrendo, se liquefazendo, foi se desviando de mim, ele foi se afastando da cama, aquele jeito de garoto, meio perdido, ainda atordoado, enquanto eu me encolhia, o Outro comigo, ele também surpreso, talvez tão abalado quanto eu, tão ferido, após ter chegado tão perto e ter perdido, surpreendido que fora, inesperadamente, nós dois fomos nos enrolando sobre nós mesmos, uma bola, um tatu, querendo sumir em meio aos lençóis, buscando, os dois, o esquecimento, ao mesmo tempo em que nos sentíamos mergulhar nisto que, por falta de outro nome, de outra âncora que nos auxilie a entender, chamamos de tempo aquático, onde as coisas perdem seus contornos, se dissolvem, mesmo os sons, que se propagam de forma alterada, repercutem num intervalo diferente, alongado, outro, ecoando como de dentro de uma bruma, distantes esses sons, como o da porta que ouvimos, nós dois, ao final do corredor, imediatamente antes de mergulhar de vez neste torpor submarino, bater como se para sempre.

Acho que tudo está bem, talvez eu me acostume com este tempo aquático, embora isso não seja uma coisa boa, eu sei. Talvez eu consiga escapulir deste círculo que não é um círculo e também não é uma reta e então eu saberei se o tempo-aquático veio antes ou depois, se primeiro o que me atingiu foi o cheiro de ervas maceradas, ou o silêncio do quarto e, talvez, eu consiga decifrar a escrita que as cortinas fazem esfregando-se de encontro ao céu cinza fosforescente ou consiga ouvir – e isso será o sinal, o derradeiro sinal de que estarei finalmente fora deste torpor –, eu acabe por escutar os passos no corredor, os passos dele, de volta para nós.



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