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Os rebeldes e os outros

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Sándor Márai destila a rebeldia juvenil a partir da noção simples de “nós” e “outros” e da idéia de que o mundo “deles” está completamente errado.

Marco Polli - (15/02/2008)

Rebeldes, de Sándor Márai, publicado originalmente em 1930, tem como primeira virtude lembrar que a rebeldia juvenil não foi criada pela contracultura e nem fundada literariamente por Kerouac ou Salinger. O romance se passa na Hungria de 1918, os personagens principais são adolescentes ― filhos de médicos, comerciantes e militares ― que possuem tempo livre e desapego suficiente das normas familiares. Seus pais não parecem ter mais qualquer resposta para dar, especialmente em uma nação que está desmoronando pelo envolvimento na Primeira Guerra Mundial. Nesse contexto, Abel, Tibor, Béla e Ernö, todos colegas terminando o ciclo escolar, são tomados por um sentimento forte de cumplicidade e, em contrapartida, também de radical estranhamento sobre o mundo dos adultos. Na seguinte passagem, Ernö está simulando ser um adulto questionando o grupo (tradução de Paulo Schiller):

“‘O que significa essa roupa de palhaço? É assim que se preparam para os exames? Enquanto os pais lutam nos fronts, é assim que se preparam para a vida?’”
(...)
‘Não estamos nos preparando para coisa alguma, senhor diretor’, disse calmo Abel. ‘É disso que esse trata. Nós nos esforçamos por não nos preparar.’
(...)
‘Nós também vamos ser adultos’, disse sério Ernö.
‘Talvez. Mas até lá vou me defender. Isso é tudo.’
Jogaram-se sobre a cama. O rosto de Abel estava quente. Tibor sentou-se a seu lado.
‘Você acha’, perguntou Tibor em voz baixa e de olhos arregalados, ‘que é possível nos defendermos deles?’”

Márai destila a rebeldia juvenil a partir da noção simples de “nós” e “outros” e da idéia de que o mundo “deles” está completamente errado. Assim, a Grande Guerra não promove nenhum tipo de nacionalismo, apenas forma um panorama problemático: a maioria dos pais está fora lutando; um dos agregados do grupo, Lajos, irmão mais velho de Tibor, já é veterano de batalha e perdeu um braço; e, por fim, como logo estarão saindo da escola, todos eles poderão ser convocados para o exército. De qualquer maneira, eles não formulam qualquer tipo de discurso antiguerra, há uma pura rejeição do mundo. Com o grupo formado, eles mantêm um lugar secreto de encontro em um balneário decadente, compram roupas extravagantes e quinquilharias com dinheiro que furtam de casa, têm efêmeras experiências hetero e homossexuais, apostam jogando cartas e criticam todos aqueles que conhecem. Somente poucos adultos ― como um ator mambembe e um penhorista ― conhecem e envolvem-se nas atividades do bando.

A individualidade e o tempo

A narrativa começa com Abel, mostra-o acordando com ressaca, e aos poucos apresenta a sua relação com os integrantes do grupo e os seus sentimentos sobre seus familiares. Ele é o único do bando que se interessa profundamente por literatura, um interesse, contudo, que não se constrói de maneira convencional: “Certa vez, caiu-lhe nas mãos um livro trazido por alguém do front. Era um livro russo em escrita russa. Romance. De um escritor desconhecido. Nisso, pôde pensar apenas com horror. Na Rússia vive um desconhecido, conjura personagens, cenas e tragédias com base em nada, fixa-as no papel, um ser transpõe a distância, e ele o tem entre as mãos”. Mesmo mantendo Abel como protagonista, Márai move o seu foco por diversos personagens e por situações imprevistas. Rebeldes possui apenas 221 páginas na edição da Companhia das Letras, mas a leitura parece ser equivalente a de um romance muito mais extenso, devido ao modo com que Márai explora os personagens e suas inter-relações. Mas deve-se dizer que essa variedade tem o seu revés: Márai não é o tipo de autor que mantém a uniformidade do que narra e nem todos os desenvolvimentos são bem-sucedidos. Mas a premissa geral e diversas passagens memoráveis dão sustentação suficiente à obra.

Se a coesão do grupo de Abel baseava-se em sentimentos simples de cumplicidade e de aversão ao mundo, as fissuras internas vão surgir de diversas fontes, todas mostrando como a vida é mais complexa e mais difícil de compreender. Tibor é o primeiro a sentir como a união e a disciplina grupo podem ser massacrantes para a sua individualidade. Mais importante, a suspeita por Abel de que alguém havia adulterado o maço de cartas e estava trapaceando nos jogos muda para uma preocupação de gravidade maior: a existência de um traidor dentro do grupo, capaz de perseguir interesses próprios e de colocar a todos em risco. A própria noção de que eles poderiam viver em um universo particular e secreto é frágil ― eles não estão agindo fora do mundo. Por fim, o fator mais importante é simplesmente o Tempo. O mesmo Tempo que os colocou em uma posição isolada, logo irá jogá-los para dentro do universo adulto. Fica óbvio que Abel, Tibor, Béla e Ernö não são tão diferentes, melhores ou não-manipuláveis do que os “outros”. Rebeldes possui um tom melancólico, e é essa abordagem não condescendente que o faz ser uma generosa narrativa sobre a amizade e as tensões da juventude.



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