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O homem na multidão

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Sem colocar seu detetive no divã, Garcia-Roza conseguiu, de livro a livro, criar uma figura carismática capaz de comportar questões graves de maneira bastante verossímil.

Gregório Dantas - (22/12/2007)

Há quem diga que os altos índices de criminalidade tornaram o romance policial obsoleto. O gênero não assusta mais. Pelo menos não mais do que um telejornal. Tal raciocínio é, em parte, correto. Mas talvez nasça precisamente dessa constatação um dos motivos mais fortes para o contínuo apelo comercial dos livros policiais: eles oferecem uma saída, a idéia de que um crime possa ser solucionado, a fantasia de que um modelo lógico e racional possa ser aplicado ao ato mais bárbaro, e assim explicá-lo. Ainda que sobrem fios soltos no enredo ou ainda que os detetives não sejam mais infalíveis como antigamente, o policial ainda é, basicamente, um exercício narrativo de lógica. Porque há sempre um sentido oculto, a ser descoberto (ou pelo menos sugerido) até a última página. Então, podemos dizer que, dentre outros motivos, o policial é um gênero popular precisamente porque vende a ilusão de que existe uma ordem possível, oculta, um fio de razão, por trás da barbárie.

No caso do romance policial brasileiro, há algumas particularidades a serem enfrentadas pelo escritor. A violência brasileira possui especificidades à primeira vista incompatíveis com o modelo clássico do romance de enigma, ou mesmo com o romance noir (cujo modelo, em linhas gerais, ainda continua em voga). Essa é a opinião, por exemplo, do escritor Luiz Alfredo Garcia-Roza: em uma entrevista concedida à revista Trópico, o autor de O silêncio da chuva (Editora Cia. das Letras) declarou que a violência do Rio de Janeiro não serve ao romance policial, porque “não se trata da violência do civilizado, que se civilizou tanto que precisa dar conta dos seus demônios recalcados”. Pelo contrário, “ela é grosseira, estúpida, ignorante e inteiramente gratuita. Não tem nada de sedutora, nem sequer tem o lado cerebral dos grandes crimes.” [1].

Neste contexto, o escritor de romances policiais tem ao menos duas alternativas. Uma delas seria tematizar diretamente o crime organizado, e ambientar as histórias na periferia ou no morro, um pouco como fez Tony Bellotto em seu recente livro Os insones (Editora Cia. das Letras). Aqui, a lógica tradicional do romance policial (crime, investigação, solução) não se aplica; não acompanhamos a investigação pelo ponto de vista de um detetive, e não existe qualquer ilusão de que o crime será resolvido. Há investigadores (um deles corrupto), mas que não são propriamente detetives, pois agem mais como soldados evoluindo dentro da favela, como em uma frente de guerra. É, claro, muito difícil tratar de um tema tão complexo, mas também é inevitável que o romance policial brasileiro o faça com mais freqüência no futuro.

Outra possibilidade para o escritor é investir em uma história policial de recorte mais “clássico”, como é o caso de Luiz Alfredo Garcia-Roza. Muito embora seu detetive, o delegado Espinosa, não seja uma mente dedutiva brilhante como Sherlock Holmes, e não exiba os clichês de comportamento cristalizados pela tradição do romance noir, ele é um investigador reflexivo, atento às evidências e ao comportamento das pessoas. Em seus romances, o enredo monta-se lentamente, sem pressa, com bastante atenção para os diálogos, os personagens secundários e suas possíveis motivações. Muitas vezes, não sabemos de imediato sequer se houve ou não um crime. O método de Espinosa, além de seu gosto para o devaneio, baseia-se essencialmente em sua habilidade com a palavra, suas técnicas de interrogatório e sua capacidade de surpreender interditos e pressupostos na fala dos suspeitos.

Trata-se, portanto, de um tipo de romance mais centrado nos personagens no que na ação. E de um modelo quase anacrônico de policial: ético, incorruptível e inteligente, leitor de William Faulkner, muito diferente da imagem da truculência que o senso comum tem cada vez mais associado à profissão. Nada poderia estar mais distante de Espinosa, por exemplo, do que o (ótimo) personagem Capitão Nascimento, do filme Tropa de Elite, bizarramente transformado em herói por um grande número de espectadores. Mas qual seria, então, o lugar de “detetives-filósofos” como Espinosa, em um ambiente de quase guerrilha urbana, em que os números de mortos ultrapassam diariamente o de muitas guerras civis?

O duplo

No último romance de Garcia-Roza, Na multidão (Editora Cia. das Letras), há algumas rápidas referências aos conflitos do morro e às diligências de Espinosa no combate ao tráfico. Mas nos mantemos nas ruas de Copacabana, e nos “demônios recalcados” do bairro Peixoto e seus habitantes. Enredo: uma senhora aposentada, pensionista da Previdência, procura o delegado Espinosa sob o pretexto de realizar uma denúncia. Antes de encontrá-lo, porém, ela morre no que parece ser um simples atropelamento, em um dos cruzamentos mais movimentados de Copacabana. As evidências de que tenha sido um crime (ainda que sejam “meras suposições sem nenhum fundamento real”) levam o delegado a investigar o caixa do banco onde a vítima retirava seu dinheiro mensalmente. Hugo Breno é um cidadão solitário, que vive no apartamento herdado da mãe, e cujos únicos prazeres são manter sua excelente forma física e caminhar sozinho em meio à multidão. Além disso, possui uma fixação pelo delegado Espinosa (conhece seus hábitos, acompanha seus movimentos), nascida ainda na infância. Quando meninos, ali mesmo no bairro Peixoto onde ainda vive o delegado, jogaram futebol juntos e tiveram amigos em comum.

Em Na multidão, ocorrem algumas mudanças no perfil do delegado Espinosa. Em primeiro lugar, ele está visivelmente envelhecido. E, perto de completar cinqüenta anos, mantém os mesmos hábitos de pelo menos dez anos atrás, o mais prazeroso deles o relacionamento com Irene, que se complica significativamente neste romance.

Além disso, o fato do caso do suposto assassinato envolver seu passado confere um caráter pessoal à investigação, de um modo que não acontecera antes. Desvendar o caso é, também, desvendar seu passado e repensar algumas certezas. O que não é tão simples, embora o processo de rememoração tenha muito em comum com os métodos investigativos de Espinosa, que aliam evidências mais ou menos palpáveis com a mais desabrida imaginação: “Tampouco sabia se era o passado que aflorava por meio daquela imagem ou se sua imaginação atual é que preenchia as lacunas da memória”. Confusão ressaltada pelo fato das lacunas serem, também, fruto da memória, “que serve tanto para esquecer como para lembrar”.

Hugo Breno e Espinosa têm mais em comum do que sua vizinhança. Ambos mantiveram hábitos bastante similares: são funcionários públicos, criados por mulheres sozinhas e, eles próprios, bastante solitários, e vivem uma rotina quase imperturbável: muito embora o trabalho de Espinosa não seja exatamente monótono, seu cotidiano doméstico é repetido livro após livro, bem como as tarefas burocráticas. Na verdade, Hugo Breno é quase uma versão mais enfadonha, exagerada e, portanto, perigosa de Espinosa. Um duplo. Fazendo uma analogia um pouco exagerada, podemos entendê-lo como um duplo semelhante ao do célebre conto de Henry James, “A bela esquina”. Nessa história fantástica, o protagonista encontra um fantasma que, na verdade, é um eu “alternativo”, uma versão do que ele próprio poderia ter sido [2].

Resistência ética

As duas epígrafes de Na multidão são bastante esclarecedoras da personalidade de seus dois personagens principais, e da própria natureza do romance policial. Uma delas, retirada do conto “O homem da multidão”, de Edgar Allan Poe, diz que “a essência de todo crime permanece irrevelada”. Como, aliás, é próprio da literatura de Garcia-Roza, que privilegia a sugestão e foge ao didatismo. A outra epígrafe é de Walter Benjamim: “o conteúdo social originário do romance policial é a perda das pegadas de cada um na multidão da grande cidade”. Garcia-Roza reconhece e tematiza a inadequação de seu detetive, metaforizando-a na imagem do homem na multidão. E o encontro com seu duplo evidencia essa metáfora: encontrar a si mesmo em meio à multidão significa reavaliar a alteridade e reconhecer que não se está só.

Sem dúvida, Espinosa é um personagem deslocado, talvez anacrônico. Mesmo seu pequeno bairro demonstra sinais visíveis de mudança, enquanto o delegado se atém aos mesmos hábitos, e cultiva suas velhas idiossincrasias. Por exemplo: a insistência em usar uma torradeira da época da Segunda Guerra Mundial (ele gosta de ressaltar), que sequer funciona direito, chega a ser um problema “que persistia a ponto de ter se tornado íntimo como um animal de estimação”. E a falta de jeito na convivência com uma bela mulher anos mais jovem o faz se sentir um senhor do século 19.

O anacronismo do personagem, revelado por esses velhos hábitos em sua dimensão doméstica e cotidiana, representa também a questão da inadequação do modelo de “detetive-filósofo” no contexto atual, principalmente brasileiro. Mesmo no atual estado de coisas, o modelo de investigação tradicional ainda tem seu lugar, nem que seja para vender uma ilusão de ordem possível. Mas, se esse modelo não consegue dar conta de uma realidade que fugiu absolutamente ao controle, e que é muito maior do que o detetive e sua capacidade dedutiva, a resposta do escritor é voltar-se para os personagens e para seus conflitos internos. Não é à toa que tantos teóricos do policial identifiquem similaridades entre o processo investigativo na literatura e a prática da psicanálise. Garcia-Roza reconhece o parentesco, mas tem o cuidado de enfatizar suas diferenças. Diz Espinosa: “Nós não somos psiquiatras, somos policiais. Por mais que as duas coisas sejam parecidas, não são idênticas”.

Sem colocar seu detetive no divã, Garcia-Roza conseguiu, de livro a livro, criar uma figura carismática capaz de comportar questões graves de maneira bastante verossímil. Espinosa é um personagem válido exatamente por compor um modelo de resistência ética a um estado de coisas absolutamente corrompido. Não à toa, o personagem herdou o nome do filósofo Baruch Spinoza que, como explicou Garcia-Roza em entrevista concedida ao jornal Rascunho, “talvez tenha sido o pensador mais ético de toda a história da filosofia. Jamais fez concessões de espécie alguma, a ninguém. Tanto que tentaram matá-lo e excomungá-lo, por sua honestidade e integridade ética. A ética não deve ser uma qualidade acessória. Ninguém deve usá-la como se usa uma blusa nova. Ética é uma coisa que nós somos, e não que nós temos. Ninguém tem ética. É-se ético. Não somos éticos por favor à ordem constituída. Nós o somos por obrigação” [3]

Agora, é esperar que personagens assim não saiam de cena.



[1] Ver

[2] Esse conto pode ser encontrado na antologia de contos de Henry James intitulada Até o último fantasma – contos fantásticos. Trad. De José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

[3] Ver

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