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Augustine Berque - (15/02/2008)

Tanto no Oriente quanto no Ocidente, o ser humano tem saudade de uma época em que os frutos da natureza eram obtidos sem trabalho: trata-se da Idade de Ouro de Hesíodo, do Éden do Gênese, do Datong de Confúcio etc. Esse período feliz não conheceu a cidade, emblema do trabalho humano, local em que mais transformamos a natureza. Na Bíblia, esse lugar é explicitamente nefasto: a cidade é obra de Caim, expulso do campo fértil por assassinar seu irmão, Abel. A condenação também não foi passível de apelo em Confúcio, para quem a cidade, com seus fossos, era símbolo de privação e decadência irremediáveis.

Ora, as cidades sempre foram as sedes do poder. Escreveram a história e, em particular, definiram “a natureza”. É o “princípio da gruta de Pã”: em 490 a. C., os atenienses queriam agradecer ao deus Pã pela ajuda prestada na batalha de Maratona, quando ele espalhou o “pânico” entre os persas. Para isso, transportaram sua estátua da Arcádia à Acrópole. Lá o instalaram numa gruta, apesar de na Arcádia ele ter templos em sua homenagem [1]. Por que uma gruta? Para exprimir aquilo que dali por diante Pã passaria a simbolizar efetivamente: “a natureza”. Os pastores árcades não tinham esse conceito, foram os citadinos que o inventaram.

A cidade não se limitou a roubar “a natureza” dos camponeses. Alheia ao trabalho exercido por eles, transformou o campo em “natureza”, embora este tivesse sido construído à custa de milhares de anos de trabalho. Em chinês, o ideograma que designa “campo” também significa “selvagem”. Vistos do alto das muralhas da cidade, campo e natureza se confundiam: tinham em comum a não-urbanidade. No Ocidente, Hesíodo dizia que na Idade de Ouro a terra gerava fruto “por moto próprio” (automatê) [2]. Virgílio atualizou o mito: ainda hoje, nos campos, a “mui justa terra” (ou seja, a natureza), “lança ao solo por si só um alimento fácil” 3.

A lógica de todos os exemplos é a mesma: da cidade não se vê o trabalho camponês. Este é forclos: deixado “de fora” (foris) pela classe dominante, que para ele “fecha a porta” (claudere) e também os olhos. Este pensamento, inacreditável à primeira vista, fica mais compreensível à luz da “teoria da classe ociosa” de Veblen [3]. De fato, foi a classe ociosa que há mais de dois milênios construiu as representações da “natureza” e ainda vivemos sob essa influência. Ela fez do campo a encarnação do não-trabalho fora dos muros da cidade industriosa.

Essa percepção ficou particularmente ilustrada na fase decisiva da invenção da paisagem pelos mandarins, na China do século 4. Aquilo que até então era o meio de vida dos camponeses tornou-se objeto de diletantismo estético para os que não trabalhavam na terra. Para representar esse cenário, era preciso ter um “gosto” (shang) inacessível às pessoas mais “rudimentares”, como tão bem exprimiu o primeiro poeta paisagista Xie Lingyun (385-433). Foram esses mesmos mandarins que inventaram o ermitério paisagista, ancestral de nossas casas de campo “junto à natureza”. Esse mesmo “gosto” foi responsável pela construção Petit Trianon, propriedade em Versalhes onde a rainha Maria Antonieta bancava a pastora.

Agora amantes da “natureza”, todos nós somos herdeiros de Xie Lingyun, que se sentia só diante da paisagem, muito embora estivesse cercado de um exército de criados [4].Nós chegamos até a ampliar o “princípio de Xie Lingyun”: globalmente transformados em classe ociosa com nossas máquinas – em primeiro lugar, o automóvel, esse pretenso automatê –, já não é apenas o trabalho dos humildes que a nossa cultura exclui, é o da Terra que sustenta o nosso mundo. Isso é o que exprime a desmedida pegada ecológica do nosso tipo de vida, e principalmente o deste habitat insustentável: o urbano difuso.



[1] Philippe Borgeaud, Recherches sur Le dieu Pan [Pesquisas sobre o deus Pã], Genebra, Droz, 1979.

[2] Hesíodo, Os trabalhos e os dias,São Paulo, Iluminuras, 1996.

[3] Thorstein Veblen, Théorie de la classe de loisir [Teoria da classe ociosa], São Paulo, Nova Cultural, 1987.

[4] Obi Kôichi, Sha Reiun. Kodoku no sansui shijin [Xie Lingyun, o solitário poeta da paisagem], Kyûko shoin, Tóquio, 1983.


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