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CUBA

Depois de Fidel, o quê?

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Afastamento do "comandante" abrirá, sem dúvidas, debate sobre futuro da revolução. A novidade é que as grandes mudanças no cenário internacional amenizaram a polarização de há alguns anos. E surgiu, alimentada pelo giro à esquerda da América Latina, uma instigante alternativa

Antonio Martins - (23/02/2008)

Consumado o afastamento de Fidel Castro em Cuba, as especulações da mídia voltam-se para a escolha de seu sucessor. Aposta-se, no momento, que a Assembléia Nacional, reunida no próximo domingo, confirmará o "histórico" Raul Castro presidente, mas apontará o "renovador" Carlos Laje como vice. Falta um debate mais profundo. Que significaria, para Cuba, a "renovação"?

Ajudam a sondar o futuro dois textos publicados por Le Monde Diplomatique Brasil em junho do ano passado. Carlos Gabetta, editor do jornal na Argentina, escreve sobre as "promessas e misérias do ’socialismo real’" (do qual Fidel é, certamente, um dos últimos símbolos vivos) e sobre a necessidade de formular um novo projeto emancipatório. O repórter Pablo Stefanoni, descreve Cuba antes da transição — e especula sobre suas perspectivas futuras. As grandes dificuldades que marcaram os anos 90, conta ele, ficaram para trás. Os apagões elétricos são mais raros, a comida é menos exígua. O PIB, que despencou 35% nos quatro primeiros anos após o fim da União Soviética, tem crescido agora a taxas em torno de 7% ao ano. O suprimento de petróleo é assegurado pela Venezuela e a valorização mundial dos produtos primários (como o níquel, que Cuba produz em abundância) elevou as receitas de exportação.

Não é nada que autorize a falar num período de prosperidade ou conforto. A produção industrial é risível; o sistema de planejamento central burocrático inibe iniciativas, o que resulta em quase nenhuma variedade alimentar e em dificuldades constantes de abastecimento de produtos básicos.

Mas a novidade mais original vem agora: o declínio da força ideológica do neoliberalismo também abriu o leque das alternativas políticas para o futuro. Há alguns anos, vislumbravam-se apenas duas opções. Após Fidel, o Partido Comunista tentaria preservar o regime, aceitando o mínimo de mudanças. Já os EUA, aproveitando-se da ausência do líder carismático, tentariam promover a volta ao capitalismo clássico, incentivando revoltas populares desestabilizadoras. Agora, as variáveis são outras.

Embora permaneça, a hipótese de desestabilização vinda de Washington está visivelmente enfraquecida. Iraque e Afeganistão expõem, todos os dias, os limites do poder militar, diplomático e de inteligência dos Estados Unidos. As primárias para as eleições à Presidência revelam o esgotamento, ao menos momentâneo, da postura arrogante e agressiva que marcou o governo Bush. O declínio do dólar e os sinais de fragilidade financeira norte-americana embaçam o brilho das luzes capitalistas que cintilam desde Miami.

Declínio da "opção Miami", que não cintila como antes. O "desenvolvimento" da China seduz setores do PC. Haverá espaço para uma nova democracia, que se insinuou na revolução dos e-mails?

Do ponto de vista do regime, a manutenção do centralismo burocrático está perdendo terreno. Stefanoni aponta elementos muito concretos de construção de uma alternativa "à chinesa". Nesta hipótese, o PC procuraria manter o poder político, mas estimularia o surgimento de um setor capitalista privado, e mesmo a entrada mais intensa de investidores estrangeiros, procurando uma aliança com ambos. Os sinais apontando para isso são: o conhecido aumento da desigualdade (o sistema de duas moedas, que garante enormes privilégios a quem tem acesso a divisas estrangeiras parece eternizar-se; e a emergência de uma elite de administradores com visão empresarial clássica. Muitas vezes ligados às Forças Armadas, eles têm sido crescentemente encarregados encarregados de setores-chaves da economia (turismo, tabaco, açúcar, comércio externo, telecomunicações). Formados muitas vezes em escolas européias, seu modelo de gestão já não é o do velho socialismo (garantia de emprego, salários relativamente nivelados, obediência ao plano estatal), mas a busca de resultados e expansão.

Depois de quarenta anos de revolução, Cuba estaria, então, condenada a escolher entre o capitalismo de mercado e o do partido? Stefanoni acredita que não. Ele enxerga um terceiro elemento: o entusiasmo com os governos de esquerda da América Latina e os primeiros sinais de que a sociedade começa a pensar (e agir) politicamente sem esperar pelo PC.

Exemplo clássico dessa busca de autonomia é a revolução dos emails, que se deu em janeiro de 2007. Diante da aparição prestigiada, na TV oficial, de dirigentes políticos responsáveis pela perseguição aos homossexuais e pela imposição do realismo socialista, no início dos anos 1970, desencadeou-se uma chuva de críticas. Foram iniciadas por intelectuais conhecidos pela defesa da revolução e, rapidamente, tomaram conta da internet. A iniciativa resultou na demissão do secretário-geral da União de Escritores e Artistas (Uneac) e na convocação de um congresso da entidade, que vinha sendo seguidamente adiado.

Ouvida por Stefanoni, a física e escritora cubana Célia Hart — uma espécie de dissidente tolerada — ironiza a possível opção "chinesa": "Os índices de mortalidade infantil em Cuba bloqueada são mais baixos que na China. O modelo chinês baseia-se na super-exploração do trabalho. O grande papel de experiências inovadoras, como a venezuelana ou a boliviana, é mostrar que há outros caminhos, com participação popular", diz ela. Não é, certamente, uma opinião majoritária. Mas as dúvidas sobre o futuro parecem fazer refletir também velhos líderes do regime, como Ricardo Alarcón, presidente da Assembléia Nacional do Poder Popular (o raquítico Legislativo cubano). "As reformas que o companheiro Deng Xiaoping fez na China são muito positivas para o povo chinês", disse ele numa entrevista recente ao jornal argentino Clarín. Mas ressalvou: "Elas têm de ser entendidas no contexto da revolução chinesa. Nossas características são diferentes".

Mais:

- > 14 artigos sobre Cuba, em Le Monde Diplomatique.



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