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CULTURA PERIFÉRICA

Pirapora, onde pulsa o samba paulista

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Aqui, romeiros e sambistas, devotos e profanos lançaram sementes para o carnaval de rua, num fenômeno que entusiasmou Mário de Andrade. Aqui, o samba dos mestres (como Osvaldinho da Cuíca) vibra, e animará quatro dias de folia. Aqui, a 45 minutos do centro da metrópole

Eleilson Leite - (02/02/2008)

O carnaval dos sambódromos há tempos vem perdendo o encanto de outrora. Os desfiles tornaram-se um grande negócio e os sambas estão com a qualidade muito questionável. Você se lembra de algum samba do ano passado? Está mais fácil lembrar do candidato em quem votamos na última eleição do que recordar os versos do samba enredo de uma escola, seja de São Paulo ou do Rio de Janeiro. O mestre Osvaldinho da Cuíca tem dito que agora o que se ouve é “marcha-enredo”. “Está tudo muito parecido, musicalmente pobre”, completa, resignado. E ele tem razão. Muito samba é feito na base da encomenda, atendendo patrocinadores e outros interesses que influem na vida de uma escola de samba. Sempre há os concursos internos, mas o resultado por vezes não contempla a melhor composição. O próprio Osvaldinho foi vítima dessas injustas escolhas. Depois de muitos anos ele resolveu concorrer ao samba do Vai Vai. O tema Educação, definido para 2008, motivou o grande sambista. Apresentou um samba para ser o melhor do Brasil. E era mesmo. Mas foi derrotado. Seria a chance de guardarmos na lembrança um belo samba-enredo.

Definitivamente, o sambódromo não é o lugar mais adequado para se ouvir um bom samba. Certamente se vêem coreografias exuberantes, brilho e cores de arrebatar as arquibancadas e os telespectadores no sofá, mas chamar a local de desfile das escolas, de “passarela do samba” é um contra- senso. Foi-se o tempo. O tempo em que a ala dos compositores é quem definia as coisas numa escola de samba. Hoje, os velhos sambistas são representantes de glórias passadas e mandam pouco nas agremiações carnavalescas.

Mas se nas escolas os mestres vêm perdendo espaço, fora delas seu prestígio só aumenta. No Rio, os veteranos da Portela e Mangueira têm agenda lotada durante o ano inteiro. Em São Paulo, os mestres da Camisa Verde e Branco, Nenê de Vila Matilde e Vai Vai estão sempre na fita, arregimentando um público cada vez mais fiel. Um público sedento de um samba autêntico com letra poética, melodia envolvente. Esse samba não está no Anhembi ou na Sapucaí. Esse samba está nas comunidades da periferia da Grande São Paulo. Comunidades nas quais as velhas guardas são sempre enaltecidas. E durante o Carnaval, várias delas manterão seus encontros. Samba da Vela (Santo Amaro), Pagode da 27 (Grajaú), Pagode da Tia Ana (Santo André) são algumas que manterão os cavaquinhos afinados.

Nos barracões precários para devotos, negros praticavam ritmos que ficaram conhecidos como "samba de pirapora"

Quero destacar aqui a comunidade que se reúne no Espaço Samba Paulista Vivo, em Pirapora do Bom Jesus, município da região metropolitana que fica a 50 quilômetros da capital. Uma cidade de 15 mil habitantes, conhecida pelas romarias e mais recentemente pelos blocos de espuma branca no Rio Tietê, que corta o município e tem lá seu o trecho mais poluído. Tida como o berço do samba de São Paulo, Pirapora guarda a tradição do samba de bumbo que também é chamado de samba de Pirapora ou samba rural paulista, como definiu o escritor Mario de Andrade em estudo publicado em 1937 com o mesmo título. O autor de Macunaíma era um entusiasta do batuque e do samba que reinavam nas festas populares da pequena cidade ribeirinha.

Mario de Andrade observou in loco e registrou em suas pesquisas que Pirapora era o ponto de encontro não só de romeiros, mas de sambistas também. E esses encontros se davam principalmente na festa do Padroeiro Bom Jesus. Nos barracões instalados para os devotos pobres se acomodarem no período de procissões, predominavam os negros vindos de São Paulo, Sorocaba, Campinas, Piracicaba e Capivari, entre outras cidades. Durante a noite, os devotos faziam muita batucada nesses alojamentos, cuja precariedade remetia às senzalas. Era o encontro do batuque profano com a romaria sacra — fenômeno, aliás, muito de acordo com as origens do Carnaval. Contam os mais velhos que muita gente vinha à Pirapora mais para acompanhar o samba nos barracões do que para se benzer da Igreja da Matriz. Ali se praticavam o samba de umbigada, o samba do lenço, jongo, tambu, samba campineiro, entre outros ritmos. Cada um associado a uma região ou cidade. A forte presença do bumbo acabou por definir genericamente, como samba de bumbo, o batuque de Pirapora.

Essas festas populares de Pirapora influenciaram vários cordões de São Paulo e as primeiras agremiações carnavalescas da capital, como o Grupo Barra Funda, fundado por Dionísio Barbosa. Influenciado pelos batuques de Pirapora, na década de 30, Dionísio foi o primeiro a introduzir o bumbo no carnaval de rua paulistano. Anos mais tarde, o grande sambista Geraldo Filme foi a Pirapora e, baseado em versos de improviso da dona Maria Esther, consagrou a cidade no seu imortal samba “Batuque de Pirapora”, cujo refrão diz assim:

Eu era menino Mamãe disse vamo embora Você vai ser batizado No samba de Pirapora

Além de Osvaldinho, trios elétricos, salões, Samba de Roda, Kolombolo. Não vale a pena perder

Nos últimos anos, a cidade de Pirapora vem organizando um carnaval que valoriza toda essa história e nos faz entender as origens do samba paulista. E neste ano, a festa, cujo tema é a cultura cigana, está super produzida. Em meio a uma vasta programação que inclui trios elétricos, bailes de salão e shows de pagodeiros, está lá, no centro das atenções o Barracão do Samba, oficialmente definido como Espaço do Samba Paulista Vivo, com o grupo Samba de Roda, liderado por Dona Maria Esther Camargo Lara, de 83 anos, mas com vitalidade de 23. “Não importa a idade, o que importa é o rebolado”, afirma a guardiã das tradições do samba de bumbo.

Se no Carnaval, você pretende ouvir e curtir um bom samba, ficou em São Paulo, não vai para a avenida e tampouco ficará no sofá, vá a Pirapora. Em 45 minutos, partindo do centro de São Paulo, você chegará ao reduto do samba. Siga pela Rodovia Castelo Branco, entre em Osasco, passe por Santana de Parnaíba e pronto. Estarás em uma das mais importantes cidades históricas do Brasil. As apresentações do samba de roda acontecerão sábado, domingo e terça , sempre as 12h, regadas à feijoada. E sabe quem estará no sábado? Osvaldinho da Cuíca.

O mestre Osvaldinho organiza há anos caravanas a Pirapora e é um grande incentivador do grupo Samba de Roda. Todo carnaval e também na festa do padroeiro ele está lá. Neste sábado, Osvaldinho terá a companhia do Grupo Kolombolo, além da Dona Maria Esther e os mais de vinte integrantes do Samba de Roda. Desgostoso com os rumos do carnaval e das escolas de samba, Osvaldinho vem cada vez mais apoiando as rodas de samba de comunidade. Ele acredita que nelas ainda se pode fazer samba de qualidade fiel à tradição dos batuques de terreiro, como se tem em Pirapora desde o século 19. E nas rodas de samba, a recíproca é verdadeira.

Pirapora quer dizer “peixe que pula” em tupi-guarani. Devido à poluição do Tietê não dá para conferir o fenômeno que deu origem ao nome da Cidade. Mas em Pirapora é possível curtir um Carnaval com samba de qualidade.

Mais

Eleilson Leite é colunista do Caderno Brasil de Le Monde Diplomatique. Edições anteriores da coluna:

São Paulo, 454: a periferia toma conta
Em vez de voltar ao Mercadão, conheça este ano, na festa da cidade, Espaço Maloca, Biblioteca Suburbano Convicto, Buteco do Timaia. Delicie-se no Panelafro, Saboeiro, Bar do Binho. Ignorada pela mídia, a parte de Sampa onde estão 63% dos habitantes é um mundo cultural rico, diverso e vibrante

2007: a profecia se fez como previsto
Há uma década, os Racionais lançavam Sobrevivendo no Inferno, seu CD-Manifesto. O rap vale mais que uma metralhadora. Os quatro pretos periféricos demarcaram um território, mostrando que as quebradas são capazes de inverter o jogo, e o ácido da poesia pode corroer o sistema

No meio de uma gente tão modesta
Milhares de pessoas reúnem-se todas as semanas nas quebradas, em torno das rodas de samba. Filho da dor, mas pai do prazer, o ritmo é o manto simbólico que anima as comunidades a valorizar o que são, multiplica pertencimentos e sugere ser livre como uma pipa nos céus da perifa

A dor e a delícia de ser negro
Dia da Consciência Negra desencadeia, em São Paulo, semana completa de manifestações artísticas. Nosso roteiro destaca parte da programação, que se repete em muitas outras cidades e volta a realçar emergência, diversidade e brilho da cultura periférica

Onde mora a poesia
Invariavelmente realizados em botecos, os saraus da periferia são despojados de requintes. Mas são muito rigorosos quanto aos rituais de pertencimento e ao acolhimento. Enganam-se aqueles que vêem esses encontros como algo furtivo e desprovido de rigores

O biscoito fino das quebradas
Semana de Arte Moderna da Periferia começa dia 4/11, em São Paulo. Programa desmente estereótipos que reduzem favela a violência, e revela produção cultural refinada, não-panfletária, capaz questionar a injustiça com a arma aguda da criação

A arte que liberta não pode vir da mão que escraviza
Vem aí Semana de Arte Moderna da Periferia. Iniciativa recupera radicalidade de 1922 e da Tropicália, mas afirma, além disso, Brasil que já não se espelha nas elites, nem aceita ser subalterno a elas. Diplô abre coluna quinzenal sobre cultura periférica



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