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Carnaval com batida ecológica

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Consciência ecológica leva escolas de samba a rever uso irresponsável de adereços com origem animal — e já se pratica neutralização das emissões de carbono. Também na coluna: comércio justo, mercado de peixes ornamentais, reserva de Tanguá e muito mais

Luiz André Ferreira - (02/02/2008)

Foi–se o tempo em que o gato é quem garantia a afinação da bateria das escolas de samba. O couro do animal era considerado o melhor para a fabricação de tamborins e cuícas, como registra Luís Melodia, um compositor do bairro carioca onde nasceu a primeira escola do país, o Estácio.

Diz a lenda que no tempo dos saudosos Cartola, Carlos Cachaça e Natal da Portela, os felinos desapareciam da Favela da Mangueira e do subúrbio de Madureira — berço das tradicionais Portela e Império Serrano. Isso acontecia assim que batia o primeiro toque do surdo anunciando a nova temporada de ensaios para o próximo carnaval. Uma verdadeira caça às bruxas. Noel Rosa, de Vila Isabel, também cita essa prática em “Cem Mil Réis”, assim como seu contemporâneo Orestes Barbosa.

Os tempos são outros. Os conceitos mudaram. Os felinos já podem circular tranqüilamente pelos arredores das escolas de samba, assim como outros animais — afinal, não é segredo para ninguém a influência da contravenção do jogo do bicho nesse setor cultural brasileiro. Se os gatos deixaram de ser usados para a percussão, outros componentes da fauna foram sendo incorporados para sustentarem a vaidade desenfreada na busca pelo luxo, em fantasias e carros alegóricos. Alguém já parou para pensar em quantas aves são sacrificadas para aquele festival de plumas e penas de faisões?

É fato que as escolas de samba fazem um belo trabalho de responsabilidade social com inúmeros projetos em suas comunidades carentes, esquecidas pelas ações do poder público. Mas e o aspecto ambiental? O carnaval romântico de Cartola já se foi. Hoje, a festa é uma indústria. Como tal, deve ser cobrada por medidas ecologicamente corretas: busca por tecnologias e materiais limpos, incentivo aos produtos reciclados, um plano de destino final das fantasias após os desfiles e uso de matérias primas que não degradem o meio ambiente.

Sem esquecer da mão de obra responsável: segurança e garantias trabalhistas aos milhares de operários responsáveis pelas belas apresentações, desde a fase de preparação até a apoteose do desfile. Este ano, houve uma verdadeira revoada (não de pássaros) de operários, que como num passe de mágica, desapareceram misteriosamente quando a Delegacia Regional do Ministério do Trabalho bateu à porta da Cidade do Samba (local onde estão concentrados os barracões das grandes escolas cariocas). Em meio à eterna corrida contra o tempo, para pôr o desfile na avenida, o silêncio e o vazio tomaram conta dos ateliês. Dava a impressão de que era quarta-feira de cinzas e não a frenética contagem regressiva para o grande dia. Evidente sinal de que a mão de obra era, em maioria, irregular.

Subitamente, sucumbindo às forças da indústria do maior carnaval do mundo, o plantão dos fiscais trabalhistas cessou. Tudo voltou como antes, no quartel do samba. Nada pode parar o “consórcio” em torno do carnaval carioca, que envolve, no mesmo carro alegórico, contraventores, empresários de diversos ramos, até as esferas governamentais interessadas nas divisas trazidas pelos milhares de turistas. São os dólares e os euros que barram os verdadeiros sambistas. Se antes diziam que ‘tinha gringo no samba” quando algo ia errado, hoje seus recursos são disputados, mesmo que ponham em risco a harmonia e o andamento das escolas.

Mas nem tudo está perdido. Dois bons exemplos evoluem este ano. A escola de samba Imperador do Ipiranga, em São Paulo, aboliu todos adereços de origem animal. Penas e plumas artificiais foram reproduzidas a partir de tecidos sintéticos, enfeites de PVC e carros alegóricos de garrafas PET. O outro sinal vem justamente da raiz da árvore do Samba, a Portela. Com o enredo “Reconstruindo a Natureza, recriando a vida: o sonho vira realidade”, a tradicional escola, que tem uma águia como símbolo, assumiu o compromisso de neutralizar as emissões de gases do efeito-estufa. Coloca na contabilidade desde a fase de preparação até a passagem da azul e branco pela Marques de Sapucaí. O desfile “carbono zero” é mais um marco na história do carnaval escrito pela Portela. A escola já conta com uma equipe de voluntários e contratou uma empresa para fazer o cálculo da dívida com a natureza, que deverá ser paga com plantio de árvores. Parabéns Portela! Já é campeã ambiental!

RESPONSA

Comércio justo
O conceito de comércio justo na área da agricultura cresce 20% ao ano no mundo. A base é a negociação por lucros justos tanto para quem vende como para quem compra — ou seja, produtores e consumidores finais. A previsão é beneficiar um milhão de agricultores de 50 países. Enquanto isso, aqui no Brasil ainda prolifera a figura dos atravessadores, que só servem para explorar o agricultor e encarecer os produtos que chegam s nossas mesas.

Não descanse em Paz:
Até mesmo os mortos caem no samba! Fazendo parte do calendário oficial de carnaval da cidade de Cabo de Santo Amaro, em Recife, o Bloco do Defunto reune, todo ano, mais de dez mil pessoas. A concentração é à meia noite da quarta-feira de cinzas. O desfile acontece dentro de um cemitério local!

Negócios do carnaval:
Depois das instituições de ensino (mais de três universidades cariocas oferecem cursos voltados para o carnaval como um negócio), agora é o Sebrae quem investe na área. O programa para inserção "Micro e Pequenas Empresas" na cadeia produtiva da economia do Carnaval espera já colher confetes na temporada de 2009. Há estudos direcionados para contribuir para a geração de novos empreendimentos, postos de trabalho, renda, profissionalização e qualificação. A pesquisa vai tabular dados de 72 escolas de samba e trabalhadores do carnaval carioca.

Banco na floresta:
Para marcar os 100 anos de presença no Amazonas, o Banco do Brasil assinou protocolo de intenções com o governo do estado, buscando o desenvolvimento regional sustentável. A primeira etapa foi dada com o lançamento do selo alusivo aos 100 anos do BB na Floresta.

Origem do dinheiro:
Pesquisa do IBGE aponta que 59% dos financiamentos das entidades de assistência social vêm de recursos privados, 32% dos cofres públicos e 2,1% de outros países.

Mídia:
O Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social lançou uma nova publicação voltada para RSE (Responsabilidade Social Empresarial) na Mídia.

SALADA

Peixes ornamentais:
Movimentando, em todo o mundo, mais de US$ 500 milhões e cerca de 1 bilhão de exemplares negociados por ano, o mercado de peixes ornamentais merece uma atenção especial das autoridades. Isso porque o Brasil é um dos mais importantes fornecedores de espécies de clima tropical, mas convive com uma série de problemas, entre eles, a exportação irregular e a pesca predatória. A maior parte dos peixes ornamentais exportados é proveniente de capturas. Já no mercado interno, são provenientes de criações.

O norte do país é pioneiro na pesca e comércio desses animais no mundo. Os primeiros registros datam de 1930. Na legislação brasileira, o extrativismo para fins ornamentais é permitido: 172 espécies de águas continentais e 135 marinhas. O Brasil é o segundo maior exportador da América do Sul e o 17º no ranking mundial, tendo vendido para outros países mais de US$ 4 milhões, somente em 2005.

Quarto poder:
Análise de 50 jornais impressos mostra o aumento da atenção da mídia mundial para as mudanças climáticas. Pesquisa da Agência ANDI, com apoio da Embaixada Britânica, revela que no Brasil o principal problema é a falta de contextualização. Apenas 1/3 das reportagens apontam as causas das mudanças ou soluções para os problemas. O relatório constata que a mídia exerceu pouco sua função de monitorar as políticas públicas. A pesquisa “Mudanças Climáticas na Imprensa Brasileira” destaca que menos de 15% do material publicado relaciona o tema à agenda do desenvolvimento. Em somente 35% dos textos, a mídia trata as mudanças climáticas a partir da perspectiva ambiental. Mas, entre os pontos positivos, a imprensa diversificou as fontes ouvidas. Antes eram sempre as mesmas e, quase sempre, oficiais.

Tinguá:
Localizada numa região marcada pela pobreza, a Reserva Biológica de Tinguá, no município de Nova Iguaçu (Baixada Fluminense) reúne riquezas naturais em contraste com a desigualdade social do entorno. Um estudo de potencialidades turísticas está sendo feito para a área. O objetivo é explorar de forma sustentável o turismo ambiental e diminuir as ações predatórias. É grave o problema da falta de fiscalização.

Berçário:
Um filhote de gavião-real nascido no Refúgio Biológico Bela Vista, no Paraná, será mantido isolado dos pais até os oito meses. Os técnicos, veterinários e biólogos do projeto ficaram surpresos diante da dificuldade da reprodução da espécie em cativeiro. Em extinção (hoje praticamente encontrado somente na floresta amazônica), o gavião-real é símbolo do brasão de armas do Paraná. O Refúgio comemora, ainda, o nascimento de uma jaguatirica e um cervo-do-pantanal.

Resende:
Novo contrato compensatório entre Resende e a montadora de ônibus de caminhões instalada no município garantirá o plantio de 140 mil mudas. Já foram plantadas 160 mil árvores entre 2005 e 2007. O acordo prevê, também, projetos culturais por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, conhecida como Lei Rouanet. Entre eles, o “Visões da Vida”, um cinema itinerante com projeções gratuitas de filmes em áreas carentes. As ações prevêem palestras em postos de gasolina e outros locais públicos sobre a prevenção e tratamento de doenças como o diabetes. Além disso, patrocina o livro Amazonas - Pátria da Água. Com textos de Thiago de Mello e fotos de Luiz Cláudio Marigo, a publicação é bilingüe e traz histórias, curiosidades e belas imagens da Floresta Amazônica.

Embaixadores do clima:
Em maio, três jovens brasileiros vão representar o país como Embaixadores do Clima, no encontro do G8+5, no Japão. Os escolhidos receberão treinamento, para que entendam melhor o conceito de aquecimento global, as conseqüências do fenômeno no Brasil e no mundo e formas de multiplicar esse conhecimento em suas comunidades.

Mais

Luiz André Ferreira é colunista do Caderno Brasil de Le Monde Diplomatique.

Edições anteriores da coluna:

Aquecimento, corais e desbeleza
Entidade propõe declarar 2008 o Ano Internacional dos Recifes de Coral. Ameaçadas pela devastação dos mares e alta das temperaturas, formações podem desaparecer. Coluna debate ainda: energia limpa, reflorestamento, Forte de Copacabana, papais-noéis e muito mais

No Natal, presente de grego
Multiplicam-se os casos de brinquedos nocivos às crianças, num sinal de como pode ser perverso o foco exclusivo das empresas no lucro. Também na coluna: aumento na devastação da Amazônia, produção impune do amianto, surf ecológico e Zé do Pedal

Desenvolvido, porém muito desigual
Números revelam: mais importante que celebrar a entrada do Brasil no grupo de países de alto IDH é ampliar lutas que podem reduzir as injustiças sociais no país. Também na coluna: vantagens da ferrovia, lâmpadas certificadas, chuveiro de névoa e muito mais

Valei-me Santa Bárbara!
As chuvas de verão chegaram antes da época, num possível reflexo do aquecimento global. Um efeito pouco conhecido é o aumento do número de raios, que matam cem pessoas por ano no país. Também na coluna: bancos de leite humano, obesidade animal, moda de verão, Oswaldo Cruz e muito mais

O gás que falta nos postos
Uma das causas da forte elevação dos preços, das filas e da falta do combustível para o consumidor final, é a decisão de priorizar a entrega às grandes corporações. Também na coluna: cipó-titica, onças sem-teto, jogos indígenas e muito mais

Morrer e virar verde
O sucesso de iniciativas ambientalistas adotadas por funerárias no Paraná revela como a opinião pública está aberta ao tema do aquecimento global. Também na coluna: ações do Greenpeace contra Angra III, monitoramento de peixes, cinema itinerante, panetone do bem e muito mais

A Copa (verde) do Mundo é Nossa!
Diplô Brasil estréia coluna sobre Responsabilidade Social. Primeiro número avalia: emergência da questão ambiental foi decisiva para o retorno do mundial de futebol ao país. Mas haverá mobilização real em favor da natureza, ou tudo se resumirá a marketing vazio?



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