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O dilema da literatura policial brasileira

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Nenhum escritor está disposto a se colocar como um escritor menor, um mero escritor de literatura de entretenimento. Dos poucos escritores brasileiros de literatura policial, a maioria ainda pretende se colocar uma importância que não deveria ter.

Olivia Maia - (18/01/2008)

Ao contrário do que acontece nos países em que a literatura policial é levada a sério, como literatura de entretenimento, pouco se sabe no Brasil sobre esse gênero, e pouco se sabe sobre os autores que seguem esse caminho. O primeiro nome que costuma vir à mente de um leitor comum é Rubem Fonseca. Muitas vezes, é o único. Mas há quem diga que Rubem Fonseca não é exatamente um escritor de policiais.

Na verdade são dois os dilemas da literatura policial brasileira: o primeiro é a literatura, o segundo é a polícia.

A literatura policial é essencialmente uma literatura de entretenimento, e não há no Brasil essa noção de literatura de entretenimento como tal, vista como tal e julgada como tal. Claro que existem em outros lugares do mundo aqueles críticos mais chatos que reclamam de Harry Potter, mas aqui os únicos críticos que existem são aqueles que sabem enumerar os defeitos da literatura de Paulo Coelho. E nenhum escritor está disposto a se colocar como um escritor menor, um mero escritor de literatura de entretenimento. Dos poucos escritores brasileiros de literatura policial, a maioria ainda pretende se colocar uma importância que não deveria ter.

E isso se dá por causa da polícia. Que polícia é essa, a brasileira? Que leitor de classe média entende que a polícia brasileira é demais diferente da polícia americana, por exemplo, e os investigadores são pessoas que ganham uma miséria e precisam de bicos ou de dinheiro ilícito para sustentar a família? Como criar uma ficção de detetive, uma história de investigação, a partir de um investigador que está pouco se lixando pro idiota que morreu e pro prestígio da instituição para a qual ele trabalha?

Entra o escritor, cheio de pretensão e boas intenções. O escritor policial brasileiro acaba se colocando como espécie de escritor de literatura de costumes, trazendo um retrato da sociedade decadente e da polícia corrupta.

Mas, cazzo, onde então fica a literatura de entretenimento nessa história toda?

Se há muita ação, se há um investigador interessado, há sempre a possibilidade de um leitor mais atento reclamar da falta de verossimilhança. Hoje em dia, no Brasil, muito se questiona a literatura policial justamente pelo uso desses investigadores honestos lutando contra a própria instituição em que trabalham. Há sempre a distinção entre o real e o verossímil e muito nos foi ensinado sobre isso pelo mestre Pirandello.

Que literatura é essa? Quem é o leitor?

Penso que qualquer caminho para uma solução esteja nesse meio termo entre o real e verossímil. A literatura policial de outras partes do mundo já encontrou esse meio termo. Encontrou justamente porque partiu do entretenimento para chegar ao retrato da sociedade, e não o contrário, como se deu no Brasil. Qualquer paralelo com a história da literatura policial no hemisfério norte com a história da literatura policial no Brasil já dá a prova do desvio.

Qual a nossa literatura policial? Rubem Fonseca? Mas será Rubem Fonseca um escritor de literatura policial? Marçal Aquino – e seus criminosos – escreve literatura policial? Tony Belloto? Não seriam esses escritores que fazem qualquer espécie de literatura sobre o submundo, seja ele urbano ou não? Há também Luiz Alfredo Garcia-Roza, ou Joaquim Nogueira, um ex-delegado que caiu nas graças da Cia. das Letras. Os dois últimos têm como protagonistas investigadores, mas será que qualquer um com um conhecimento maior a respeito da polícia brasileira, paulistana e carioca, não desacredita um pouco nesses personagens?

E não fossem esses investigadores honestos e deslocados, estranhos aos colegas de trabalho, como poderia existir a literatura policial brasileira?

Não me parece que a literatura policial brasileira encontrará solução para esse mistério tão cedo. Talvez não possamos mesmo ser um país que produz literatura policial, ou talvez tenhamos criado uma nova literatura dentro do gênero. Se esse for o caso, mesmo que esteja solucionado o problema da polícia brasileira, é preciso ainda resolver o problema da literatura. Que literatura é essa? Quem é o leitor de literatura policial no Brasil? Onde estão os críticos dispostos a encarar essa literatura como ela deve ser, ao invés de tentar enquadrá-la em um cânone do qual ela não consegue fazer parte?

Mais:

A primeira parte deste ensaio pode ser lida na 9ª edição de Palavra:

De Drácula a Philip Marlowe
Até que ponto é possível reduzir o gênero policial a um punhado de características?



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