Jornalismo Crítico | Biblioteca e Edição Brasileira | Copyleft | Contato | Participe! |
Uma iniciativa


» Preparados para o mundo pós-petróleo?

» 3 de julho de 2020

» Destrinchamos a nova lei que mercantiliza a água

» Literatura dos Arrabaldes: O decreto e o levante

» As fronteiras cruzadas em Apocalipse Now

» Bolsonaro usa o vírus para reinventar tortura

» 2 de julho de 2020

» Boaventura: A universidade pós-pandêmica

» As miragens de que se vale a ultradireita

» Em filme, Nise, e sua crítica radical à velha psiquiatria

Rede Social


Edição francesa


» Les forces de l'ordre social

» Vous avez dit « systémique » ?

» Un pays miné par les homicides policiers

» Décollage africain, marasme sénégalais

» BCE, enquête dans le temple de l'euro

» Le procès de M. Barack Obama

» Comment fonctionnent les systèmes de santé dans le monde

» Les nouvelles stratégies pétrolières des Etats et des grandes compagnies

» École et santé en ruines

» La gauche israélienne en déshérence


Edição em inglês


» Oil production and consumption around the world

» OPEC's share of production in a changing oil market

» Passport power

» Prato's migrant workforce

» No going back to business as usual

» Trade war in strategic minerals

» When oil got cheaper than water

» A tale of two countries

» Jair Bolsonaro, wannabe dictator

» The culture of health and sickness


Edição portuguesa


» Dois ou três lugares a preencher – a propósito de José Saramago

» A Jangada de Saramago

» Um homem chamado Saramago

» «O desastre actual é a total ausência de espírito crítico»

» Edição de Junho de 2020

» A fractura social

» Vender carros Audi na Birmânia

» Edição de Maio de 2020

» Defender os trabalhadores

» Todos crianças


POLÊMICA

Por uma justiça maior

Imprimir
enviar por email
Compartilhe

O amor ao próximo e ao sofredor é a regra de ouro, a suprema norma da conduta verdadeiramente humana — porque abre desinteressadamente o ser humano ao outro, a ponto de dar a própria vida para que ele também tenha vida

Leonardo Boff - (21/12/2007)

Muitos de nós estamos acabrunhados com o resultado do Supremo Tribunal Federal, concedendo campo livre para o governo implementar a transposição do rio São Francisco.

O debate naquela corte suprema foi mal colocado. A questão central não era de ecologia ambiental mas de ecologia social. Não se tratava apenas de decidir se o megaprojeto do governo implicava impactos ambientais danosos, coisa que o Ibama, numa decisão discutível, garantiu não haver. O que se tratava, acima de tudo, era de ecologia social: a quem beneficia socialmente o faraonismo daquela projeto governamental? Aos sedentos do semi-árido ou ao agronegócio e às indústrias? Os dados falam por si: cerca de 75% da água se destina ao agronegócio, 20% às indústrias e somente 5% à população sedenta.

Aqui se dá o confronto de duas posições: a do governo e a do bispo Dom Luiz Flávio Cappio, bispo de Barra (BA).

O governo busca um crescimento que, segundo os dados acima referidos, atende primeiramente aos interesses dos poderosos e secundariamente às necessidades do povo sofredor, o que configura falta de eqüidade. Esta posição é chamada de modernização conservadora, teórica e práticamente superada.

Em função de um projeto que prioriza o povo há de se ordenar a transposição do Rio São Francisco

O bispo Dom Capppio encarna uma postura ética dando centralidade ao social e à vida, especialmente dos milhões de condenados e ofendidos do semi-árido, com os quais ele trabalha há mais de 20 anos. Em função deste projeto social, que prioriza o povo e a vida e que não nega outros usos da água, há de se ordenar a transposição do Rio São Francisco.

A justiça legal consagrou o projeto de crescimento do governo. Mas a justiça não é tudo numa sociedade, especialmente como a nossa, marcada por profundas desigualdades e conflitos de interesses que debilitam fortemente a nossa democracia.

O que sustenta a posição do bispo é outro tipo de justiça, aquela originária que antecede à justiça legal, justiça que garante o direito da vida, especialmente daqueles condenados a terem menos vida e por isso a morrerem antes do tempo. A larga tradição da ética cristã, racionalmente fundada em Aritóteles e em Santo Tomás de Aquino afirma aquela justiça originária e alimenta ainda hoje modernos projetos de ética mundial. Ela sustenta que acima da justiça está o amor à humanidade e a todos os seres. Lamentavelmente, não foi isso que se ouviu no arrazoado dos ministros do Supremo Tribunal Federal.

A justiça maior de que fala Jesus tributa amor e respeito Àquele Grande Outro, Deus

O amor ao próximo e ao sofredor é a regra de ouro, a suprema norma da conduta verdadeiramente humana — porque abre desinteressadamente o ser humano ao outro, a ponto de dar a própria vida para que ele também tenha vida, como o está fazendo o bispo Dom Cappio, figura de eminente santidade pessoal e de incondicional amor aos deserdados do vale do São Francisco. Esta é a justiça maior de que fala Jesus, porque tributa amor e respeito Àquele que se esconde atrás do outro que é o Grande Outro, Deus. O povo brasileiro em sua profunda religiosidade é sensível a esse argumento.

Para entender a posição e a atitude profética do bispo, precisamos compreender este tipo de fundamentação. É perversa a tentativa de desqualificar sua figura considerando-o autoritário e falto de base popular. Ele está ancorado nos milhões que geralmente não são ouvidos porque são tidos por incuravelmente ignorantes, zeros econômicos e óleo queimado. Mas eles são portadores de um saber de experiências feito, construido na convivência com o semi-árido e no amor ao rio que chamam com carinho de Velho Chico.

O compromisso de Dom Cappio continua, secundado por todos aqueles que até agora o acompanharam, especialmente, os movimentos populares e nomes notáveis da cena nacional e internacional.

Se ele, em consequência de seu gesto, vier a falecer, a transposição poderá ser feita, pois o governo dispõe de todos os meios, militares, legais, técnicos e econômicos. Mas será a transposição da maldição.

O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por tudo o que representa, não merece carregar esta pecha pelos séculos afora.

POLÊMICA

A fome de miséria do Bispo Os que apóiam Dom Cappio não podem ser de esquerda. Tornaram-se cúmplices e motores de um dos mais profundos conservadorismos brasileiros. Um esquema que glorifica exatamente aquilo que precisa ser vencido: fome, sofrimento e morte



Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BUSCA

» por tema
» por país
» por autor
» no diplô Brasil

BOLETIM

Clique aqui para receber as atualizações do site.

Leia mais sobre

» Brasil
» Fundamentalismo
» Mobilizações Sociais
» Desigualdade e Fraturas Sociais


Destaques

» O planeta reage aos desertos verdes
» Escola Livre de Comunicação Compartilhada
» Armas nucleares: da hipocrisia à alternativa
» Dossiê ACTA: para desvendar a ameaça ao conhecimento livre
» Do "Le Monde Diplomatique" a "Outras Palavras"
» Teoria Geral da Relatividade, 94 anos
» Para compreender a encruzilhada cubana
» Israel: por trás da radicalização, um país militarizado
» A “América profunda” está de volta
» Finanças: sem luz no fim do túnel
Mais textos