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Contos de fadas para adultos

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Publicado pela primeira vez em 1960, na Inglaterra, “Beijo”, de Roald Dahl, é formado por onze contos em que prevalece o tom sombrio, com detalhes do cotidiano que, aos poucos, constroem um clima de suspense e terror.

Leandro Oliveira - (26/01/2008)

As teorias sobre o conto, de um modo geral, falam da capacidade que o conto possui de transmitir o máximo de sensações por meio de uma estrutura concisa, às vezes até minimalista. No entanto, fala-se pouco a respeito dos livros de contos e da capacidade que estes possuem de apresentar idéias ao leitor através de um conjunto. Porque, embora o bom conto seja capaz, individualmente, de nocautear o leitor, prendendo sua atenção de um modo cada vez mais ávido até o desfecho final, o bom livro de contos aproveita-se de cada uma dessas peças para montar um mosaico de idéias estruturadas de modo a que o leitor identifique elementos que estão num nível acima e resultam de um trabalho consciente de montagem da obra.

Aliás, nesse caso, a analogia com peças de um conjunto que formam uma imagem seria imperfeita. A aproximação mais exata talvez seja a de um corpo, onde cada conto representa um órgão capaz de realizar sua função e que resulta no fato de o livro tornar-se vivo para o leitor. Destacar as idéias interessantes dos principais contos seria reduzir a obra, não enxergar a qualidade superior do conjunto. O bom livro de contos, portanto, é mais do que um livro que contém um conto perfeito. Pode ser até que, isoladamente, os contos não chamem tanto a atenção do leitor, mas o conjunto o faz reconhecer uma grande obra, montada de modo admirável. Esse é o caso de Beijo, de Roald Dahl (Editora Barracuda), uma obra em que o leitor encontra ótimas histórias, com diferentes idéias cativantes, mas que chama atenção pela possibilidade de o leitor reconhecer, através do conjunto de textos, a singularidade do autor.

Perturbação, assombro e nonsense

Publicado pela primeira vez em 1960, na Inglaterra, Beijo, de Roald Dahl, é formado por onze contos em que prevalece o tom sombrio, com detalhes do cotidiano que, aos poucos, constroem um clima de suspense e terror. Animais dóceis – um papagaio ou um pequeno cão – podem subitamente transformar-se em elementos de uma cena macabra, como no primeiro conto, “A dona da pensão”. Algumas histórias mostram uma obsessão em transformar donas de casa submissas em mulheres capazes de atos cruéis e vingativos, como nos contos “William e Mary” e “A ascensão aos céus” ou exibi-las com um caráter cínico, onde o autor, ao desenhar as personagens, beira a misoginia, como na estória “A Sra. Bixby e o casaco do coronel”.

Em outros contos, percebe-se um humor ácido, que serve bem ao recurso que Dahl utiliza, ao exagerar as características de certos personagens para torná-los mais interessantes, como o falso religioso de “O prazer do pastor” ou o homem que não consegue se relacionar com as mulheres, em “Georgy Porgy”. Em “Porco” há a utilização desses elementos sombrios e do humor negro para chamar a atenção ao tratamento dado aos animais. E “O Campeão do Mundo” – o último (e melhor) conto – traz os personagens mais interessantes da obra, Claud e Gordon, homens que se especializaram em capturar faisões de um aristocrata inglês, que bolam um plano fascinante para realizar o maior roubo de aves já visto.

Apesar de, à primeira vista, parecer existir em algumas histórias uma noção ingênua de que o bem prevalece sobre o mal, o livro é interessante pelo modo como Dahl consegue transmitir isso sem simplificações rasteiras, com finais surpreendentes e instigantes. Sendo o escritor também autor de obras infantis, parece haver em Beijo contos de fadas escritos para adultos, como nos livros de Lewis Carroll, mas que ao invés de finalizarem com o famoso "felizes para sempre", contêm apenas perturbação e assombro, com um pouco de nonsense.

Filho de pais noruegueses, o galês Roald Dahl é mais conhecido no Brasil por ser o autor de A fantástica fábrica de chocolate (Editora Martins Fontes) e outras histórias adaptadas para o cinema, como Os Gremlins e James e o pêssego gigante (Editora 34). Mesmo nessas histórias infantis é possível reconhecer as características da escrita do autor, no limite entre o estranho e o macabro. Beijo serve para evidenciar essas características pelas pontes facilmente reconhecíveis entre as histórias que o volume contém. São essas pontes que tornam o livro tão vivo para o leitor que procura boa literatura.



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