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Moça de vermelho sabe morrer

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Manoel Fernandes Neto - (22/02/2008)

É nova a sensação de acordar feito suspeito. Como cão vadio e sarnento, apesar de saber que possuo conta no banco, cartão. Créditos sob códigos. Gerente de plantão. Secretária gostosa e mentirosa me oferecendo cafezinho: “O senhor já tomou? Está fresquinho”.

O néon da rua já apagou, mas ainda o tenho na íris. Tem colchão de palha, armário vazio, recepcionista desdentado e sonolento: descarado de beco. Tem privada com cheiro de urina e desejo, lençol com marcas de amores infiéis e gozos remunerados. Tem o detalhe. Barulho no corredor. Conversa entre homem e mulher. Só eu percebo o fino golpe de navalha no pescoço dela, que usa colar de pérolas e vestido vermelho. Naquele antro, só eu poderia descrever ao inspetor do caso, detalhe por detalhe, o rosto do assassino. Da cicatriz do lado esquerdo da face ao dente de ouro.

Essa idéia de passar a noite nesse hotel de quinta categoria causou certo estremecimento entre eu e meu agente. Acha que sou louco. Fala de riscos que não se deve correr. Ignora que busco matéria-prima para roteiros de televisão. Admito o exagero. Nesse, além da palha do colchão, pia gosmenta no canto do quarto. Banheiro, só no final do corredor, bem perto do local onde ocorreu o crime da noite passada. Aliás, o inspetor do caso não pára de fazer perguntas. O recepcionista, já desperto e ativo, não sabe mais o que não dizer. Só eu acredito nele.

Os peritos são convincentes. Descobriram que ela ficou sem a roupa antes do crime, o que eu já sabia. Como? Elementar, diria outro escritor não tão talentoso: o sangue do fino corte da navalha escorreu mansamente por seios e ventre. O assassino, tão cuidadoso e higiênico, evitou sujar o modelito vermelho com o plasma a caminho da coagulação.

Meu agente acha que a minha guinada literária vai me levar à falência. Ficou indignado quando aceitei fazer esses roteiros policiais. Meu agente é conservador, tradicional. Prefere que eu escreva novelas líricas, românticas. Esotéricas. Ele diz que é moda falar em magia. Que eu vou cansar de vender livros. Agora, histórias policiais parecem clichê batido demais. Meu agente é da opinião que todas as boas idéias são velhos clichês com novas tintas e duvida que eu possa descobrir, nesse mal cheiroso lugar, novos argumentos.

Mas a perícia concluiu que certas escoriações na vítima foram feitas após o esfriamento do corpo. Necropsia inicial indica que houve cópula com o cadáver. Nada mal para um escritor que busca inspiração: crime, psicopata, inspetor-geral. Marcas de sangue. Colar de pérolas, averiguação. Vestido de baile, impressões. Especulações.

O inspetor bate à minha porta. É grande. Metro e noventa. Faces gregas. Quer saber se ouvi. Minto, mas poderia dizer que não houve palavrões, ofensas. E que o grito fatal foi tão baixo que não existiu. Engano o inspetor de cara quadrada, mas poderia contar que foi ela quem se despiu do vestido vermelho, e sua nudez iluminou o corredor. Brisa que resvalou nos pêlos pubianos da morta e espalhou cheiro adocicado de sangue e tesão por todo o hotel. Enrolo o inspetor, mas poderia revelar que a violação foi doce. Quase um lamento. Lenta como a despedida.

Meu agente acha que todas essas histórias policiais são iguais. O crime é imprescindível. O assassino é procurado implacavelmente por todas as linhas. O policial está sempre atento a todas as pistas e falsos indícios. Segundo o meu agente, o que diferencia as histórias são as características de cada personagem, o desenrolar da trama, os aspectos psicológicos do crime e a revelação do nome do culpado. Enfim, meu agente diz que é muito mais fácil escrever um livro de auto-ajuda. Inventar a solução de algum problema e editá-la com capa colorida e lançamento na televisão.

Foi na visita do inspetor, quando a porta do quarto se abriu, que vi o desenho no chão. Cabelos esparramados. Pernas e braços abertos. Contornaram o corpo frio com giz e eu ainda admirava o seu sorriso de prazer, seu novo colar de sangue. Sem se convencer, o inspetor deixa meu quarto. Pede meu telefone para futuros contatos. Dou o do meu agente.

Toda mulher que veste vestido vermelho tem maior probabilidade de ser assassinada. O fato não tem explicação, mas alguém que usa cor-de-rosa, por exemplo, jamais teria o pescoço cortado em um hotel de quinta categoria. Não me perguntem o porquê, mas a existência do dente de ouro e da cicatriz na face do assassino só mostra sua vida violenta e de ostentações. Jamais alguém lampinho e angelical seria capaz de ato semelhante. São esses os pontos em que o meu agente insiste. Não conseguimos ter idéia nova para história policial, nem mesmo quando lembro que a violação e a morte ocorreram ao mesmo tempo. Enquanto a navalha propunha o tenro, singelo e profundo corte, o membro cravava na carne a faca da mesma sorte, algo quase imperceptível, insignificante e diminuto aos olhos do meu agente, do inspetor e seus assistentes.

Os suspeitos são poucos. O recepcionista do hotel é quase unanimidade dentro do caso. Pessoalmente, sou da opinião de que alguém jamais cometeria crime em local de trabalho, mesmo havendo situações que sugiram tal solução. Mas o recepcionista é pessoa humilde, não articulada, quase comum. Já teve vontade de ter dentes de ouro, mas não os tem. Sua única cicatriz é na virilha. Dentada de garoto de programa. Fato insignificante quando a preferência sexual do nosso suspeito não nos interessa, pelo menos nesta parte do processo.

Não podemos descartar também outra vítima de nossa suspeição. Temos que concordar que meu agente poderia ter preparado presente para seu principal escritor. Possuidor de contrato onde reza que vinte por cento de tudo o que eu ganho vai para sua conta bancária, meu agente jamais sai perdendo. Claro que ele não tem cicatriz na face nem dente de ouro, mas isso é um detalhe que qualquer maquiagem desenharia. Todavia, riscar o pescoço com navalha na mesma hora do gozo não faz parte da conduta profissional do meu agente. Pelo menos, aparentemente.

Já que estamos falando em possíveis indiciados, e é difícil não crer que este curioso escritor seja apontado como o último integrante da lista, assumo: sou suspeito. O mais completo deles. Sei a cara do assassino e o gosto do sexo do cadáver. Conheci o cheiro de sangue e a brisa da hora do crime. Sou o mais forte candidato a psicopata. Buscava argumento policial e teria razões para ter cometido o homicídio. Conhecer, de fato, a expressão do deleite e da morte. Contudo, onde está a originalidade em um escritor cometer crimes, inventar cadáveres, descrever o prazer profano da crueldade? Ele é homicida nato, suspeito definitivo.

Digo mais. Foi ela quem implorou a morte. Rogou que a estocada final viesse em ferro quente e definitivo. Clamou para que o frio corte da navalha fosse lento e preguiçoso. Invocou aos deuses para que não houvesse clemência. Postulou, sobre a poça de sangue, o papel de vítima.

Quando o inspetor do caso se retirou, caminhei até a lasca de espelho pendurado sobre a pia gosmenta e refleti meu rosto. Se quisesse, veria a cicatriz do lado esquerdo da face e se o sorriso se insinuasse poderia ver dente de ouro. Ajeitei meu cabelo, arrumei o nó da gravata, vesti o sobretudo. Se eu procurasse, talvez poderia encontrar algumas manchas de sangue ou camisa rasgada sob as unhas da morta.

Na recepção, penso em arriscar pergunta ao recepcionista. Saber como anda o caso, especular sobre as novas pistas, tentar descobrir quem era a moça de vestido vermelho. Na rua, já bem movimentada pelo dia que se inicia, atravesso entre carros e leiteiros apressados. Tenho reunião às dez com meu agente. Enfim, devo concordar com ele. Essa minha idéia de buscar inspiração em tais lugares só me traz enxaqueca e um mal humor peculiar. Meu agente diria que todos os escritores são iguais, como os contos policiais.



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