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DEMOCRACY NOW!

Um sopro de oxigênio na mídia norte-americana

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Frente ao crescente alinhamento das grandes corporações da comunicação com o governo e de sua ostensiva perda de qualidade, uma fatia cada vez mais do público se volta para esse noticiário independente, em busca de informações confiáveis. A cada semana, duas novas emissoras de rádio ou tevê inserem o boletim em sua programação

Danielle Follett, Thomas Boothe - (14/01/2008)

A Lei das Telecomunicações de 1996, sancionada pelo ex-presidente Bill Clinton, introduziu uma nova era de concentração da mídia nos Estados Unidos, ao permitir, por exemplo, que uma única empresa, a Clear Channel Communications, expandisse seu patrimônio de apenas 43 estações, em 1995, para mais de 1.100 em 2000. Mas 1996 assistiu, também, ao nascimento do que, sob vários aspectos, é a antítese da corporação midiática: Democracy Now!, um noticiário diário de uma hora sem fins lucrativos. Com a expansão de sua transmissão de rádio e tevê a um ritmo tão surpreendente quanto o do Clear Channel, o Democracy Now! deve seu crescimento ao anseio da população por opiniões críticas e progressistas. O resultado é um programa de notícias que o intelectual Noam Chomsky considera de “inestimável valor”.

“Como a região em que vivemos é tão republicana e tão conservadora – com a maior parte do rádio monopolizada por sabichões da direita, pregadores conservadores e assim por diante –, as pessoas que não são nem republicanas nem conservadoras sentem-se de tal modo marginalizadas, que estão dispostas a ir aonde for necessário para defender esse cantinho das ondas do rádio que nos pertence, a nós, a turma progressista”, explica Joseph Fitsanakis, organizador do Democracy Now!.

Há dois anos, munido de uma petição com cerca de 70 assinaturas, um pequeno grupo de ativistas, vivendo em um canto rural e montanhoso do nordeste do Tennessee, persuadiu a estação de rádio pública local a passar a transmitir o noticiário progressista Democracy Now!. Segundo Fitsanakis, aquele “é o tipo do lugar onde há 30 anos você não podia fazer qualquer coisa política a menos que fosse membro da Ku Klux Klan”. Ele também observa que, nessa parte do país, o ativismo político progressista tem de enfrentar “argumentos” como tiros através das janelas, envenenamento de cães e outras “delicadezas” do gênero. “As pessoas envolvidas em organizar mineiros têm um bocado de histórias como essas para contar”, afirma.

Graças ao ativismo dessas organizações locais, o alcance da transmissão do programa “War and Peace Report”, do Democracy Now!, se expande a um ritmo notável: a cada semana, duas emissoras de rádio ou tevê inserem o boletim em sua programação. Ele também pode ser acessado e retransmitido por meio de um site. Quando começou a ser transmitido a partir de Nova York, 12 anos atrás, o programa foi ao ar em cerca de 30 estações; hoje, o número beira as 700. Além disso, “War and Peace Report” é traduzido em espanhol e disponibilizado em 150 emissoras de rádio voltadas para a população de língua hispânica.

Assim como os principais noticiários matutinos e noturnos, trata-se de um programa que as pessoas acompanham para ter o resumo dos acontecimentos do dia. Mas, ao contrário da grande imprensa, Democracy Now! adota uma postura crítica em relação a seus temas, questionando as políticas e declarações dos que estão no poder, independentemente da filiação partidária. Amy Goodman, produtora executiva e principal apresentadora, gosta de citar um comentário que o jornalista investigativo norte-americano I. F. Stone fez certa vez a um grupo de alunos: “Se é para lembrar de duas palavras, lembrem-se destas: governos mentem”.

Desmoralizadas por seu alinhamento editorial e pelo enxugamento de suas equipes, as grandes corporações da mídia têm um interesse cada vez maior em manter a imagem de imparcialidade na cobertura dos fatos. Essa ilusão é reforçada quando uma fonte de notícias independente é estigmatizada como “parcial” – o que é feito freqüentemente com Democracy Now!. Goodman credita o sucesso de seu programa ao desleixo da mídia corporativa. Para ela, o mainstream “simplesmente tira partido de um pequeno círculo de fanfarrões que falam de tudo sem saber nada”. Essa negligência profissional gerou no público “uma sede por algo alternativo”.

Para produzir suas matérias, Democracy Now! usa os serviços de agências de notícias, mas também explora dezenas de fontes internacionais on-line (a maior parte de língua inglesa), blogs progressistas e relatórios de organizações não-governamentais. Das quinze ou mais chamadas diárias, três ou quatro não são encontradas nos principais noticiários. Ao mesmo tempo, notícias de ampla cobertura são muitas vezes apresentadas de forma surpreendentemente diferente. Assim, quando Gerald Ford morreu, em 2006, a grande mídia norte-americana o louvou como o homem que, após Watergate, “curou uma nação”. Democracy Now! foi o único a lembrar o papel do ex-presidente nos massacres de Timor Leste: “Ford deu ao ditador indonésio, o general Suharto, sua aprovação explícita para o início da invasão”.

Os entrevistados vão dos mais renomados líderes a pessoas comuns, alvos das políticas governamentais e corporativas, passando por uma longa lista de intelectuais, repórteres investigativos, ativistas, artistas politicamente engajados, representantes de ONGs e funcionários públicos – gente raramente ouvida pelos principais noticiários. Entre eles estão Hugo Chávez, Evo Morales, Noam Chomsky, Robert Fisk, Edward Said, Arundhati Roy, Naomi Klein, Ralph Nader e o presidente da Assembléia Nacional Cubana, Ricardo Alarcón. Representantes da agência governamental ou da corporação implicada na discussão são invariavelmente convidados – embora em geral rejeitem o convite. Mas até o ex-presidente do Federal Reserve, Alan Greenspan, já participou.

Próximo à época da invasão do Iraque, quando a imprensa britânica relatou que o governo norte-americano grampeava telefones de membros do Conselho de Segurança da ONU, Democracy Now! foi quase o único veículo dos Estados Unidos a noticiar o fato. Tampouco foi acompanhado por qualquer outro órgão do país quando cobriu detalhadamente as mobilizações contra a guerra no âmbito doméstico. O público dos noticiários convencionais não foi informado da ocupação do gabinete da senadora Hillary Clinton depois que ela votou a favor da Iraq War Resolution, nem ficou sabendo de dúzias de histórias como esta: “Homem é preso em shopping center por usar camiseta com a inscrição ‘give peace a chance’: mais de 150 reagem aparecendo com camisetas semelhantes”

Democracy Now! eventualmente influencia a cobertura das grandes corporações. Em março de 2004, enquanto a imprensa mainstream tratava o golpe de Estado no Haiti como uma revolta popular contra um ditador corrupto, Democracy Now! foi fundo e, numa entrevista exclusiva com o presidente haitiano deposto Jean-Bertrand Aristide, obteve dele a declaração de que os militares norte-americanos o haviam forçado a entregar o cargo sob a mira de pistolas e depois o seqüestraram. A ampla cobertura obrigou as fontes tradicionais a retomar o assunto com novas abordagens.

Um dos motivos para o surpreendente vigor encontrado pelo Democracy Now! no nordeste do Tennessee, reduto republicano, pode ser o fato de que inúmeros norte-americanos, de direita ou de esquerda, compartilham de uma revolta contra o controle governamental e corporativo das fontes de informação. Há gente do lado republicano cada vez mais desiludida com as mentiras, escândalos, fracassos e gastos irrefreáveis do governo Bush. Segundo Fitsanakis, alguns eleitores republicanos uniram-se ao Democracy Now! por estarem preocupados com a diminuição cada vez maior das liberdades civis e da liberdade de expressão – tema recorrente nas transmissões.

A organização apóia-se de forma regular em uma base de cerca de 8 mil voluntários – 1.700 deles em Nova York – que se inscreveram via internet e são contatados para trabalhar algumas horas por dia, em geral cuidando de tarefas administrativas. Os voluntários assumem a função de também divulgar o programa, distribuindo folhetos e adesivos de automóvel que podem ser baixados do site. Um grupo de ativistas da Costa Oeste juntou dinheiro para fazer um outdoor do Democracy Now!, com uma frase contra a mídia corporativa e seu papel na Guerra do Iraque. Em Massachusetts, quando um grupo não conseguiu convencer a estação pública local a veicular o programa, a octogenária Frances Crowe montou uma rádio pirata em seu quintal e o transmitiu para a comunidade. “Os voluntários sempre vão estar ao lado do Democracy Now!”, afirmou a gerente geral da organização, Karen Ranucci. “Hoje, alcançamos um ponto em que poderíamos produzir o programa mesmo sem voluntários, mas jamais teríamos chegado tão longe sem essa ajuda.”




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