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SOCIEDADE EM REDE

Em busca da ativação

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Desenvolvido desde 2002, método simples e instigante quebra barreiras em relação às redes sociais on-line e cria, em comunidades e instituições, ambientes de colaboração e compartilhamento. Prática revela como é tênue a diferença entre a presença "virtual" e a que se dá "em carne e osso"

Dalton Martins, Hernani Dimantas - (24/12/2007)

A maior dificuldade em lidar com comunidades hiperconectadas está na dificuldade — para não dizer "uma certa preguiça" — de dar início às atividades on-line. Muitas vezes existe uma falta de sincronia entre o ser presencial e o ser on-line. Na verdade, esse recorte é artificial. A presença on-line é tão real como a que se dá "em carne e osso". Estar "on-line é uma seqüela do cotidiano louco que vivemos. Mas vem de uma cultura da conexão, cujas origens, por sua vez, estão na forma como conversamos. Nem sempre exercemos essa conversação de maneira a estarmos abertos a participar de comunidades, nem sempre buscamos a conexão na conversação.

Logo, para facilitar projetos colaborativos tivemos que estabelecer uma ponte entre as ações possíveis no ambiente on-line e as mais diversas formas de conversação de grupos off-line. Pois estamos em redes... vivemos em redes. Sejam redes hiperconectadas, sejam redes off-line. A diferença não está no conceito, mas na velocidade, tempo e outras formas de catalisação do conhecimento humano. E o objetivo aqui é o conversar, o estabelecimento de uma dinâmica da conversação, para que a informação circule livremente. Criar o espírito da conversação e ativar uma rede a partir de seus hubs sociais é um processo sensível, delicado e que não depende do meio — apenas da forma. Queremos conversar e estarmos abertos a novas formas de conversa.

A partir de 2002, iniciamos a pesquisa e a implementação de um método para ativar uma rede social: é o que chamamos de ativação. O processo pode ser utilizado com eficiência para criar uma rede viva de diálogo colaborativo.

O trabalho usa a metodologia do Café Colaborativo, mesclada com interações on-line, meditação, análise e produção coletiva. A maioria das conversas do Café é baseada nos princípios e formato desenvolvidos pelo The World Café, um movimento que cresce em todo o mundo em apoio aos diálogos relevantes em ambientes corporativos, governamentais e comunitários. O formato da dinâmica é bem flexível, para atender às mais distintas circunstâncias e para abrir espaço para criatividade e produção de idéias.

World Café concentra uma combinação de princípios para fomentar dialógo colaborativo, engajamento ativo e construção de possibilidades de ação. As conversações também são uma metáfora provocativa, que permitem enxergar novas maneiras para fazer a diferença em nossas vidas e trabalho. O poder de conversação é tão invisível e natural que geralmente o ignoramos.

Considere, por exemplo, todas as escolhas de aprendizado e ação que ocorrem quando as pessoas vão de uma conversa para a outra, tanto dentro quanto fora da empresa — com fornecedores, clientes e outras pessoas na comunidade em geral. E se considerássemos todas essas conversas como um grande e dinâmico Café, com cada função de trabalho sendo uma mesa, em uma rede maior de conversas vivas, que é o processo central para compartilharmos o nosso conhecimento coletivo e modelarmos o nosso futuro? Ao nos conscientizarmos do poder do diálogo como um processo fundamental para os negócios, poderemos utilizá-lo de maneira mais eficaz para benefício mútuo.

Em oito passos, grupo identifica o seu "comum". Espaço informacional surge como fronteira a ser conquistada

Acomode quatro ou cinco pessoas em pequenas mesas estilo Café ou em grupos de conversação.

a. Estabeleça rodadas progressivas de diálogo (geralmente três), de aproximadamente 20 a 30 minutos cada.

b. Perguntas ou questões que genuinamente importam para a vida das pessoas, trabalho ou comunidade são iniciadas. Outros pequenos grupos podem explorar, nas mesas próximas, perguntas semelhantes.

c. Encoraje tanto os anfitriões de mesa quanto os participantes a escrever, rabiscar e desenhar idéias-chave em suas toalhas de mesa ou anotar idéias-chave em grandes fichas, post-its ou descansos de prato no centro do grupo.

d. Após completar a rodada inicial de diálogo, peça para que uma pessoa permaneça na mesa como a "anfitriã", enquanto as outras atuam como viajantes ou "embaixadores do significado". Os viajantes levam idéias-chave, temas e perguntas para as suas novas conversas.

e. Peça para que o anfitrião da mesa dê boas-vindas aos novos convidados e brevemente compartilhe as idéias principais, temas e perguntas da rodada inicial. Incentive os convidados a ligar e conectar idéias provenientes das conversas das mesas anteriores — escutando com atenção e refletindo sobre as contribuições uns dos outros.

f. Ao proporcionar a oportunidade para que as pessoas se movam em diferentes rodadas de diálogo, idéias, perguntas e temas começam a se conectar. Ao final da segunda rodada, todas as mesas ou grupos de conversação na sala serão "polinizados" com insights de conversas anteriores.

g. Na terceira rodada de diálogo, as pessoas podem voltar às suas mesas iniciais para sintetizar suas descobertas, ou podem continuar viajando às outras mesas, deixando o mesmo ou um novo anfitrião à mesa. Às vezes, uma nova pergunta que ajuda a aprofundar a investigação é colocada para a terceira rodada de conversa.

h. Depois de diversas rodadas de diálogo, inicie um período de compartilhamento de descobertas e insights, em uma conversação com todo o grupo. É nessas conversas estilo "plenária" ou "assembléia" que os padrões podem ser identificados, o conhecimento coletivo cresce e as possibilidades para ação surgem.

Usar um processo simples de ativação como o World Café pode abrir espaços mentais para a continuação do debate dinâmico em outros ambientes. Dessa forma, o espaço informacional abre-se como uma nova fronteira a ser conquistada, por um grupo que descobre o seu ’comum’. A rede é dialética. Isso significa que ela privilegia o debate, as conversas e a ação comum.

Mais:

Dalton Martins e Hernani Dimantas assinam, no Caderno Brasil, a coluna Sociedade em Rede. Edições anteriores:

Caminhos da revolução digital
Apesar de dominante, o capitalismo não consegue mais sustentar a lógica de acumulação e trabalho. Seus principais alicerces — a economia, a ética burocrática e a cultura de massas — estão em crise. Com a internet florescem, em rede, novas formas de produzir riquezas, diálogos e relações sociais

O desafio do Open Social
Em nova iniciativa supreendente, o Google sugere interconectar as redes sociais como Orkut, Facebook e Ning. Proposta realça sucesso dos sistemas que promovem inteligência coletiva e convida a refletir sobre o papel da individualidade, na era da colaboração e autorias múltiplas

Multidões inteligentes e transformação do mundo
Esquecidas na era industrial, mas renascidas com a internet, as redes sociais desafiam a fusão entre o poder e o saber, permitem que colaboração e generosidade sejam lógicas naturais e podem fazer da emancipação um ato quotidiano

Por trás dos links, as pessoas
Há dois séculos, a ciência descobriu e passou a analisar as redes. Há vinte anos, elas estão revolucionando o jeito de a sociedade se relacionar consigo mesma



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