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California Dreamin’ e os absurdos do poder

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Premiado em Cannes, filme de Cristian Nemescu serve-se da comédia e do absurdo para revelar impasses da autoridade, impotência oculta do militarismo e limites de certas resistências. Mesmo inconclusa, por morte do diretor, obra revela ascensão do novo cinema romeno

Bruno Carmelo - (12/01/2008)

Neste filme romeno, exibido na última competição de Cannes, o poderoso exército norte-americano se vê dominado por um vilarejo rural no centro da Romênia. Essa é, em suma, a premissa de California Dreamin’: um trem com material bélico, destinado à guerra sérvia, que é impedido de prosseguir por falta de documentos.

Num contexto realista, um simples telefonema resolveria a situação, mas o diretor Cristian Nemescu se diverte ao inverter os papéis: é justamente o telefonema que atiça a curiosidade dos moradores, que se vêem privilegiados por terem figuras tão importantes em sua modesta cidade. O trem, para eles, é o sonho norte-americano em domicílio. Logo, o prefeito enxerga nesses visitantes uma oportunidade de conseguir investimentos; as meninas pensam em potenciais maridos, e o chefe da estação cogita uma oportunidade de se vingar dos norte-americanos, que nunca ajudaram a Romênia.

Os soldados são completamente passivos. Os figurões fortes e ameaçadores não sabem como proceder: eles passam dias na vila, comparecendo à festas e esperando, justamente, a ajuda do país salvador — no caso, o seu próprio. O filme os destitui não só de poder, mas da própria aura de masculinidade investida no militarismo: os líderes são desajeitados com mulheres; diante das várias que se oferecem, não conseguem tomar a iniciativa. Quem ataca são os pobres romenos: os EUA se defendem.

Enquanto isso, a chegada dos documentos atrasa. Nemescu é particularmente talentoso para mostrar as hierarquias e o fenônemo do poder sem rosto, sem identidade. Para quem devem reclamar os soldados? E os romenos? O prefeito diz que a tarefa cabe ao secretário, que a atribui ao ministro, que a atribui a um outro...

Em flashbacks, metáfora vira denúncia social, como se diretor temesse ser bem compreendido

No mesmo sentido, impõe-se a pergunta: de quem se vingar? O chefe de estação vê, nos pacíficos soldados norte-americanos, a tirania de uma país imperialista. Para ele, todo indivíduo norte-americano representa dominação. Logo, precisando dar uma imagem para o inimigo, declara sua guerra pessoal contra a dezena de homens que lá se encontram.

O Anjo Exterminador, de Buñuel; O Castelo, de Kafka, e tantas outras obras cinematográficas e literárias sobre o absurdo vêm à mente. Isso porque o surreal e inverossímil dessas obras são formas de explicitar o real, de exagerar mecanismos invisíveis (como o poder) para torná-los aparentes. Em California Dreamin’, os absurdos do surrealismo se misturam aos exageros da comédia, criando o humor patético da simbólica disputa entre Estados Unidos e Romênia.

É interessante notar que, em meio a sua comédia, o diretor inclui flashbacks em preto-e-branco, fortemente melodramáticos, sobre os romenos na 2ª Guerra Mundial e a esperança frustrada de intervenção norte-americana. A mensagem, já bem trabalhada na parte cômica, agora se explicita: o que era metáfora vira denúncia social, como se o diretor temesse não ter sido bem compreendido. Nessa hora, o conteúdo se sobrepõe à forma, e dá-se prioridade à idéia, ao invés da maneira de retratá-la.

Vale lembrar que Cristian Nemescu faleceu antes da finalização do filme, e a versão de California Dreamin’ apresentada nos cinemas corresponde ao ponto em que se encontrava a obra. Não se sabe exatamente o quanto ele ainda pretendia intervir no filme, mas pode-se imaginar que provavelmente a duração seria encurtada e talvez mesmo os flashbacks não constassem na versão final. De qualquer modo, California Dreamin’ recebeu o prêmio Un Certain Regard, em Cannes, confirmando o sucesso do novo cinema romeno.

Mais:

Bruno Carmelo assina a coluna Outros Cinemas. Edições anteriores:

Suspiria, arte e sentidos
Avesso às fórmulas e clichês dos filmes de terror, o italiano Dario Argento produz obras marcadas por cenários, tons e música incomuns; tempo e espaço não-lineares; debates psicanalíticos. Texto inaugura nova coluna do Diplô, agora sobre cinema e diversidade



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