Jornalismo Crítico | Biblioteca e Edição Brasileira | Copyleft | Contato | Participe! |
Uma iniciativa


» A desigualdade brasileira posta à mesa

» Fagulhas de esperança na longa noite bolsonarista

» 1 de setembro de 2020

» O fim do mundo e o indiscreto racismo das elites

» O milagre da multiplicação de bilhões — para os bancos

» Movimento sindical em tempos de tormenta

» 31 de agosto de 2020

» A crucificação de Julian Assange

» Nuestra America: os cinco séculos de solidão

» Ir além do velho mundo: lições da pandemia

Rede Social


Edição francesa


» Au Venezuela, la tentation du coup de force

» « Tout ce qu'ils nous proposent, c'est de devenir flics ! »

» Les loups solitaires de Boston

» Le Front national sur un plateau

» Karl Kraus, contre l'empire de la bêtise

» Hors-la-loi

» Révolte américaine contre les ogres du fast-food

» Au Soudan du Sud, l'écroulement des espoirs démocratiques

» Rendez-vous manqué de la gauche et de la politique locale

» Le monde selon Téhéran


Edição em inglês


» How will the US counter China?

» October: the longer view

» America, year 2020

» The ministry of American colonies

» America, the panic room

» Independent only in name

» An election result that won't be accepted

» Into the woods, it's nearly midnight

» Canada's cancel culture

» Crumbs from Sweden's table


Edição portuguesa


» Um resultado que ninguém aceitará

» Edição de Outubro de 2020

» Distâncias à mesa do Orçamento

» Falsas independências

» Trabalho na cultura: estatuto intermitente, precariedade permanente?

» RIVERA

» Edição de Setembro de 2020

» Cuidar dos mais velhos: por uma rede pública e universal

» Restauração em Washington?

» Cabo Delgado: névoa de guerra, tambores de internacionalização


Em nome da harmonia

Imprimir
enviar por email
Compartilhe

Assim Assis Brasil se mostrou em seu romance: mantendo um ritmo sensatamente emocionante do começo ao fim, com a honesta prioridade não de impactar, mas de ser fiel ao texto, ao tom de narração escolhido.

Renata Miloni - (15/12/2007)

Em uma de minhas recentes descobertas tardias, percebi que todo começo de livro deixa o leitor apreensivo, como se aquele objeto fosse uma ameaça e exigisse que a pessoa esteja em permanente posição de defesa. Com Música perdida (L&PM Editores), de Luiz Antonio de Assis Brasil, aprendi que é preciso ter mais paciência na leitura do que eu imaginava.

Comecei a ler com inúmeras dúvidas e descrenças, fazendo daquele livro um estranho cuja única intenção era me cegar. É realmente necessário se livrar de certos costumes e pré-julgamentos ao iniciar uma leitura. Não sei se me deixei levar pelo ar sombrio que sobrevoa a literatura brasileira, pois confesso ter ido pronta para o ataque. Minha pré-reação durou apenas uma página, tempo suficiente para que eu admitisse ter em mãos um grande livro, que se tornaria muito importante para mim.

O cuidado e a delicadeza com os quais o autor tratou a morte, o luto negado, o susto e o terror que vive dentro das pessoas estão presentes em cada linha, na medida de uma música em plenitude. O recurso de frases curtas, com a intenção única de dar um certo efeito ao texto, nunca me agradou, mas reconheço que, para fugir de um impacto não calculado, o escritor deve ter uma lucidez muito maior do texto. E assim Assis Brasil se mostrou em seu romance: mantendo um ritmo sensatamente emocionante do começo ao fim, com a honesta prioridade não de impactar (o que pode ser uma conseqüência e não um propósito), mas de ser fiel ao texto, ao tom de narração escolhido.

Bulcão, o melhor personagem

Música perdida, longe de ser uma biografia, como o próprio autor já disse, trata dos momentos vividos — com a exceção de alguns detalhes que poderiam ter eliminado a literatura do livro, se assim posso dizer — pelo maestro Joaquim José Mendanha (autor do hino rio-grandense), os quais, dentro da ficção, o fizeram entender o que é ser um verdadeiro músico, um artista completo, e que nada teria sentido enquanto ele não aceitasse quem era e o que sua música fazia, levando o tempo que precisasse.

O pai de Quincazé — apelido do maestro quando jovem —, também músico, descobriu que o garoto tinha ouvido absoluto (característica daquele que consegue identificar uma nota musical isolada, algo muito raro) e decidiu que seu filho deveria se dedicar ao estudo da música. Após alguns anos e o jovem Mendanha vai para Vila Rica, Minas Gerais, e conhece Bento Arruda Bulcão, que se transforma em seu primeiro mestre. Com ele, Quincazé aprende acima de tudo o lado romântico da composição, aquele que não exige que o compositor anote, mas que conheça a música para sabê-la — o que diz muito sobre a vida:

No momento em que se anota a música, ela perde o seu drama. Mesmo que o compositor escreva todas as indicações [...], nunca será como ele pensou e como ele sentiu. [...] São apenas palavras. E o que são palavras? (página 36)

A convivência com o jovem fez renascer em Bento Arruda Bulcão uma paixão pela vida, a ansiedade para que ela continue e não pare. Na minha opinião, é o melhor personagem do livro. Seu desenvolvimento faz com que o leitor esteja ao seu lado o tempo todo, vendo seu sofrimento por tudo o que perdeu, pelo que não pôde realizar, acompanhando os estouros de felicidade e uma rara satisfação de ter Mendanha como aluno.

Decidido de uma forma completamente altruísta (do verdadeiro amor que concede a liberdade, do corte violento e necessário), Bento encaminha Quincazé para o Rio de Janeiro, onde teria melhor educação musical com o Padre-Mestre José Maurício Nunes Garcia. Chegando ao Rio, Mendanha aprende sobre música e vida, mas de forma contrária à que Bulcão havia lhe passado. Encantado com as novidades do aprendizado e as possibilidades da nova cidade, o protagonista corta aos poucos o contato com seu primeiro professor, deixando-o num passado quase sem significado — um possível desvio dessa personalidade ainda em formação. Na cidade também consegue trabalhos, passa a considerar Nunes Garcia seu grande mestre e conhece sua futura esposa, Pilar — aquela que lhe dará força até nos momentos em que tudo parece acabar, inclusive quando Mendanha não vê a arte existir mais.

A procura sem fim

É muito fácil, na juventude, lidar com o dom que se possui, pois nada além dele é exigido. A maturidade faz com que se conviva com esse dom, o que muitas vezes implica na desistência dele por inaceitação dos que rodeiam a pessoa e, conseqüentemente, dela própria. Quincazé, em Música perdida, foi feito por influências. A crença única em seu talento anula a confiança em si a partir de si. O que ele é não o faz músico, mas é o que os outros querem — principalmente seu novo professor, o Padre-Mestre — que ele toma como garantia. Sua música é feita por indicações de certo e errado, sempre ditas por outras pessoas, inicialmente e de forma mais pura por Bento Arruda Bulcão.

Aos 40 anos, Mendanha compõe uma cantata, o auge de todo o seu estudo, a composição que confirmaria a grandeza de seu talento. O Padre-Mestre aprova implicitamente a cantata, mas considera um ato de soberba um músico brasileiro querer apresentar uma composição como aquela. Por isso, Mendanha decide fazer uma nova versão, de acordo com o que Nunes Garcia considera aceitável para os ouvidos do país. Isso não o impede, no entanto, de futuramente tocar a composição para um grupo de franceses, que ficam maravilhados com a exímia capacidade do músico e se propõem a enviar a partitura da cantata a Rossini. Mendanha cede aos elogios e, a partir daquele momento, se despede, sem saber, de seu auge na música.

Inicia-se então a negação do maestro pela vida, sob a tortura de uma procura que ele sabia jamais terminar. O satisfatório da vida é que quase sempre estamos errados e ainda temos direito à redenção (inclusive da culpa, inexistente no caso de Mendanha). Uma redenção que pode surgir quando uma orquestra se aquieta, tamanha a perfeição com que se executou uma música, quando a ausência de aplausos indica o intocável da arte.

Durante o livro inteiro, todos, de alguma forma, estão em seus limites. Todos se encerram, em nome da harmonia, para que Mendanha reapareça para si. Música perdida é, assim como a composição de seu protagonista, uma cantata a anunciar seu estado natural de vida: o imortal.



Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BUSCA

» por tema
» por país
» por autor
» no diplô Brasil

BOLETIM

Clique aqui para receber as atualizações do site.

Leia mais sobre

» Cultura
» Literatura
» Seção {Palavra}


Destaques

» O planeta reage aos desertos verdes
» Escola Livre de Comunicação Compartilhada
» Armas nucleares: da hipocrisia à alternativa
» Dossiê ACTA: para desvendar a ameaça ao conhecimento livre
» Do "Le Monde Diplomatique" a "Outras Palavras"
» Teoria Geral da Relatividade, 94 anos
» Para compreender a encruzilhada cubana
» Israel: por trás da radicalização, um país militarizado
» A “América profunda” está de volta
» Finanças: sem luz no fim do túnel
Mais textos