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O artelho de Aquiles

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Há tradutores por aí que, por falta de humildade ou excesso de preguiça, recusam-se a abrir qualquer dicionário. Mesmo os eletrônicos. Eles sabem tudo, e o que não sabem, podem adivinhar. Ou inventar.

Simone Campos - (22/12/2007)

Nunca pensei que fosse virar tradutora quando crescesse. Queria era ser escritora. O que eu não imaginava era que ser escritora fosse uma atividade tão sem fins lucrativos, que tivesse de se desdobrar em outras para que eu sobrevivesse.

Gostava muito de inglês e tinha facilidade. Gostava de traduzir, como hobby, letras de música que por acaso me caíssem nas mãos. Mas a perda de sentido me dava nos nervos, e para exorcizá-la eu fazia questão de traduzir cada termo ao pé da letra – não importava o quanto ficasse capenga em português. Eu replicava a sintaxe, os verbos auxiliares, tudo.

Depois a situação se inverteu radicalmente. É que comecei, por mim mesma, um processo de “realienação” das palavras: pouco a pouco, num processo talvez comum para todos os que lêem muito desde cedo, comecei a isolar signo, significado, significante; conotação, figura de linguagem... mesmo sem saber seus nomes! (Engraçado que, como sou uma negação total para a matemática, até hoje confundo os conceitos de número, numeral e algarismo. Vergonhinha.) Simplesmente esquartejava a pobre palavra, combinando e recombinando seus pedaços sem a menor empatia por ela, e a guardava assim num frigorífico mental. Às vezes os pedaços se aglutinavam de novo, por ficarem guardados durante muito tempo, mas bastava uma consulta aos alfarrábios e o verbete já estava trocado em miúdos de novo.

Foi aí que comecei a traduzir direito. Quando comecei a ver que um livro não era só aquele objeto na minha mesa; era uma série de idéias e fatos passados pela cabeça de um autor, trocados em palavras na língua dele, que eu decodificaria e trocaria em novas palavras para um leitor futuramente decodificar também. Ou seja: uma relação de quinto grau! (Será? Ou estarei provando meu bloqueio para com a matemática? Contei duas vezes.) Era melhor fazer a engenharia reversa e ir buscar dentro da cabeça do autor o que ele quis dizer, cortando parte dos intermediários. É só isso o que eu faço.

Sei três línguas estrangeiras. Estou engatinhando na quarta. Mas dominar, mesmo, só o inglês. Só a sua estrutura explica a presença exaustiva de pronomes pessoais e possessivos no original, muitas vezes ainda presentes após uma tradução descuidada para o português. Seus escritores usam e abusam da possibilidade de se empilhar adjetivos sobre um pobre substantivo corcunda. Dá para desbaratar uma aglomeração de adjetivos de várias maneiras. Quando são dois, jogo-lhes um feitiço de Áquila como na última frase do período retrasado: vai cada um para um lado.

Maldito verbo “to nod”

Há coisas que têm que ser definidas caso a caso. Por exemplo, o uso do tempo composto versus o pretérito mais-que-perfeito. Há quem diga que misturar os dois é um crime. Eu os misturo ao sabor do texto. Períodos já compridos em inglês podem ultrapassar qualquer limite razoável sob o jugo do verbo composto; por outro lado, é de uma pomposidade inadmissível colocar o mais-que-perfeito numa frase como “colocáramos nossos piercings no dia anterior e já era hora de partir para a balada”. Muitas vezes a decisão é bastante difícil, conclamando a adaptações mais ousadas e, ao mesmo tempo, fiéis: “com nossos piercings completando um dia de idade, já era hora de partir para a balada”.

Maldito seja o verbo to nod. Ou malditos sejamos nós por ainda não termos inventado uma palavra decente para ele em português. To nod é assentir – fazer que sim com a cabeça. Concordar, abanar, menear, sacudir a cabeça. Acenar com a cabeça (positivamente). Dizer que sim (com a cabeça). Então uma frase como Fulano nodded vai virar Fulano concordou com a cabeça ou Fulano assentiu.

É péssimo, porque, especialmente por to nod condensar tanto sentido (uma atitude de subordinação, respeito ou ódio contido) numa palavrinha minúscula, os personagens vão to nod a cada duas páginas e não teremos como traduzir pequeno. E em livros coloquiais, ninguém pode assentir, só dizer que sim, e o sentido se perde – o sentido da resposta não-verbal. Como disse, somos incompetentes – nós falantes da língua portuguesa – por ainda não termos dado um nome coloquial e abreviado para esse fato tão corriqueiro.

E toes? Dedos do pé. Muito usados em cenas de ação e sexo, focos da atenção do leitor, em que todo cuidado é pouco e o equilíbrio é crucial. Existe o termo pododáctilo, mas para evitar a confusão com pterodáctilo ele nem entra em cogitação. Ah, você é gênio (ou leu o título) e sabe que existe ainda outra palavra para dedo do pé, não? Artelho. É isso mesmo, artelho. Uma vez li uma cena de ação em que essa palavra era usada. Era usada insistentemente. Tive que parar de ler, consultar o pai-dos-burros, e, quando voltei para a cena de ação... dava uma risadinha toda vez que tropeçava de novo na palavra, que parecia um palavrão (vocês sabem qual). Isso foi num livro infanto-juvenil traduzido do inglês; eu tinha nove ou dez anos.

Bem, normalmente, o que se faz com esse pepino – ou artelho? Usa-se dedo ou dedinho, sem especificação se da mão, se do pé, se solto na cena do crime. Isso é um crime equivalente a superclose em cena de sexo. Isso é uma coxa? Um cotovelo? Ah, não: é um artelho...

Para esse dilema creio ter encontrado uma solução parcial. É só usar o nome dos dedos do pé. Dedão, (seu) vizinho, médio, anular, mindinho. Dá para resolver certas situações com essa estratégia. O problema é a falta de definição do original – vá saber de qual toe o autor estava falando.

O espírito da escada

Às vezes, o melhor é assumir sua veia autoral. Onde se enfeita em inglês, muitas vezes em português não cabe enfeitar; então, com muito tato, floreia-se parecido em outro lugar onde o inglês não permitia, sempre procurando pensar como o autor – cuja personalidade se absorve no decorrer da leitura, verdadeiro fenômeno. Nesse sentido sou apóstola de Paulo Rónai.

Outro estratagema útil é inventar o que vem a seguir. Explico. O começo de uma frase logo sugere (o quê? o quê?) o seu final. Shave and a haircut... two bits! Geralmente a frase fica muito melhor com um final originalmente imaginado em português. Então, lê-se o começo da frase, traduz-se, completa-se a frase “de ouvido” e só então coteja-se com o final. E, claro, altera-se segundo o original... Pois há tradutores por aí que, por falta de humildade ou excesso de preguiça (dois pecados mortais), recusam-se a abrir qualquer dicionário. Mesmo os eletrônicos. Eles sabem tudo, e o que não sabem, podem adivinhar. Ou inventar.

Agora estou aprimorando o francês para defender mais alguns trocados. O francês já possui outras particularidades. É mais difícil o aprendizado a ponto de adquirir um certo nível de conforto dentro da língua – ou seja, poder construir uma frase com certa confiança, mesmo que de improviso –, porém é um idioma mais fácil de traduzir. Compartilhamos a mesma raiz lingüística...

Já descobri duas coisas. No caso de expressões certeiras como esprit d’escalier [1], geralmente é bom deixar no original – traduzir literalmente poderia fazer alguém menos lido pensar que espírito da escada é algum parente da loira do banheiro. A outra coisa é que períodos longos são menos ambíguos em inglês, mas mesmo assim os franceses insistem em usá-los. Difícil, como sempre, é saber os truques para fazer o texto fluir em português. Ainda há muito estudo a fazer e dicionário a consultar.



[1] Ver

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