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Ganhando meu pão, de Máximo Górki

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De que matéria, afinal, é feita a ficção — Górki parece perguntar — e por que ela o cativa de maneira tão impressionante e, ainda, por que o que é ficcional pode ser tão belo, apropriado, sublime e, por vezes, inapropriado, já que não se cola ao real?

Isa Fonseca - (15/02/2008)

Ganhando meu pão é o título, bastante apropriado, do segundo volume da trilogia autobiográfica de Máximo Górki, pela editora CosacNaify, e tem como tradutor o especialista em literatura russa Boris Schnaiderman. Nesta obra temos a narrativa do autor sobre a sua conturbada adolescência e, neste contexto, um ávido garoto que, após a morte da mãe (descrita no final do primeiro volume, Infância) decide lutar por sua independência — apesar da pouca idade — e sobreviver de maneira mais digna. A prosa segue no mesmo estilo do volume anterior: rica em detalhes (porém nada maçantes), com diálogos o mais das vezes curtos, parágrafos não muito longos e com especial atenção à descrição física e moral dos personagens.

A maneira como o escritor trabalha as características pessoais dos personagens, em suas peculiaridades, os quais povoaram sua infância e adolescência, mereceria um estudo à parte. Além dos parentes mais próximos, que o abrigaram e o exploraram em termos de trabalhos domésticos, encontram-se também os que vêm fazer parte de uma nova etapa de vida: marinheiros, vendedores, freqüentadores de tavernas, artesãos, prostitutas e toda sorte de gente do povo, aventureira — com relatos de viagens que faziam o jovem Górki sonhar com terras distantes —, num universo predominantemente adulto e masculino. E, para a educação literária do rapazinho e do futuro grande escritor e dramaturgo, parece haver ainda uma solução, pois vem a conhecer pessoas que o iniciam na leitura dos livros (seu grande objeto de desejo e que, pela obtenção dos mesmos, faz enormes sacrifícios), o que obriga o adolescente a refletir sobre a questão do real e do imaginário. Assim como sobre a boa e a má literatura. Uma época, portanto, decisiva na formação do gosto literário do escritor.

Influências

Grandes autores, como Gógol, Dostoiévski, Púchkin, Heine, Dickens e Walter Scott, entre outros, assim como autores menores de folhetins [1], estes recheados de histórias romanescas e absurdas, caem nas mãos do autor que, leitor compulsivo, chega a ser hospitalizado, com sérios problemas de vista, devido às leituras noturnas feitas em condições precárias, às escondidas, à luz de velas, após um dia exaustivo de trabalho.

Górki se vê, nessa fase, espremido pelos que o desaconselham a entrar em contato com a literatura — ou seja, a ficção, a futura matéria-prima de seus textos, chegando a desaboná-la: só o que conta é o real, dizem... — e entre os que o incentivam a ler e a se instruir, contrariando a voz massiva dos ignorantes e iletrados que o cercam. Proibido de ler pelos parentes (o que quer que fosse, com exceção do jornal diário, cuja leitura, à noite e em voz alta, era feita para os presentes) e sofrendo ameaça de espancamentos, muitas vezes levada a cabo, o jovenzinho cria manobras incríveis para prosseguir no seu intento de tentar decifrar a questão que vive a atormentá-lo: o que o real e a ficção têm, afinal, em comum?

Há um conflito entre o que o adolescente Górki percebe, na realidade, ao examinar, com a inteligência e sensibilidade de que é dotado, a vida das pessoas ao seu redor (as quais, muitas vezes, são vistas por ele como embrião de futuros personagens) e o que a literatura lhe apresenta. Ele quer a veracidade, a pureza de alma dos homens, livres de contradições — ele quer um casamento entre o que lê e observa, ou seja: ele quer certamente o impossível e isto o intriga.

De que matéria, afinal, é feita a ficção — Górki parece perguntar — e por que ela o cativa de maneira tão impressionante, muitas vezes até mais do que as pessoas em carne e osso com as quais convive (que ele julga covardes, insinceras, maldosas, cheias de malícia e más intenções, sem ética, em sua maioria) e, ainda, por que o que é ficcional pode ser tão belo, apropriado, sublime e, por vezes, inapropriado, já que não se cola ao real? Eis o questionador, aquele que discrimina para melhor configurar a futura formação do caráter de seus personagens marcantes, seja na literatura ou no teatro, e dar-lhes grandiosidade, independentemente de gênero e classe a que pertencem.

Percalços do escritor enquanto jovem

Nesta etapa conturbada de vida, quando muda diversas vezes de moradia e de emprego — trabalha em um navio e em uma oficina de ícones religiosos —, Górki confronta-se com a questão da sexualidade, sempre também atento ao caráter da humanidade, e começa a esboçar seus primeiros escritos, percebendo que se sai bem ao elaborar poemas. Cercado, no trabalho, de adultos mais experientes, o rapazinho curioso, inquiridor dos pormenores da vida dos que lhe são próximos (sempre quer saber mais sobre as aventuras de seus colegas marinheiros, por quais terras os mujiques andaram e o que encontraram, fizeram, assim por diante), parece estar sempre à procura de uma solução para a equação vida/realidade e ficção/fantasia.

Górki quer sempre mais: a rotina dos empregos o aborrece e o entedia — sim, certamente prefere os livros à dura realidade da vida mesquinha dos homens. A mediocridade das pessoas e a conformação destas com suas vidas limitadas, pequenas, pobres de sentido, não lhe passam despercebidas. Mas o garoto está atento às palavras daqueles que o incentivam a mergulhar na leitura, pois, como lhe é dito, os livros podem servir para mudar a vida dos homens — e o futuro escritor começa a crer seriamente nisto.

Se Górki é jovem demais para uma compreensão do que está nas entrelinhas, as sutilezas das leituras que faz, seja na literatura ou nos textos sagrados (pois, entre as pessoas com quem convive, há sempre a presença do homem comum que parece confiar mais na palavra das Escrituras do que nas possibilidades políticas, enquanto mudança do estado das coisas e da vida precária que levam — o que o influencia e o deixa confuso enquanto melhor ação, para o cidadão russo), ainda assim é sagaz o suficiente para já separar o joio do trigo e, com isto, consolidar seu caráter e certas preferências temáticas para o seu trabalho como futuro escritor.

A complexidade narrativa não se faz presente, assim como em Infância, neste segundo volume da trilogia — o que não implica um texto sem brilhantismo, muito pelo contrário, pois as reflexões do adolescente Górki sobre a vida são, sim, intrincadas e de teor filosófico, social (dentro das possibilidades de sua tenra idade) e o leitor seguramente se deixará cativar pelas lembranças deste período, em Ganhando meu pão. E é justamente nesta obra, diferentemente da primeira, que podemos perceber um certo distanciamento do autor que, ao evocar tais lembranças, chega a comentá-las, mas sem julgá-las de maneira acintosa, pois, então adulto e escritor célebre, é com a visão mais alargada e crítica que transpõe o vivido para a literatura.

E a vivência de Górki, neste período, não é menos cheia de percalços e amarga do que aquela relatada em Infância: ele presencia a degradação da avó, que começa a mendigar, recebe o desprezo do avô, ao encontrá-lo certa vez ao acaso, e terá de conviver novamente com o padrasto, uma figura que julgava execrada, fora de sua vida com a morte da mãe, o qual também terá, no entanto, a oportunidade de lhe revelar uma outra face. Terá parentes como patrões, o que o deixará confuso sobre a questão do seu papel na família, mas, em contrapartida, conhecerá pessoas na vizinhança e no trabalho — ainda que de natureza rude — que o apoiarão em sua obsessão pela leitura e o eterno filosofar sobre a verdadeira índole do homem russo.

É com certo rancor, e tomado de um certo orgulho quanto ao amor-próprio, que o autor examina, muitas vezes, o duro período vivido naqueles verdes anos, sobrecarregado pela dupla jornada de trabalho (em casa, fazendo todo o tipo de afazeres domésticos, e fora dela) e tendo que enfrentar os comentários contrários ao seu temperamento e ao seu gosto pela leitura e brincadeiras: "(...) foi somente graças a algum acaso que não sucumbi ao esforço, morrendo ou ficando deformado para o resto da vida. (...) E se, por fim, apesar de tudo, eu me deitar na terra deformado, direi, não sem orgulho, em minha hora derradeira, que a boa gente afanou-se seriamente uns quarenta anos em deformar as minha alma, mas que o seu trabalho teimoso não foi de todo bem-sucedido" [2].

No próximo texto enfocaremos a obra que fecha a trilogia, denominada Minhas universidades e que dá seqüência ao relato de Ganhando meu pão; no final deste, Górki coloca que decide, finalmente, diferenciar-se do homem russo comum — levado certamente pela ânsia de completar os estudos e pelo amor à literatura —, cursando uma universidade. Para tanto, aos dezesseis anos, terá que deixar o convívio dos seus e a terra natal, expandindo seus horizontes, e tentará realizar, assim, um dos seus mais íntimos desejos.

Mais:

Veja a 1ª parte deste artigo



[1] Boris Schnaiderman chama a atenção, em seu prefácio, para o lubók (também apreciado por Górki, mesmo futuramente, como autor consagrado), "que tem muita semelhança com nossa ’literatura de cordel’" (pág. 11).

[2] Ganhando meu pão, de Máximo Górki, Editora CosacNaify; 2007 - pág. 335.

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