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Dois poemas de John Donne

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A partir deste número, damos início a uma seção de tradução de poesia e prosa em língua inglesa, coordenada pela jornalista e tradutora Marina Della Valle marina_dellavalle@yahoo.com.br.

Rafael Rocha Daud - (18/01/2008)

Aqui estão, em tradução para o vernáculo, dois poemas desse magnífico poeta inglês do século de Shakespeare ― isto é, o final do 16 e começo do 17. Ao contrário de Shakespeare, Donne não foi sempre admirado, e em hipótese alguma pode ser dito unânime, embora o gosto moderno, de maneira geral, seja-lhe favorável. Assim consta: era chamado metafísico ― outros o seguiram ― como hoje às vezes chamamos alguém de hermético, não no sentido de um elogio, mas querendo dizer que exagera em referências, nem sempre explícitas, e numa maneira muito particular de escrever, nem sempre em conformidade com o padrão da época. Por exemplo, sua métrica soa, boa parte do tempo, como se não fosse regular, pelo uso das pausas e enjambements freqüentes.

John Donne era um homem do mundo. De ser um homem do mundo lhe vinham poemas tais quais a “Elegia: indo para o leito”, sumamente erótica, na qual descreve, em tom vocativo, sua amante se despindo, peça por peça, e termina com algo como “para ensiná-la, eu me dispo primeiro; por que, então, precisaria você usar mais roupa que um homem?”, assim propondo um amor puramente carnal ― mas não por isso menos precioso; não é por aí que aparecem seus raros momentos satíricos.

Mas era um homem da religião, também, dilacerado por dúvidas e pela situação da Igreja na Inglaterra. Sua família é católica, mas o Estado havia se tornado protestante, com a Igreja Anglicana. Esse movimento de antagonismo, presente em quase toda a produção artística do período das Reformas, aparece bastante em Donne. Além disso, ele não se furtou a tomar parte nos conflitos do mundo, atuando como diplomata, de onde retirou sua familiaridade com o espanhol e o italiano; converte-se ao anglicanismo, tornando-se grande orador e deão; tem a carreira arruinada pelo sogro, por ter casado em segredo e contra a vontade dele ― o que não o impediu de amar a mulher e chorar sua morte após o 12° parto, nem de continuar escrevendo, fazendo sermões e nos legando uma obra bastante moderna, bela, e corajosa.

A CONQUISTA

EU realizei um bravo feito,
Mais bravo que dos Bravos;
E outro mais bravo como efeito,
Que foi acobertá-lo.

Seria então tolo partilhar
Da pedra especular o
Corte, quando quem tem a arte,
Em parte alguma a encontra.

Se eu hoje disso faço alarde,
Outros ― que já não existem
tais pedras em que se trabalhe ―
Em amar como antes insistem.

Quem tenha alma a quem se revele,
Todo o exterior despreza;
Pois esse, que ama cor, e pele,
só ama a roupa mais velha.

Se você pôde, como eu falo,
Enxergar valor na mulher,
E ousar amá-la, e afirmá-lo,
E deixá-la escolher;

E se esse amor você esconde
Dos profanos, vulgares,
Que do fato buscam a fonte,
Ou lhe lançam olhares;

Então você alcançou um feito
Mais bravo que dos Bravos;
E outro mais bravo como efeito,
Que será acobertá-lo.

THE UNDERTAKING

I HAVE done one braver thing
Than all the Worthies did ;
And yet a braver thence doth spring,
Which is, to keep that hid.

It were but madness now to impart
The skill of specular stone,
When he, which can have learn’d the art
To cut it, can find none.

So, if I now should utter this,
Others—because no more
Such stuff to work upon, there is—
Would love but as before.

But he who loveliness within
Hath found, all outward loathes,
For he who color loves, and skin,
Loves but their oldest clothes.

If, as I have, you also do
Virtue in woman see,
And dare love that, and say so too,
And forget the He and She ;

And if this love, though placèd so,
From profane men you hide,
Which will no faith on this bestow,
Or, if they do, deride ;

Then you have done a braver thing
Than all the Worthies did ;
And a braver thence will spring,
Which is, to keep that hid.

***

NASCER DO DIA

Fica, doçura, não te levantes;
A luz que brilha vem dos teus olhos neste instante;
Não é o dia que se levanta, meu coração é que tropeça
Porque devemos tu e eu nos separar com pressa.
Fica, senão minhas alegrias perecem,
Ainda na infância, já se extinguem.

BREAK OF DAY

Stay, O sweet, and do not rise;
The light that shines comes from thine eyes;
The day breaks not, it is my heart,
Because that you and I must part.
Stay, or else my joys will die,
And perish in their infancy.



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