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Sob a luz de Matisse

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“O autêntico criador não é apenas um ser dotado, é um homem que soube ordenar em vista de seus fins todo um feixe de atividades, cujo resultado é a obra de arte.” – Henri Matisse

Marco Catalão - (02/02/2008)

O livro Escritos e reflexões sobre arte, organizado pelo poeta e crítico de arte Dominique Fourcade, apresenta uma compilação de textos, entrevistas, fragmentos de cartas, transcrições de depoimentos e aulas em que Henri Matisse (1869-1954), um dos artistas plásticos fundamentais do século XX, discorre sobre vários aspectos de seu ofício. Não se limitando a uma tradução do original francês de 1972, a primeira edição brasileira, publicada pela Cosac Naify, é ricamente ilustrada com reproduções das principais obras de Matisse, acrescidas das célebres fotografias com que outro grande artista, o fotógrafo Henri Cartier-Bresson, retratou o pintor francês.

“O que os mestres têm de melhor, o que é sua razão de ser, os ultrapassa. Não entendendo o que é, não podem ensiná-lo.” A afirmação contundente e reiterada de que o artista só pode se expressar plenamente através de sua arte (“o artista dá o melhor de si em seus quadros; azar de quem acha que isso não basta”) não impede que encontremos uma série de lições utilíssimas sobre a natureza da pintura: “Os meios mais simples são os que melhor permitem o pintor exprimir-se. Se ele tem receio da banalidade, não vai evitá-la expressando-se com exterioridades estranhas, apegando-se às esquisitices do desenho ou às excentricidades da cor”.

Trata-se, afinal, de uma meditação ininterrupta sobre a criação artística, que se estende por mais de meio século, e de uma reflexão que em nenhum momento se dissocia da prática. Assim, embora Matisse evite o tom doutrinário, o leitor atento saberá ler a “carta a um jovem artista” implícita em meio a esses textos: “Um jovem pintor, que deve saber que não precisa inventar tudo de novo, deve sobretudo organizar sua mente, conciliando os diferentes pontos de vista das belas obras que o impressionaram e, paralelamente, perquirindo a natureza”. Ou, mais adiante: “Sempre tentei ocultar meus esforços, sempre desejei que minhas obras tivessem a leveza e a alegria da primavera, que nunca dá a suspeitar o trabalho que custou. Assim, receio que os jovens, ao ver a aparente facilidade e os descuidos do desenho, utilizem isso como desculpa para dispensar certos esforços que julgo necessários”.

Um livro é rico quando pode ser lido de diversas maneiras. Para alguns, estes Escritos e reflexões sobre arte elucidarão aspectos fundamentais na composição de obras como A dança ou Jazz ou a capela de Vence; para outros, o fundamental serão as reflexões acerca da relação entre cor e desenho, eixo das preocupações de Matisse. O que mais me impressionou, porém, foi o retrato que se depreende do artista ao longo da leitura, conjunção das fotos, dos quadros e das palavras.

Obsessão pelo trabalho

Em primeiro lugar, chama atenção a indissociabilidade entre o homem e sua obra, captada de forma magnífica por Cartier-Bresson, na imagem que ilustra a capa do livro. Vemos alguém que olha e reflete, e nos lembramos de que “o autêntico criador não é apenas um ser dotado, é um homem que soube ordenar em vista de seus fins todo um feixe de atividades, cujo resultado é a obra de arte. É por isso que a criação, para o artista, começa pela visão. Ver já é uma operação criativa que exige esforço”. Mas Matisse não é só alguém que olha: “Faz mais de cinqüenta anos que não paro um instante de trabalhar. Das nove ao meio-dia, primeira sessão. Almoço. Depois tiro uma sesta e retomo os pincéis às duas da tarde até o final do dia”.

É essa obsessão pelo trabalho que o leva a fazer de tudo para que suas modelos posem também nos domingos: “Pobrezinhas! Não entendem nada. Mas não posso sacrificar meus domingos a essas meninas só porque elas têm namorado. Ponha-se em meu lugar. Quando eu morava no hotel de la Méditerranée, a Batalha das Flores para mim era quase um suplício. Todas aquelas músicas, carros e risos no Passeio! As meninas perdiam a cabeça. Então eu as instalei à janela e pintei-as de costas. O que você queria? Não sei improvisar”.

A belíssima imagem do pintor moderno a que as modelos dão as costas não é a única pintada admiravelmente por Matisse em seus Escritos; há a imagem do jovem que descobre maravilhado as estampas japonesas em reproduções de baixa qualidade e, mais tarde, ao ver os originais, se decepciona: “Já não traziam o frescor de uma revelação”. Vemos também Matisse se recusando a ficar sócio da Sociedade Nacional de Belas-Artes, em 1898, e decidindo se conceder “um prazo de um ano durante o qual pretendia pintar como bem entendesse, afastando qualquer entrave. Trabalhei só para mim. Vi-me salvo. Logo me surgiu, como uma revelação, o amor pelos materiais em si. Senti desenvolver-se em mim a paixão pela cor”. Na mesma época, podemos vê-lo sem dinheiro, “nem para uma cerveja”: “Certa vez pensei, como tinha feito Van Gogh, em montar uma associação de patrocinadores em meu benefício. (...) Às vezes a fome ameaçava. E olhávamos o que os outros faziam, decididos a imitá-los para agradar o público. Não conseguimos. Sorte nossa!”.

Um único fervor e uma única ambição

Mas a incompreensão não é privilégio daqueles que fracassam. O sucesso lhe traz discípulos: “Apareceram muitos alunos. Eu me empenhava em corrigir cada um deles, levando em conta o espírito em que tinham concebido suas pesquisas. Empenhava-me principalmente em lhes incutir o senso da tradição. Desnecessário dizer quão decepcionados ficaram meus alunos ao ver um mestre tido como revolucionário repetindo-lhes a frase de Courbet: ‘Eu quis simplesmente extrair do completo conhecimento da tradição o sentimento depurado e independente da minha própria individualidade’”.

Como Cézanne, Rodin, Maillol e Renoir, figuras que aparecem ao longo dos Escritos como modelos em diferentes aspectos, Matisse parece ter um único fervor e uma única ambição: cumprir seu trabalho. Ao cirurgião, no momento de realizar uma delicada operação, em janeiro de 1941, aos 71 anos, pede: “Dê-me os três ou quatro anos de que preciso para acabar minha obra”. Um ano depois, já recuperado, confessa a Louis Aragon: “Preparei longamente meu ofício. É como se até agora eu estivesse apenas aprendendo, elaborando meus meios de expressão. (...) É como se eu estivesse me preparando para iniciar a grande composição. (...) Como se eu tivesse a vida inteira à frente, enfim, toda uma outra vida... Não sei, mas a busca de signos, foi absolutamente necessário que eu preparasse, buscando os signos, um novo desenvolvimento da minha vida de pintor... Talvez no fundo, sem saber, eu acredite numa segunda vida... em algum paraíso onde farei afrescos...”.

Poderia terminar meu comentário com essa imagem, do pintor eternamente dedicado à sua arte, num paraíso deliciosamente jovem e luminoso. Mas preferirei esta outra, em que a figura do velho mestre conjuga vida e morte, e sintetiza de modo admirável o limite e a grandeza da arte:

“Fiquei muito impressionado com o exemplo do velho Renoir. Eu ia visitá-lo em Cannes. Nos últimos anos de vida, era só uma amontoado de dores. Levavam-no até sua poltrona. Caía ali como um cadáver. Tinha as mãos enfaixadas, dedos como raízes, tão retorcidas pela gota que não conseguia segurar um pincel. Punham-lhe entre as bandagens o cabo de uma brocha. Os primeiros movimentos doíam tanto que lhe arrancavam caretas. Depois de meia hora, quando já conseguia, o morto ressuscitava: nunca vi homem tão feliz. E prometi a mim mesmo que na minha vez eu não me acovardaria”.



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