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Sob o sol, sob a lua... Um Balanço...

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Cynthia Cruttenden mobiliza sol e lua para construir um mito quase de fecundação. Keiko Maeo encena a descoberta e o crescimento sensorial do homem.

Pedro Marques - (22/12/2007)

Chama-se poesia infantil o gênero comumente voltado para leitores de até doze anos, em média. Suas melhores produções costumam harmonizar pelo menos três características fundamentais: identidade visual ou ilustrativa cativante; texto que, sem embaraços sintáticos e vocabulares, consiga entregar uma micronarrativa mítica ou cotidiana fluente o bastante para brilhar pupilas infantis; livro fisicamente bonito, brinquedo, objeto que se queira levar na mochila, a qualquer canto, até para a cama na hora de dormir. Ou seja, tarefa nada simples de alcançar, posto que dependente do bom acordo entre as técnicas do artista plástico, do poeta e do editor.

Mas nesse campo também vicejam golpistas, vira e mexe empurrando à criançada e a seus admiradores desenhos à mão torta, versos debilóides e volumes carregados de poluição visual. Brotam, mesmo, poetas marmanjos que, sem aptidão para poética maior de idade, esparramam na folha diminutivos a granel e cenas-gracinhas que não enganam a nenhum pirralho, embora convençam algum adulto ingênuo. Esse é o caso da poesia infantilizada, no sentido ruim do termo.

Os brinquedos que comentarei a seguir apresentam poesia infantil naqueles três vetores indissociáveis. E as semelhanças não param por aí. Sob o sol, sob a lua (32 págs.), de Cynthia Cruttenden, e Balanço (40 págs., edição bilíngüe, tradução de Diego Kaupatez), de Keiko Maeo, acabam de ser saborosamente editados pela Cosac Naify, o primeiro já em edição revista. Tanto um, como o outro, foram primeiramente publicados em 2002. Em ambos, a autoria é de mulheres, que assinam textos e ilustrações. Cynthia e Keiko nasceram em 1970, respectivamente na cidade de São Paulo e em Kyoto, Japão.

O ritmo da vida

No plano poético-narrativo, Cynthia tece um pequeno mito a partir de certa escultura atribuída ao povo Cita, que por volta de 700 a.C. habitava a região da Eurásia. Avistar a reprodução dessa figura – uma cobra enrolada a um lobo – foi a fagulha para seu trabalho. Imagens e palavras contam o embate entre dois animais concretos e simbólicos. Cobra e lobo surgem em princípio separados, cada qual estável em seu lugar. De um lado a cobra solar e diurna (De dia, havia uma cobra); de outro o lobo lunar e noturno (De noite, havia um lobo). Como toda estória fabular, a ordem inicial se desestabiliza para haver ação. Aqui, tal ocorre quando a rotina cosmológica sofre uma perturbação (Porém, daquela vez... o sol e a lua pararam). Ao entardecer, os esperados pôr-do-sol e ascensão da lua estacam, possibilitando que cobra e lobo se encontrem, se misturem e se transformem.

Fabula-se um eclipse, fenômeno imemorialmente gerador de lendas e influente nos comportamentos. Cynthia emprega a técnica de carimbo, utilizando apenas a cor amarela e preta. Foi como criou duas texturas para representar cada uma das forças, ora divergentes ora complementares, da narrativa. Um deles sugere a pele da cobra e a lava solar. O outro, os pêlos do lobo e a luminescência difusa da lua. Porém, um mito quando forte, infantil ou não, insinua no mínimo uma alegoria que, via de regra, empolga mais os adultos. Tradicionalmente, a cobra representa o elemento feminino; o lobo, o masculino. Nessas páginas, eles se encontram, lutam, descansam, sonham e se somam. A artista compõe a imagem da luta, isto é, do enlace amoroso, misturando as duas figuras-temas. Ao descansarem, o lobo revela-se agasalhado, abraçado pela cobra. Ao final, os dois eternizam-se no céu (teve lobo e cobra no céu). Fundidos numa imagem que remete ao óvulo fecundado e a um eclipse total, passam a ocupar o lugar dos astros que marcam o ritmo da vida terrestre.

O máximo do pouco

Keiko, de sua parte, desenha uma cena típica de infância urbana. Sua estória é, portanto, mais individualizada. Ação, cenário, enredo e personagem estão bem circunscritos, principalmente nas ilustrações. O narrador anônimo e único personagem relevante tem cerca de sete anos, cabelos amarelos, blusa azul de capuz, bermuda cinza, meias brancas e sapatos marrons. Ao entardecer, talvez depois de um dia de aula, a julgarmos pelo uniforme, o moleque adentra uma praça comum, habitada por gentes, bancos, árvores, passarinhos e cachorros. Vai direto ao balanço que estrutura a visualidade particular do livro e as sensações da criança.

Os desenhos em lápis de cor, jamais desagradáveis de folhear, são paginados de tal forma que mergulhamos neles como passageiros dessa brincadeira de dar frio na barriga. As paisagens entram em movimento porque, se estamos balançando, ora vemos um prédio saindo do céu, ora um pássaro voando no chão. Só por esse aspecto o livro já seria um ótimo brinquedo. O balanço, no entanto, desautomatiza os sentidos do garoto e de quem o acompanha. Sentado ou de pé, “como um pêndulo (...) pra lá e pra cá”, o embalo liberta aos poucos sua percepção. Ele vai relatando e nos convocando para olhar as luzes, ouvir e respirar a brisa, colher estrelinhas. O resultado final é o êxtase ou a fusão de suas sensações no cosmo: “a cidade balança (...) enquanto deixamos pegadas no céu”. A noite se instala, tudo está girando, o balanço é o vinho da criança.

Cynthia Cruttenden e Keiko Maeo, para fechar com semelhanças, trabalham o ciclo cosmológico e vital. O céu é o limite para Sob o sol, sob a lua e Balanço. Cynthia mobiliza sol e lua para construir um mito quase de fecundação. Keiko encena a descoberta e o crescimento sensorial do homem. As duas ministram uma poesia curta e moderada. É preciso ler e reler muitas vezes seus textos, fazê-los cantar e se mexer, extrair o máximo do pouco. Mas gostar de repetições caracteriza o ser criança e, no fundo, o leitor de toda poesia lírica, a qual, por seu risco, sempre preferiu jogar com a linguagem a simplesmente informar.



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