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CULTURA PERIFÉRICA

No mundo da cultura, o centro está em toda parte

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Estamos dispostos a discutir a cultura dos subúrbios; indagar se ela, além de afirmação política, está produzindo inovações estéticas. Mas não aceitamos fazê-lo a partir de uma visão hierarquizada de cultura: popular-erudita, alta-baixa. Alguns espetáculos em cartaz ajudam a abrir o bom debate

Eleilson Leite - (23/02/2008)

Tenho abordado aqui os eventos e a produção artística dos que moram nas bordas da metrópole paulistana. Mas nunca me referi a esses artistas como famélicos, excluídos, abandonados ou qualquer adjetivo semelhante. Trato da cultura de periferia por entender que há uma arte sendo produzida nos becos e vielas. Pela densidade, originalidade e contundência, há sinais de que um movimento está surgindo. Grifo: a partir da periferia. Ou seja, não está restrito a uma área geográfica ou a um segmento social. A cultura é algo muito avesso à fronteiras. Mas a matriz está lá do outro lado da ponte, como falam os poetas da Cooperifa. E isso não pode ser negado. Tem que ser afirmado.

Passados mais de dez anos do surgimento do disco Sobrevivendo no Inferno, do Racionais MC’s e do livro Cidade de Deus, do Paulo Lins, marcos de uma arte gestada e parida nos arrabaldes, muitas outras obras, em todas as linguagens artísticas, surgiram para confirmar que uma arte renovadora pulsa no gueto. Nem vou citar exemplos. São inúmeros. Está aí a Agenda Cultural da Periferia, que chegará a sua décima edição em março, apresentando cerca de 80 eventos na Região Metropolitana de São Paulo. Hoje, a questão que se coloca já não é só a visibilidade de uma arte que não tem vez na grande mídia.

Precisamos discutir também que arte é essa que se faz nas periferias. Será que sua originalidade se resume ao fato de ser produzida por um segmento da população tido como pouco letrado, “excluído”? Será que é pelo inusitado? Será que do ponto de vista conceitual ela não se fundamenta? Ouvi do professor André Bueno (UFRJ) uma argumentação, segundo o qual não faria sentido uma cultura de periferia. Ele formulou sua opinião baseado no seguinte relato. Certa vez, uma pesquisadora alemã visitou os morros cariocas. Entrou numa dessas ONGs que atuam nas favelas durante uma aula de música clássica. Encantou-se com a música tocada por um garoto e perguntou quem era o autor de tão bela composição. O menino, surpreso, lhe respondeu: “É Mozart, minha senhora”. O professor deduziu, a partir desta situação, que os mundos se cruzam, dialogam, etc, e que falar de uma cultura de periferia é restritivo e afirma o gueto.

Mas a cultura de periferia é um movimento de afirmação mesmo. Afirmação positiva, altiva do gueto. Mas essa é apenas a justificativa política. Temos que aprofundar a reflexão. Será que esse movimento está produzindo de fato uma estética nova? Nesse sentido, a provocação do professor André Bueno é oportuna.

Heloísa Buarque de Holanda espantou-se com Ferréz: se tem interesse em Flaubert é porque "quer ter acesso à alta cultura". Quer dizer, então, que Ferréz é "baixa cultura"?

Mas penso que a universidade tem ajudado pouco nessa reflexão. E certos intelectuais de esquerda acabam piorando a situação. O escritor Ariano Suassuna também reclama dos acadêmicos (embora também o seja). Ele é freqüentemente alvo de críticas de intelectuais que também vêem o Movimento Armorial, que criou há mais de 30 anos, como a “afirmação do arcaico”. Mesmo uma acadêmica como a Heloisa Buarque de Holanda, que além de professora universitária no Rio é também editora [1] e uma entusiasta a da arte de periferia, comete seus equívocos na análise dessa cultura. Em recente entrevista a um programa de TV, Heloisa mostrou-se surpresa ao saber que o escritor Ferréz teria dito que queria ler Flaubert. “Veja, ele quer ter direito à alta cultura”, concluiu a professora. Quer dizer que a literatura feita pelo Ferréz é “baixa cultura”? Bom, confesso que achei até estranho o autor de Capão Pecado ter demonstrado interesse pelo autor de Madame Bovary. Mas tenho certeza de que o Ferréz não considera sua literatura menor do que a do Flaubert.

O pior caminho para se discutir cultura é hierarquizando: alta-baixa; popular-erudito. Essa visão reforça o sistema de dominação. E aí se afirma o gosto da elite. Ora, é melhor, então, afirmar o gueto do que os palácios.

Existem culturas e culturas. Nenhuma é mais do que a outra. Quando falamos arte da periferia, não está aí embutido um juízo de valor. Na periferia são ruins o asfalto, o esgoto, a escola, o transporte, a violência — embora esses problemas não sejam generalizados por todo o subúrbio. Mas a cultura, mesmo feita no fundo do quintal do barraco, pode ser bela, virtuosa, arrojada, elegante, arrebatadora ou qualquer outro adjetivo atribuído normalmente à produção das elites. O fato é que, por uma série de fatores, a arte produzida nas periferias é portadora de novos conteúdos, de uma estética diferenciada. Já é possível observar isso. O que ainda não dá, ou pelo menos não se tem notícia de quem o fez, é formular um pensamento sobre essa novidade. Para isso, é preciso primeiro difundir e fomentar essa produção artística, como já está acontecendo — inclusive com o impulso de importantes políticas públicas.

Certamente, Cantos Negreiros, Hospital da Gente, o Sarau do Rap ou a Orquestra de Berimbau do Morro do Querosene apontarão elementos para pensar uma arte da periferia

Não dá mais para falar da arte da periferia só como fenômeno social. O momento é de fazer experimentações, aproximações com outras linguagens e movimentos. Nessa trilha, o espetáculo de Marcelino Freire, Cantos Negreiros, em cartaz neste final de semana na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, em Pinheiros, é uma boa iniciativa. O escritor divide o palco com a sambista Fabiana Coza e convida para cada apresentação um poeta. Nesta sexta estará lá o Sergio Vaz, da Cooperifa. Outro espetáculo fundamental é Hospital da Gente que estréia neste sábado e segue em temporada. Trata-se de uma peça de teatro só com mulheres, montada pelo Grupo Clariô. O cenário é uma casa num bairro da periferia do Taboão da Serra. Nesta casa, com capacidade para apenas 25 pessoas, as atrizes encenam uma dramaturgia baseada em contos também do Marcelino Freire (o cara tem moral na quebrada). Certamente, esta montagem vai apontar muitos elementos para pensarmos uma arte própria da periferia.

Outros eventos e espetáculos são também muito representativos para análise da estética periférica. O Sarau do Rap, realizado todas as últimas quintas feiras do mês, na Ação Educativa, é outro exemplo. Sem música, os rappers declamam suas letras e observam sua construção poética. Essas composições serão posteriormente publicadas em livro. Poderemos notar o impacto de uma poesia feita para ser cantada, estampada nas páginas de um livro, para se lida. O show do DJ Erry-G Dos tambores aos Toca-Discos, realizado no domingo passado, sobre o qual decorri na coluna anterior, ao relacionar o scratch com a batida dos tambores africanos está propondo uma abordagem muito interessante. A Orquestra de Berimbau do Morro do Querosene, regida pelo percursionista Dinho Nascimento, e que se apresenta neste domingo no Sesc Ipiranga, é mais um espetáculo que oferece muitos elementos pra discutir a arte de periferia.

Vamos juntar esse povo, debater processo de criação, referências e conexões naquela piração agradável e estimulante que é a discussão sobre arte entre os artistas. É necessário também dialogar com a universidade. Reunir-se numa mesa com os intelectuais, levantar hipóteses num debate despojado de pré-conceitos. E temos vários artistas periféricos que são intelectuais, com graduação e pós-graduação. Mas alguns dos grandes mestres não sentaram em cadeiras universitárias. A eles daremos o título de “Doutor Honoris Causa” e ocuparão o centro da mesa. Por sinal, na Praça do Relógio, no campus da USP, há uma inscrição junto da torre do relógio que diz assim: “No universo da cultura, o centro está em toda parte”. Não sei quem é o autor desta excelente definição, mas ela nos ajuda a compreender a cultura. É preciso afirmar a cultura de periferia não porque ela seja menor, distante ou esquecida. É preciso afirmá-la porque ela é centro também.

Mais:

Agenda Cultural da Periferia: Para baixar (formato pdf), clique aqui

Eleilson Leite é colunista do Caderno Brasil de Le Monde Diplomatique. Edições anteriores da coluna:

Do tambor ao toca-discos
No momento de maior prestígio dos DJs, evento hip-hop comandado por Erry-G resgata o elo entre as pick-ups, a batida Dub da Jamaica e a percussão africana. Apresentação ressalta importância dos discos de vinil e a luta para manter única fábrica brasileira que os produz

Pirapora, onde pulsa o samba paulista
Aqui, romeiros e sambistas, devotos e profanos lançaram sementes para o carnaval de rua, num fenômeno que entusiasmou Mário de Andrade. Aqui, o samba dos mestres (como Osvaldinho da Cuíca) vibra, e animará quatro dias de folia. Aqui, a 45 minutos do centro da metrópole

São Paulo, 454: a periferia toma conta
Em vez de voltar ao Mercadão, conheça este ano, na festa da cidade, Espaço Maloca, Biblioteca Suburbano Convicto, Buteco do Timaia. Delicie-se no Panelafro, Saboeiro, Bar do Binho. Ignorada pela mídia, a parte de Sampa onde estão 63% dos habitantes é um mundo cultural rico, diverso e vibrante

2007: a profecia se fez como previsto
Há uma década, os Racionais lançavam Sobrevivendo no Inferno, seu CD-Manifesto. O rap vale mais que uma metralhadora. Os quatro pretos periféricos demarcaram um território, mostrando que as quebradas são capazes de inverter o jogo, e o ácido da poesia pode corroer o sistema

No meio de uma gente tão modesta
Milhares de pessoas reúnem-se todas as semanas nas quebradas, em torno das rodas de samba. Filho da dor, mas pai do prazer, o ritmo é o manto simbólico que anima as comunidades a valorizar o que são, multiplica pertencimentos e sugere ser livre como uma pipa nos céus da perifa

A dor e a delícia de ser negro
Dia da Consciência Negra desencadeia, em São Paulo, semana completa de manifestações artísticas. Nosso roteiro destaca parte da programação, que se repete em muitas outras cidades e volta a realçar emergência, diversidade e brilho da cultura periférica

Onde mora a poesia
Invariavelmente realizados em botecos, os saraus da periferia são despojados de requintes. Mas são muito rigorosos quanto aos rituais de pertencimento e ao acolhimento. Enganam-se aqueles que vêem esses encontros como algo furtivo e desprovido de rigores

O biscoito fino das quebradas
Semana de Arte Moderna da Periferia começa dia 4/11, em São Paulo. Programa desmente estereótipos que reduzem favela a violência, e revela produção cultural refinada, não-panfletária, capaz questionar a injustiça com a arma aguda da criação

A arte que liberta não pode vir da mão que escraviza
Vem aí Semana de Arte Moderna da Periferia. Iniciativa recupera radicalidade de 1922 e da Tropicália, mas afirma, além disso, Brasil que já não se espelha nas elites, nem aceita ser subalterno a elas. Diplô abre coluna quinzenal sobre cultura periférica



[1] Ela é proprietária da Editora Aeroplano do Rio de Janeiro e coordena uma importante coleção chamada Tramas Urbanas, na qual intelectuais da periferia analisam a cultura por eles produzida.

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