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Os “rurbanos” contra a natureza

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Augustine Berque - (15/02/2008)

Filadélfia, outubro de 2000. Em uma palestra sobre o habitat humano, o geógrafo Brian J. L. Berry apresentou à platéia o termo “e-urbanização”. Sua reflexão abarcava basicamente os Estados Unidos. Na ocasião, Berry afirmou que a dispersão do habitat, já em curso, fora virtualmente induzida pela fusão perfeita entre a revolução na informática e o “mito norte-americano” – combinação do gosto pela novidade, do desejo de estar em contato com a natureza, do sentimento de existência de um destino e do crisol de onde sai, supostamente, a “nova raça” norte-americana.

Para Berry, essa movimentação já existia há tempos, mas foi freada pela era industrial mais pesada, que impôs a concentração, e voltou à tona apenas no processo de metropolização, quando os carros começaram a diluir os centros urbanos. A partir daí, as formas individuais de interação se desenvolveram e, apesar de cada vez mais estereotipadas, facilitaram as relações à distância, que implicavam no consumo do espaço ligado ao uso massivo do automóvel. Veio então o ciberespaço, concretizado pela e-urbanização, e a tendência foi ampliada: agora a internet permite morar em meio à natureza, encomendando tudo sem sair de casa, sem precisar ir ao trabalho ou fazer compras na cidade. A essência da “americanidade” era finalmente concretizada com a abolição da cidade!

Na Europa, esse modelo é tolhido, até certo ponto, pelo ideal da cidade. Quando lhe perguntaram o que corresponderia a tal ideal nos Estados Unidos, Berry respondeu, após alguns instantes, de reflexão: “a natureza”.

Na época, eu dava aula numa universidade japonesa em que se estudava as aplicações da informática ao habitat. Em uma discussão, meus alunos exprimiram ideais bastante próximos aos de Berry, mas com uma pequena diferença: para eles, a aspiração de morar junto à natureza se explicava pela permanência da mentalidade japonesa, que transcendia os avanços tecnológicos. Assim, tanto o mito norte-americano quanto seu equivalente nipônico coincidiam em encontrar na busca da natureza a expressão de sua respectiva autenticidade.

É impressionante que nenhum dos dois países perceba que a urbanização difusa, longe de beneficiar a natureza, tem como efeito principal o aumento da pressão humana sobre o ambiente. Ou seja, causa a destruição do próprio objeto de desejo. É o que ilustra a parábola do entregador de tofu: suponha uma cidade tradicional, bem compacta, antes da popularização do automóvel. Cem habitantes iam a pé comprar tofu na loja da esquina. Agora, tomemos o urbano difuso. Cada um desses cem habitantes mora numa casa individual, isolada no fim de uma estradinha, e encomenda o tofu pela internet. Para entregar a mercadoria passam a ser necessárias cem viagens motorizadas no fim de cem ruas. O que é mais ecológico, a cidadezinha ou o urbano difuso?

Apoiados em números, os urbanistas e os geógrafos provaram que um habitat disperso é indiscutivelmente mais caro que uma cidade com população equivalente. A isso se contrapôs um argumento forte, fundado em pesquisas de opinião exemplarmente estáveis: três quartos da população queriam casas individuais. Uma afirmação surreal e impossível de se concretizar! Mesmo assim, o mercado tentou organizar a empreitada: no final do século XX, o urbano difuso se disseminou em todos os países ricos.

Como o fenômeno está diretamente ligado ao uso do automóvel [1], ele se manifestou precocemente nos Estados Unidos. Em 1964, o urbanista norte-americano Melvin Webber foi o primeiro a chamar a atenção para a mudança [2]: conforme sua tese, a cidade de antigamente, bem circunscrita e diferente do campo, deu lugar ao que ele chamou de “domínio urbano”.

Não se deve confundir essa forma de urbanização com a multiplicação das metrópoles, que ocorre nos países pobres (os ricos já haviam passado por esse processo de desenvolvimento). No urbano difuso, os habitantes são sociologicamente citadinos, não camponeses, mas o habitat que procuram é rural. Por isso eles fogem da cidade, estabelecendo um segundo domicílio ou um lar definitivo. Já nos países pobres é do campo que se foge, em busca da cidade.

Entre esses dois pólos teóricos não faltam situações intermediárias. Historicamente, a periferia precede o urbano difuso. A partir dessa etapa, a situação varia de país para país. Grosso modo, pode-se distinguir um tipo oceânico, no qual os ricos moram longe do centro, e um tipo continental, em que se verifica o contrário. O mundo anglo-saxão e o Japão são de tipo oceânico; a França, de tipo continental. Mais recentemente, o fenômeno complicou-se nas grandes cidades, com uma tendência ao aburguesamento dos centros, tornados inacessíveis à classe média pela especulação imobiliária [3]. Nos bairros centrais do Japão, por exemplo, a renovação urbana multiplica os manshon, prédios altíssimos em que os apartamentos são vendidos a preços igualmente elevados.

Nos países ricos, detecta-se uma tendência global à urbanização difusa do conjunto dos territórios à medida que uma população de tipo urbano tende a substituir as antigas camadas camponesas. E, seja qual for a razão conjuntural que leve à decisão de comprar um imóvel mais ou menos longe dos centros, a motivação mais generalizada desse movimento é o desejo de morar perto da natureza.

Claro, aquilo que um americano e um japonês médios entendem por “natureza” difere consideravelmente [4]. Depende dos ambientes e da história. No entanto, o fenômeno do urbano difuso manifesta uma convergência para modos de vida análogos. Mas por que as sociedades ricas passaram a idealizar esse modelo de habitação? (ler nesta edição)

Essa história se estende por mais de três milênios, desde as suas expressões mitológicas mais antigas até as motivações contemporâneas. E hoje chegou a um paradoxo insustentável: a busca da “natureza” como paisagem destrói seu próprio objeto, a natureza como ecossistemas e biosfera. Associada ao automóvel, a casa individual passou a ser a força motriz de um gênero de vida cuja desmesurada “pegada ecológica” [5] leva a um superconsumo dos recursos naturais, uma situação insustentável em longo prazo. O urbano difuso dilapida o capital ecológico da humanidade e nos leva, literalmente, ao suicídio.



[1] Para nos limitarmos à compra e venda de combustível, um estudo de Newman e Kenworthy comparando 32 cidades ricas, ultimamente muito citado na imprensa internacional (p. ex., Libération, 12-13 de janeiro de 2007, p. 34), mostra que esse consumo é inversamente proporcional à densidade: máximo em Houston, mínimo em Hong-Kong.

[2] Melvin Webber, L’Urbain sans lieu ni bornes [O urbano sem lugar nem limite], L’Aube, La Tour d’Aigues, 1996.

[3] François Ruffin, “Penser la ville pour que les riches y vivent heureux” [“Pensar a cidade para que os ricos vivam feliz”], Le Monde diplomatique, janeiro de 2007.

[4] Compare-se, por exemplo, Max Oelschlaeger, The idea of wilderness, from Prehistory to the Age of Ecology [“O ideal de regiões despovoadas, da Pré-história à Era da Ecologia], New Haven, Yale University Press, 1991, e Augustin Berque, Le Sauvage et l’artifice. Les Japonais devant la nature [O selvagem e o artifício. Os japoneses diante da naturaza], Paris, Gallimard, 1986.

[5] “Pegada ecológica”: extensão necessária à renovação, pelos ecossistemas, dos recursos que destruímos. Atualmente, a “pegada ecológica” da humanidade é superior a um terço da biocapacidade da Terra.


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