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Os cheiros da terra

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Que a terra na França exale um perfume rústico e irresistível quando chove sobre ela, admito com prazer. Mas empenho minha palavra como não é igual ao que inspirei nesta manhã em Guarulhos e experimentei tantas vezes, em inúmeros recantos do país.

Diego Viana - (02/02/2008)

Não sei donde me vem esse negócio de cheiro. Reconheço um lugar pelo olfato, como um perdigueiro. Mas o cão é capaz de seguir uma trilha, e eu não. Apenas, às vezes, posso me situar pelo nariz, acima de qualquer dúvida, na geografia afetiva da memória. Não acontece sempre, é mesmo bem raro, mas quando me dá, estaco de pronto, tomado pela sensação súbita de algo familiar que está próximo.

Lembro do dia em que visitei um apartamento parisiense, recém-chegado, disposto a tudo no desespero de encontrar um teto. Mal pousei o pé sobre a soleira da porta, a impressão me golpeou. Era assim que eu sentia Paris, desde a primeira vez em que visitei a cidade, na adolescência. Um ar ligeiramente pesado, denso de uma nostalgia chorosa, como se os edifícios centenários concentrassem em suas pedras o orgulho bambo de toda a nação. Num dos muitos paradoxos da cidade, não é mesmo um bom odor, mas é agradável, estranhamente delicioso. Talvez menos ao olfato do que à fantasia estética. Que posso fazer? Gosto muito. Aluguei o apartamento e vivo nele ainda. Vez ou outra, ainda capto a fragrância, malgrado o hábito adquirido.

Deu-se algo muito semelhante nesta manhã, bem cedo, quando se abriam as portas do aeroporto de Guarulhos e dei com o estacionamento, os ônibus, os taxistas disputando suas presas. Mal se erguera o sol, viajantes e acompanhantes de olhos inchados, chovia ligeiramente, já querendo parar. Mas já caíra água bastante para se infiltrar entre as raízes da grama e, enquanto eu puxava minha mala carregada de presentes, um vento indolente veio trazer-me o resultado da cópula.

Como nove entre dez almas, sou incapaz de resistir à terra molhada, ao cheiro cru que ela empresta ao ar, como se nossa vida ainda fosse debruçada sobre o amanho. Ali, nesse momento, eu me senti bem, porque soube que estou aqui e sou daqui. Graças ao chão temperado com água.

Alguém pode objetar que onde há terra e há chuva, também haverá esse mesmo cheiro. Não concordo. Há tantos cheiros de terra quantas terras há no mundo, um cheiro para cada canto, servindo de farol aos que se tomam de amores pela plaga. E são justamente esses os únicos que sabem reconhecer o que cada um tem de particular.

Que a terra na França exale um perfume rústico e irresistível quando chove sobre ela, admito com prazer. Mas empenho minha palavra como não é igual ao que inspirei nesta manhã em Guarulhos e experimentei tantas vezes, em inúmeros recantos do país. Os solos variam mundo afora, em suas composições químicas, físicas, geológicas. As partículas que descem com a chuva também são únicas, não se repetem. Daí meu direito inegável de sustentar que, se me vendassem os olhos e me submetessem ao exame da terra, eu saberia indicar qual é a nossa, qual é a deles.

Quis fazer aqui a crônica feliz de um retorno ao lar. Mas esse não foi meu primeiro impulso, ao chegar ao aeroporto e me deparar com centenas de conterrâneos pulando nos pescoços uns dos outros para ser o primeiro a retirar as bagagens ou passar pela alfândega. Fui tomado de amargura quando vi a espuma branca que cobria o rio Tietê, depois de tanta propaganda celebrando a reforma de suas margens. E a amargura passou a acidez diante da especulação imobiliária que segue feroz, enquanto nas ruas e calçadas a vida vai se aniquilando. Emperrado no trânsito da Marginal, fiquei cara a cara com um motociclista deitado, desacordado, espero que vivo, aguardando uma ambulância. À sua volta, guardas de trânsito conversavam animadamente sobre futebol (fiquei sabendo que ontem teve clássico, foi zero a zero, com gol anulado). Diante desse quadro que dispensa adjetivos, veio-me a dúvida: já era assim, tão brutal, ou fui eu que desacostumei?

Ah, sim, eu ia falando do cheiro de terra molhada...



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