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POLÍTICAS ESQUIZOTRANS

Em busca do que é trans

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Esta coluna quer percorrer o poder subversivo do desejo de irromper as ruas com o corpo errado, com a roupa errada, com o gesto errado, com a velocidade errada. Ali há desejos de romper amarras, de balançar os fascismos estabelecidos, há desejo mais forte do que a disciplina e o controle

Fabiane Borges, Hilan Bensusan - (29/02/2008)

Eu expliquei para o doutor Grinder, com a voz que eu uso para explicar como fazer para que o mingau de maizena não fique embolotado:

— Meu distúrbio de identidade de gênero? É que eu não consigo ser nem só homem e nem só mulher, qualquer um parece pouco. Não parece razão suficiente para uma dysphoria?

Para alguém que sempre quis ser uma super-heroína, ser a femme fatale, ou ser o amante de todas as femmes fatales, ou de todas as velhas que ainda ardem de vontade, e os estranhos de sexualidade duvidosa, e também estar com os homens indiscriminados — eu queria ser tudo isso, tudo. Parecia que para alguém como eu, que sempre quis ser poderosa e preparado, era evidente que qualquer das duas opções sexuais postas no mercado era pouco, pouco demais. Assim como eu levantava alterado todos os dias e passava duas horas tentando fazer meu tornozelo se acostumar com as sapatilhas de ponta, eu queria minha genitália com tudo o que eu decidira na tora que eu tenho direito — e mais peitos e tira peitos e pierce nos peitos e nos glúteos – e o doutor Grinder era quem botava barreiras entre meu desejo de ter o corpo que eu precisava para viver a minha vida e a cirurgia:

— Bi, ele falou, você já experimentou ser uma pessoa bissexual?

— Uma mulher bissexual? Uma mulher bissexual é uma mulher, não é?

Eu nasci com os trejeitos de heroína incontida, anatomia é destino e no meu destino quem manda, bem, sou eu mesma e não tem pra ninguém. Eu e o bisturi do doutor Grinder; eu disse: não é sobre o que eu faço, é sobre o que eu sou e eu não tenho medo do perigo e nem da angústia de ultra-ser um corpo envaginado, de sobre-ser um corpo com tromba, quero me enfiar e ser enfiado. Quero poder ser bicha, poder ser toda lésbica e passar noites lambendo e esfregando tratando meu pinto ereto como se fosse um clitóris e com meus dois sexos passar anos no celibato se eu quizer e sem espelhos. Quero uma genitália com direito a tudo e esta volúpia merece encontrar a faca.

— Você não acha que está querendo demais?

Agora ele ficava fominha, meu desejo é muito pra faca dele? Meu desejo ele não dá conta, o bisturi dele broxa com tanto tesão de "dar" uma "enfiada"!! O que fazer? Procurar um mago polonês cavalgando pelo Atacama com os trechos mais judaicos da bíblia no dorso e uma matula com tâmaras secas e um bisturi de condão?

O mercado suga a força dos desejos. O poder subversivo do desejo trans é o poder de escapar da ordem estabelecida e invoca a força daquilo que rompe. Política, política, política

* * *

Riki Wilchins (em Birth of the Homosexual, em Read My Lips) imagina uma pessoa de nariz grande querendo uma cirurgia para diminuir o nariz. O médico pergunta por que: eu sempre me senti uma pessoa de nariz pequeno aprisionada no corpo de uma pessoa de nariz grande. O médico não pode fazer a cirurgia enquanto não tiver um diagnóstico de um psiquiatra que ateste que aquela é, apesar das aparências, uma pessoa de nariz grande. A política dos corpos é a política da viabilidade da vida – da aceitabilidade de certas formas de vida. Muitas vezes a política dos corpos é pensada em termos de identidades: corpos implicam identidades, genitálias implicam identidades sexuais (melanina implica identidades raciais etc.). As identidades permitem um reticulado de nós contra eles. Promovem a política das torcidas, a política das filiações: agir em nome de um grupo que é demarcado mais ou menos antes de qualquer política. Identidades são uma forma de política entre muitas: uma forma de biopolítica, uma forma de manejo de corpos, uma forma de controle de sexualidades.

Esta coluna gira em torno de políticas da sexualidade e da sexualidade das políticas. Aqui surgem discussões sobre intersexo e toda a interface entre o pessoal, o biológico e o político. Nos interessa o que é trans: transgressor, transexual, transformista, transitório, transviado, excessivo. Aqui aparecerão feminismos, gêneros, diferenças sexuais, troca de órgãos, troca de corpos, troca de desejos. Transformações, cirurgias, esculturas hormonais — e o confinamento dos desejos pela medicalização, pela precarização que bloqueia os excessos, pelo medo. Os desejos pertencem à ordem dos contatos, dos contágios, das contingências que perpassam os corpos — cada poro de cada corpo está em disputa. Políticas as células, políticos os hormônios, políticas as dobras, políticos os neurônios. O que constitui um órgão sexual? Não acreditamos mais no esgoto a céu aberto que separa a alma da genitália. Queremos imaginar uma genitália sem órgãos, uma genitália que, como quis a Alex, do filme XXY, não precisa decidir: não precisa ser submetida aos contornos de nenhum órgão pré-imaginado. Nesse espaço surgem as distopias, as utopias e as heterotopias das constituições sexuais: os paus lésbicos, os prazeres minúsculos, as bucetas contrácteis, as máquinas de fazer orgasmo. Esbarramos com cyborgues, com mutantes, com nomadismos sexuais, as Dasputas e outras que fazem valer o zarô, cada centavo do eqüe. Não estamos à procura de novas identidades – queremos o esquizo que fica posto em baixo do tapete de todas as formas de sexo. Nos interessam as identidades que surgem: nem aquelas que se mantêm e nem aquelas que se corróem. A política dos corpos está contaminada de devires: aquilo que ainda não é, mas desponta, aquilo que coabita no emaranhado ecológico que forma os desejos, aquilo que pode vir a ser – a potência empapuçada de ato. Corpos podem ser usados, interferidos, operados, simulados, desviados. E só quando encontramos órgãos é que a anatomia é destino.

Esta coluna quer percorrer o poder subversivo do desejo de irromper as ruas com o corpo errado, com a roupa errada, com o gesto errado, com a velocidade errada. Ali há desejos de romper amarras, de balançar os fascismos estabelecidos, há desejo mais forte do que a disciplina e o controle – é a força da singularização que escapa das matrizes de inteligibilidade, das expectativas das interpretações e dos cálculos de qualquer mercado. E se liga! É um instante. O poder subversivo do desejo trans é o poder de escapar da ordem estabelecida e invoca a força daquilo que rompe. Política, política, política. O mercado suga a força dos desejos, cria um perfil do consumidor – que é sua matriz de inteligibilidade. Sem a matriz não há ordem, não há expectativa. A matriz é a política: dela sai a heterosexualidade compulsória, a vontade de família e propriedade (não necessariamente nessa ordem) e a binaridade dos sexos.

Anne Fausto-Sterling (The five sexes) já famosamente diagnosticava: pelo menos cinco sexos, três dos quais jogados no limbo da cirurgia de normalização. Tem uns que evocam eleven. É a força dos desejos que move as brechas nas matrizes – não há subversão sem desejo. Nesta coluna não há obsessões com porcas e parafusos fixos, pois nem somos feitas de aço inoxidável e nem de desejos curáveis. Esquizo. O esquizo escapa. Que tal eu virar Elke Maravilha e depois Barack Obama e depois Herculine Barbin e depois Max Ernst com formas de Carla Peres antes de você terminar de gozar? Não aceitamos a tirania das monoidentidades e queremos passar a portar mais de um equipamento sexual, seremos portadores de mais de uma fissura retroativa em mutação, portadores de mais de uma carteira de identidade – uma para cada órgão do corpo que formos inventando. Que é de lixo que somos feitos; no lixo da ordem estabelecida está aquilo que irrompe contra ela – queremos ser pinto no lixo, reciclados em cotovelo, tornozelo virado da mãe do avesso, toda provisória. Ciclados, reciclados, metareciclados, transreciclados, ciclosexuais. Inventar as sexualidades que nem existem. No meio do mercado, ah, ele que corra ou nos socorra!

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Catarina Sá


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