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Guerra sem vencedores

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Com mais de cem mil exemplares vendidos na Espanha, traduzido na Alemanha, França, Itália, Holanda, Sérvia, Israel e Romênia, e às vésperas de ser transformado em filme, "Os girassóis cegos" passou despercebido da grande imprensa.

Dida Bessana - (18/01/2008)

Em 2 de agosto de 2004 foram concluídos os trabalhos de exumação de 46 corpos encontrados em uma vala comum na aldeia de Villamayor de los Montes, norte da Espanha. Nos primeiros dias de setembro de 1936, republicanos, entre 18 e 61 anos, foram retirados da cadeia de Burgos, levados para um bosque e executados por tropas franquistas. Especialistas e membros da Associação para a Recuperação da Memória Histórica acreditam que haja em torno de outras 30 mil valas como esta, ainda intocadas no país [1].

Enredado em um punhado de corpos dispostos em uma vala, respirando com dificuldade, o capitão Alegria percebe que não foi morto pelo batalhão de fuzilamento diante do qual estivera pouco antes. Oficial do Exército Nacional, rende-se às forças da Frente Popular um dia antes de o Comitê de Defesa de Madri depor as armas. Mas sua atitude, obviamente não compreendida pelos vencidos, não está destituída de lógica e de senso ético. “Quando teve a oportunidade de falar sobre isso, definiu seu gesto como uma vitória ao revés. ‘Embora todas as guerras sejam pagas com os mortos, faz tempo que lutamos por usura. Teremos de escolher entre ganhar uma guerra ou conquistar um cemitério’”, afirma Alegria àqueles que o julgam e condenam.

Com esta derrota, em 1939, a primeira das quatro que compõem Os girassóis cegos (Mundo Editorial), Alberto Méndez (1941-2004) apresenta sua avaliação do que foi e das conseqüências político-sociais da Guerra Civil Espanhola: em uma guerra entre irmãos, não há vencedores. E escreve para reavivar a memória, para que não haja esquecimento. Por isso se compreende porque seus personagens, embora complexos, parecem desorientados, perdidos.

Morte e desolação

A narrativa, concisa, recorre à mesma modalidade empregada por James Joyce em Os dublinenses: contos independentes que, entrelaçados, geram um conjunto de sentido distinto e apresentam continuidade tanto temporal quanto de tom e estilo. Em todos eles, também, para dar mais verossimilhança à narrativa, Méndez se vale de diversas formas de documentos (cartas, atas judiciais, confissões, diário). Sensível, profundo, realista, carregado de simbolismos, o livro conquistou os prêmios Setenil de Contos e Nacional da Crítica (ambos em 2004) e o Nacional de Narrativa (2005). E “Manuscrito encontrado en el olvido”, a terceira derrota de Os girassóis cegos, foi finalista do Prêmio Internacional de Contos Max Aub, em 2002.

Licenciado em Letras e Filosofia na Universidad Complutense de Madrid, criador da renomada editora Ciencia Nueva (fechada pelo ministro Manuel Fraga Iribarne), militante do Partido Comunista até 1982, roteirista da RTVE e executivo do mercado editorial espanhol, Méndez denuncia a barbaridade dos vencedores e faz uma homenagem ao sofrimento dos vencidos. Estes, sem propósito, só têm pela frente uma vida vã e infrutífera. Por isso, preferem a morte.

E é a morte que espreita, na derrota de 1940, desde o primeiro instante em que se refugia em uma cabana nas montanhas francesas, o casal de jovens republicanos à espera do primeiro filho. Morta no parto, Helena não poderá alimentar o recém-nascido. Cabe ao pai fazê-lo, mas este não tem razões para continuar cuidando de si e do menino. Não há com o que nutrir essas vidas.

Na terceira derrota, em 1941, o general que preside um julgamento de republicanos vê-se diante de Juan Senra, médico que conheceu e acompanhou a morte do filho dele (uma criatura abjeta, fuzilada por seus múltiplos crimes). Instigado pelo militar e sua esposa a falar sobre o rapaz, Senra vai adiando, com suas falsas histórias, a data de sua execução. Entretanto essa farsa o consome. Tomado pelo asco, prefere o pelotão de fuzilamento. A verdade condena-o.

Já a última derrota, a de 1941, transcorre durante o opressivo dia-a-dia imposto pelo regime franquista, que transforma o país em uma enorme prisão. Em três narrativas que se intercalam, acompanhamos um importante republicano, dado como morto pela família, que tenta sobreviver escondido em um armário secreto em casa, enquanto sua mulher é assediada pelo pároco-professor de seu filho, em uma escola católica. O final é dramático e desolador.

Erros de revisão

Com uma “carreira” tão bem-sucedida na Espanha, além de tantos e tão importantes prêmios, mais de cem mil exemplares vendidos, editado na Alemanha, França, Itália, Holanda, Sérvia, Israel e Romênia, e às vésperas de ser transformado em filme dirigido por José Luis Cuerda, não se pode deixar de ressaltar que, publicado no Brasil em novembro de 2007, o livro passou despercebido até agora da grande imprensa. Tivesse sido lançado por uma de nossas já consagradas editoras, e não por uma pequena, com pouco mais de dois anos e localizada em São Bernardo do Campo, Os girassóis cegos já teria conquistado o espaço que merece na mídia.

Quanto à edição propriamente dita, cabe apontar a falta de uma nota que esclareça aos leitores brasileiros o significado da expressão “girassol cego”: aquele cuja atividade é improfícua.

Além disso, caso este livro venha a obter aqui o reconhecimento de que desfruta no exterior, a edição mereceria ser revista para eliminar alguns equívocos de tradução aqui e ali, mas, sobretudo, diversos erros de revisão que se distribuem ao longo do livro.



[1] “Concluyen los trabajos de exhumación de los 45 cuerpos encontrados en una fosa común de la Guerra Civil en Villamayor de los Montes, 2.8.2004 “. Leia mais

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