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Cassavas, Anselmo e as grandiosidades

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Quando encontro uma literatura feita a partir de certo surrealismo fantástico, ela tende a me agradar muito mais. João Paulo Cuenca mergulha nessa classe com maestria.

Renata Miloni - (26/01/2008)

O dia Mastroianni só é brasileiramente possível na ficção de João Paulo Cuenca. Em seu segundo livro, recentemente lançado pela Editora Agir, o escritor carioca confirma a distância que há entre sua literatura e a dos escritores da mesma geração. A maturidade da escrita, cada vez mais clara e lúcida, e o diligente domínio das evoluções descritivas e dos personagens fazem de Cuenca, atualmente, um dos únicos escritores capazes de entender a importância da essência e dosagem exata dos detalhes na literatura.

Segundo a explicação no próprio livro, um dia Mastroianni é "o dia gasto em pândegas excursões a flanar na companhia de belas raparigas, à brisa das circunstâncias e alheio a qualquer casuística. Para o ‘Dia Mastroianni’ clássico, faz-se mister o uso de terno, óculos escuros e, preferencialmente, chapéus", entre outros complementos. O livro foi construído dentro de uma ironia pura, é a representação máxima do repertório de constatações, expressões e idéias que aos jovens reais, do lado de cá, falta. São vinte e quatro horas ao lado de Pedro Cassavas e Tomás Anselmo, dois rapazes que foram dândis por um dia.

Durante o livro, em alguns minutos entre um fôlego e outro, há conversas entre Cassavas e alguém que possivelmente estaria aos berros distantes com suas letras em caixa-alta, falando (reclamando) sobre a narração do dia que Cassavas faz no livro. Resolvi, entre tantas interpretações possíveis, considerar este alguém uma grande parte talvez perdida da consciência do jovem (o escritor que gostaria de ser?). Também, ao analisar por este prisma, posso concluir que ela possui vários estados. O primeiro e mais freqüente é a lucidez de Pedro, por mais que ele viva numa realidade que exija menos. Enquanto a onipresente consciência não encontra motivos nesse dia mastroiânnico, Cassavas se perde nas afirmações feitas por ela, num pequeno conflito de razões que, mesmo assim, não tiram nosso herói de seu balanço existencial.

É preciso, antes de continuar, reforçar e considerar dentro da ficção o que disse acima: esses jovens adoráveis, na verdade, não são dândis. Eles foram dândis por um dia. E estão longe, de fato, da estagnação adolescente e despretensiosamente interminável. Portanto, algumas das características apresentadas nos personagens podem não existir diariamente. Elas são frutos desse dia apenas.

Cassavas amanhece um dia Mastroianni ao acordar seu amigo Tomás — segundo estado da consciência, aquele em que é possível ignorar o que entra e sai da vida e continuar tudo tranqüilamente. Vivem num ócio resultante de uma causa quase sem saída: não encontram, principalmente Pedro, desafios que sejam dignos de seguir. Se o telefonema não fosse atendido, não haveria espetáculo e tudo seria como é agora, quando alguém olha a distância pela janela de um prédio. Tomás atendeu dormindo (natural?) e acordou de seu sono sem destino de toda manhã. Pedro ligou para colocá-lo num estado possível de acompanhante. E assim foram às direções sem plano.

Começam o flanar do dia, fazem a barba, vão para a casa de Pedro e lá nosso herói inicia a produção da vestimenta, que se encerra numa elegante loja de roupas, para que Tomás acompanhe o amigo da forma adequada. Ao saírem da loja, qualquer cenário está transformado. Dois passos rumo a uma cúmplice concordância e lá estão Pedro e Tomás atravessando seus figurantes sem rostos definidos. Como se fosse um circo sem pretensões agradáveis, como se só quem contracenasse com eles adquirisse expressões compreensíveis. É o espetáculo do mundo real na consciência de Pedro Cassavas — talvez um terceiro estado.

Muito do livro se forma nas inúmeras referências cinematográficas (possíveis candidatas a clichês que o autor desvia de tal caminho) e as citações literárias docemente implícitas. A percepção da vida como literatura e/ou cinema jamais pode ser considerada um clichê, por isso mesmo vejo os possíveis lugares-comuns do livro como algo de extrema originalidade. Identificar um clichê e saber usá-lo são capacidades distintas, mas podem estar presentes em um mesmo autor, como é o caso de Cuenca — por isso o cuidado minucioso.

Pelos de-repentes, Pedro e Tomás são puxados às situações e inicialmente forçados a descobertas — de muito agrado posterior. A grandeza de Cassavas está justamente na ausência total de negação. Tudo é muito rápido mas aproveitado com lentidão por ele. E é nessa lentidão necessária que ele se apega aos detalhes sem precisar presenciar todos ao mesmo tempo. Tomás não acompanha com exatidão o ritmo do amigo — tem o seu próprio e tão interessante quanto —, o estágio é outro.

A realidade é uma ótima fonte, mas cansa

Quando encontro uma literatura feita a partir de certo surrealismo fantástico, ela tende a me agradar muito mais. Cuenca mergulha nessa classe com maestria. A realidade pode ser uma ótima fonte, mas cansa: ela já é um enorme exagero de si mesma. E ao escrever desta forma, a prosa do autor atinge a literatura mais rara do Brasil — quando ele sabe o que faz.

No restaurante de um hotel, os rapazes conhecem Esgar Mxyzptlk, um escritor bastante famoso e já experiente — o estado um pouco mais desenvolvido da consciência de Cassavas, talvez. Com ele se entendem, se encontram num discordar descartável. A conversa em "voltas ao redor do próprio eixo" entre Mxyzptlk e os jovens é esclarecedora dentro de clichês literários sempre originais, mas não leva a lugar algum — e é o que procuravam —, nada ali voltará a existir. Não haverá literatura para discutir, só restarão os egos.

Esgar convida os jovens ao seu quarto no hotel e lá, além de ter ao lado do amigo satisfações visuais, Pedro quis guardar um objeto daquele momento: a última página de um caderno do escritor. Entre vidros e japonesas nuas, os jovens não reagem com naturalidade a certas revelações de Mxyzptlk e resolvem ir embora. Cassavas salta de si mais uma vez, rumo a outra porta. Saem do hotel e se encontram num bar com a doce Maria, namorada de Pedro, e Verônica, a mais recente amiga da moça.

Com elas talvez o dia tenha caído em pequena confusão, a caminho de estranhas fugas ligeiras, mas ficou muito mais claro. Com trocas de bocas, fluidos e posições de posse momentânea de corpos alheios, os quatro jovens seguem seus instantâneos eventos do dia. Os rapazes, já na ausência da doce Maria, acompanham Verônica à casa de uma atriz que ela tem de entrevistar. É quando atingem o ápice da necessidade de sugar o que têm e o que resta ao redor.

Os acontecimentos seguintes fogem de qualquer controle — ninguém nega, Cassavas jamais nega —, até nosso herói cair no abismo certo. Aquele em que a consciência atinge o estado mais puro e intenso, quando ele está presente acima, não dentro — o último capítulo. E também é quando Cuenca confirma mais uma vez a desmedida distância na qual se encontra sua literatura.

É arriscado dizer que determinado livro atinge a perfeição dentro do que se propôs — talvez todos os livros sejam perfeitos neste aspecto — e perigoso arriscar um elogio, um reconhecimento assim, mas como evitar? A narração irrepreensível sem qualquer momento de perda, os diálogos precisos com ironia e não-clichês sublimes, a consciência de Pedro Cassavas e suas variantes: Cuenca fez cada detalhe de uma maneira impossível de fugir desse nível grandioso. É o dia Mastroianni em sua capacidade máxima e um verdadeiro escritor em constante e inegável ascensão.



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