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Animais distantes

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O escritor é o leitor que acompanha detalhadamente cada passo de um texto e cabe a ele decidir os rumos — mesmo que depois os encontre errados — de sua criação.

Renata Miloni - (12/01/2008)

A literatura tem um enorme poder de fazer com que as pessoas busquem por definições. É o homem dizendo para si mesmo que nada é suficiente, que é preciso contestar a vida. É possível encontrar definições em qualquer forma de arte, lembrando sempre que são obras do subjetivo e este está em constante evolução. Ou seja, a vontade de entender o que se expressa é infindável.

A sensação inicial ao diferenciar o leitor-escritor do leitor-comum é de uma pequena desarticulação de papéis. Afinal, cada função está previamente esclarecida pelas próprias palavras. Por que, então, chamar assim o escritor? A intenção aqui é desfazer o paralelo entre a forma de leitura no momento da escrita — quando o escritor é o dono da história — e a publicação do livro — quando o escritor perde o controle sobre sua obra e os leitores decidem parte de seus rumos. São momentos e atividades totalmente distintos, começando pelos conceitos que em nada se assemelham.

Os escritores são movidos pela leitura. Todos escrevem principalmente para ler — mesmo que não seja algo que levem em consideração — porque deles se origina algo que supostamente ainda não foi escrito. E é de uma só leitura que se pode compreender a diferença de funções da qual falo — a origem (do escritor) e o destino (para o leitor). O destino só é definido posteriormente, ao término da escrita, mas é o aspecto determinante na compreensão de todo esse simples detalhe. Ao escrever, o bom autor (é preciso enfatizar) não se preocupa com quem lerá seu texto: sua preocupação é que ele seja feito da maneira mais satisfatória e honesta naquele instante, não importando se, logo depois, sua opinião poderá ser diferente. Portanto, um possível leitor está longe dos pensamentos desse bom escritor enquanto ele escreve. Não há qualquer relação.

O único leitor que o autor tem em mente ao trabalhar é ele mesmo, é o originário-destinatário. Não parte do leitor-comum (aquele que apenas lê o livro pronto) a decisão de uma história. O escritor é o leitor que acompanha detalhadamente cada passo de um texto e cabe a ele, em união consciente, decidir os rumos — mesmo que depois os encontre errados — de sua criação.

O leitor-escritor nunca está totalmente satisfeito porque é dele a possibilidade da mudança, do encaminhamento, por ser crítico de si mesmo o tempo todo. Como disse Ricardo Piglia, se refirindo a Kafka, "o que ele escreve sempre sai errado porque o lê a partir dos olhos do outro-hostil" (O último leitor, Edit. Cia. das Letras, p. 69). Já ao leitor-comum cabe a total capacidade de avaliação e aprovação (ou não) do desconhecido, que se torna um caminho completamente novo para o escritor a cada livro — o depois, a aceitação, a recepção — que, repito, só se inicia quando o processo de criação está completamente encerrado.

"A mão do afago não é a mesma que escreve.", disse Milton Hatoum em entrevista à Revista Malagueta. Considerando esta frase uma definição, ela se encaixa perfeitamente no que quero dizer. João Paulo Cuenca, respondendo às mesmas questões, fala sobre os dois tipos de leitor:

Quando escrevo um romance, o leitor é um animalzinho tão distante que não posso me preocupar com ele. Muito menos em entretê-lo. Na verdade, quero é fazer um pouco mais de sentido, contar a história que preciso e sobreviver até a próxima página.

O escritor carioca se refere — sem qualquer tipo de ofensa — a um leitor que naquele momento é inexistente, para logo depois se confirmar como aquele verdadeiramente capaz de entender suas escolhas (“sobreviver até a próxima página”), mas não o único capaz de identificá-las.



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