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Vozes hispânicas – 2

Antonio Porchia — os limites da literatura

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A escassez da obra de Porchia é uma decorrência natural, necessária, da sua capacidade de condensação: uma única voz parece requerer uma eternidade de silêncio e meditação.

Marco Catalão - (22/12/2007)

Antonio Porchia nasceu na Itália, em 1886, mas passou a maior parte da vida em Buenos Aires, de 1901 até sua morte, em 1968. Sua única obra, Voces, publicada em várias edições a partir de 1943, compõe-se de fragmentos de difícil classificação, no limite entre a poesia e a filosofia, a plenitude e o vazio, a palavra e o silêncio. A primeira publicação, uma edição de mil exemplares, custeada pelo próprio autor, passou praticamente despercebida. “Descoberto” e traduzido por Roger Caillois em 1949, começou a despertar o interesse da crítica argentina, que chegou a associar sua obra às de Lao Tsé, Kafka, Pascal, Nietzsche, Blake e Lichtenberg, ainda que o próprio escritor negasse conhecer qualquer um desses autores.

A escassez da obra de Porchia é uma decorrência natural, necessária, da sua capacidade de condensação: uma única voz parece requerer uma eternidade de silêncio e meditação. Queria estar em algo para não estar em tudo. Seria possível escrever um tratado a partir dessa frase breve e essencial. O mesmo vale para quase toda a sua obra. As repetições, as marcas de oralidade, a recusa em conferir às vozes um aspecto mais “literário”, não podem ser vistas como mera casualidade: num autor que inegavelmente medita cada sílaba, a recusa ao adereço apresenta um caráter não apenas estético, mas, sobretudo, ético. Esse despojamento muitas vezes será mal compreendido: os editores da prestigiosa revista Sur insistirão em querer “corrigir” seu texto, o que fará com que ele desista de publicá-los ali.

Uma das conseqüências inevitáveis das obras que assumem a forma aforística é o conhecimento parcial, fragmentário, por parte dos leitores, que freqüentemente leva a uma interpretação equivocada; algumas vozes, lidas de maneira isolada, assumem um aspecto cínico e até cruel: Te ajudarei a vir se vens e a não vir se não vens. Trata-se da crueldade que Cioran reconhece como inerente aos grandes escritores, a “generosidade de sua amargura”, que se recusa a qualquer edulcoração para agradar a essa parte desprezível da nossa personalidade que insistimos em chamar de “público”.

Uma anedota curiosa, narrada por José Luis Lanuza, parece condensar a recepção dos argentinos à obra de Antonio Porchia (e não deixa de ser uma síntese da relação entre a literatura e as chamadas “leis de mercado”): “Porchia, místico independente, viu seu nome na vitrine de uma livraria do centro. Não haviam admitido ali seu livro em castelhano, nem sequer em consignação. Mas agora o livro se chamava Voix e estava datado em Paris. Porchia entrou e comprou um exemplar. Era muito mais caro que em castelhano, mas o vendedor o recomendou com efusão. Outro que não fosse ele talvez tivesse se indignado pela mudança de tratamento dado a sua obra. Mas não. Deve ter pensado, com seu amplo sorriso de compreensão: “Estou tão pouco em mim, que o que fazem de mim, quase não me interessa”.

Vozes

Abre-se uma porta para mim, entro e acho cem portas fechadas.

Creio que são os males da alma, a alma. Porque a alma que se cura de seus males, morre.

Encontrarás a distância que te separa deles, unindo-se a eles.

Cem homens, juntos, são a centésima parte de um homem.

Quando o superficial me cansa, me cansa tanto, que para descansar preciso de um abismo.

O mal não o fazem todos, mas acusa a todos.

Quem não enche seu mundo de fantasmas, fica só.

Uma coisa, até não ser inteira, é ruído, e inteira, é silêncio.

Não, não entro. Porque se eu entrar não há ninguém.

Sim, são milhões de estrelas. E milhões de estrelas são dois olhos que as fitam.

Falo pensando que não devia falar: assim falo.

Às vezes, de noite, acendo uma luz para não ver.

Como me fiz, não voltaria a me fazer. Talvez voltaria a me fazer como me desfaço.

És o que necessitam de ti, não o que és.

Quando eu morrer, não me verei morrer, pela primeira vez.

Posso não olhar as flores, mas não quando ninguém as olha.

Parta-se de qualquer ponto. Todos são iguais. Todos levam a um ponto de partida.

Te amo como és, mas não me digas como és.

Quando não se quer o impossível, não se quer.

Ferir o coração é criá-lo.

O medo da separação é tudo o que une.

Se me esquecesse do que não fui me esqueceria de mim.

Iria ao paraíso, mas com meu inferno; sozinho, não.

Fui para mim, discípulo e mestre. E fui um bom discípulo, mas um mau mestre.

O amor, quando cabe numa única flor, é infinito.

O homem igualaria seu digno mestre se, ao fazer sua obra, fizesse também o inferno para sua obra.

Eu pediria algo mais a este mundo, se tivesse algo mais este mundo.

Voces

Se me abre una puerta, entro y me hallo con cien puertas cerradas.

Creo que son los males del alma, el alma. Porque el alma que se cura de sus males, muere.

Hallarás la distancia que te separa de ellos, uniéndote a ellos.

Cien hombres, juntos, son la centésima parte de un hombre.

Cuando lo superficial me cansa, me cansa tanto, que para descansar necesito un abismo.

El mal no lo hacen todos, pero acusa a todos.

Quien no llena su mundo de fantasmas, se queda solo.

Una cosa, hasta no ser toda, es ruido, y toda, es silencio.

No, no entro. Porque si entro no hay nadie.

Sí, son millones de estrellas. Y millones de estrellas son dos ojos que las miran.

Hablo pensando que no debiera hablar: así hablo.

A veces, de noche, enciendo una luz para no ver.

Como me hice, no volvería a hacerme. Tal vez volvería a hacerme como me deshago.

Eres cuanto te necesitan, no cuanto eres.

Cuando yo muera, no me veré morir, por primera vez.

Puedo no mirar las flores, pero no cuando nadie las mira.

Pártase de cualquier punto. Todos son iguales. Todos llevan a un punto de partida.

Te quiero como eres, pero no me digas como eres.

Cuando no se quiere lo imposible, no se quiere.

Herir al corazón es crearlo.

El temor de separación es todo lo que une.

Si me olvidase de lo que no he sido me olvidaría de mí.

Iría al paraíso, pero con mi infierno; solo, no.

He sido para mí, discípulo y maestro. Y he sido un buen discípulo, pero un mal maestro.

El amor, cuando cabe en una sola flor, es infinito.

El hombre igualaría a su digno maestro si, al hacer su obra, hiciera también el infierno para su obra.

Yo le pediría algo más a este mundo, si tuviese algo más este mundo.



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