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LITERATURA

Minhas universidades, de Górki

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Para Górki, o bravo homem russo é aquele que vive plenamente o real, que coloca a mão na massa, e que o intelectual nada mais faz que concluir o que, em realidade, o homem que vive plenamente o real já concluiu, passando por dissabores e fazendo, ele mesmo, a História.

Isa Fonseca - (29/02/2008)

Górki encerra, finalmente, a sua trilogia autobiográfica, com o volume denominado Minhas universidades (Editora CosacNaify), precedido por Ganhando meu pão e Infância, ambos comentados aqui, anteriormente [1]. É preciso dizer que estas duas obras são, literariamente falando, infinitamente superiores à terceira. O vigor, a riqueza de detalhes nas descrições das personagens, assim como o inusitado dos acontecimentos não se fazem de todo presentes em Minhas universidades. No entanto, é nesta que o escritor mais cria um distanciamento, dirigindo-se diretamente ao leitor, ao confrontar passado e presente. Ao relatar suas memórias, sempre travestidas de ficção, o escritor prossegue transformando aqueles que o cercaram em verdadeiros personagens, muito bem caracterizados, cujos comportamentos e diálogos — plenos de minúcias (embora sempre sintéticos, como nos volumes já citados) — deixam um sabor de histórias bem contadas.

Assim como nas obras anteriores, Górki narra a sua trajetória cheia de tropeços em direção ao seu mais forte desejo, ainda mais vivo neste Minhas universidades, que é o de ler o maior número possível de bons livros e, com isto — podemos ler nas entrelinhas —, tentar entender a condição humana em todas as suas contradições e, ainda, com este material, tornar-se, um dia, escritor. Mas não é somente a leitura que o atrai (agora saído da adolescência e ainda trabalhando em ofícios os mais diversos), mas sim a matéria-prima do seu futuro trabalho, que ele define como a própria vida, a vida em si. Em suas reflexões (céticas, o mais das vezes), o futuro escritor está sempre a dizer-se que o que ele passa, o que vê e o que confronta, ao ter que sobreviver em ambientes hostis à sua natureza sensível e criativa, isto sim, servirá de base para os seus projetos — mais do que conseguiu aprender com os livros. Para Górki, o bravo homem russo é aquele que vive plenamente o real, que coloca a mão na massa, e que o intelectual nada mais faz que concluir o que, em realidade, o homem que vive plenamente o real já concluiu, passando por dissabores e fazendo, ele mesmo, a História.

"O amor e a fome governam o mundo"

Em nome da sobrevivência, o jovem Górki vê o sonho de entrar para a universidade cada vez mais distante (num momento de desespero, tenta o suicídio, mas não consegue realizar o seu intento). Mas a maneira hábil com que observa o comportamento e o perfil das pessoas, seguramente aguça a sua sensibilidade em direção à composição do quadro que, mais tarde, em seus textos como dramaturgo e escritor, fará do homem russo. É neste período também, com cerca de dezessete anos, que entrará em mais contato com a política, embora ainda como ávido leitor e mero observador de discussões. Discussões e debates eloqüentes, promovidos por estudantes, professores e pessoas simples do povo, sobre o momento vivido pela Rússia de então, assim como sobre aqueles que a pensam e que se vêem em condições de mudar o curso da história. Tais leituras e contato mais direto com a política e os movimentos estudantis, que espoucam neste período com bastante regularidade, não dissipam, no entanto, as inquietudes do futuro escritor, que continua indagando de que matéria é feita a alma do homem russo e se a literatura reproduz, de fato, tudo o que observa de contraditório, de bom e mau (para usar termos que ele freqüentemente utiliza), na humanidade.

É da voz dos que o cercam que ele recolhe ensinamentos que o marcarão de maneira definitiva e cujo gérmen preconiza o sentimento que norteará a Revolução Russa: "(...) Há cada vez mais operários, no entanto só o camponês é de fato necessário, o produtor de alimento. O alimento: isto é tudo o que precisamos extrair da natureza por meio do trabalho. Quanto menos necessidades tem o homem, mais feliz ele é; quanto mais desejos, menos liberdade". "(...) O amor e a fome governam o mundo — ouvi o seu sussurro ardente e recordei que aquelas palavras estavam escritas debaixo de um folheto revolucionário intitulado O Tsar Fome, e isto conferiu a elas um significado especialmente sério no meu pensamento". "(...) — As pessoas procuram o esquecimento, o consolo, mas não o saber!". "Essa idéia abalou-me de uma vez por todas". [2]

E, falando-se em amor, é por esta época que Górki se apaixona a ponto de levar adiante um relacionamento sério com uma mulher compromissada e mãe, relativamente culta, de boa posição e mais velha que ele — uma futura atriz. No entanto, a miséria em que mergulham — ele, a companheira (que abandona o marido) e a filha desta — deixa o jovem inseguro e amargurado. É um período em que Górki já consegue sobreviver das suas idéias, colaborando na imprensa — período aliás mal detalhado e que poderia ter culminado num bom ápice neste terceiro e último volume, já que viver condignamente de suas idéias e abandonar o trabalho braçal pareciam ser seus desejos mais ardorosos. Talvez isto ocorra porque voltaria a escrever sobre tal período, de maneira mais detalhada, em outra obra que não essa — de qualquer modo, é um pouco frustrante para o leitor, já que Górki é dado a detalhes, não poder conhecer os caminhos, em pormenores, que o levaram até o cargo que exerceu por esta época e como se deu profissionalmente a colaboração na imprensa, com seus primeiros contos.

A união com a atriz, no entanto, não dura mais que alguns poucos anos, pois a companheira não valoriza o seu trabalho como escritor — e, confessadamente, nem ele tampouco, pois, ainda inseguro quanto aos seus pendores literários, mantém o emprego no jornal, em suas próprias palavras, “apenas pela questão financeira”. Górki deixa também claro que a incompatibilidade intelectual pesou na separação do casal: ele gostava de determinados autores; ela, de outros. "Eu lia Balzac, Flaubert; ela preferia Paul Féval... e sobretudo Senhorita Giraud, minha mulher — considerava esse livro o mais espirituoso do mundo, já eu o achava enfadonho como o Código penal". [3] Além do mais, pesa o fato de Górki estar buscando nela um apoio, nessa área do seu talento, o que jamais aconteceu — a companheira chega mesmo a dormir em meio ao relato de um conto que o escritor, entusiasmado, lia para ela. Ambos, diz ele, foram ao longo do tempo mascarando os conflitos da relação — ela, por seu temperamento expansivo e avesso aos problemas, e ele, por insegurança e procurando nela a figura da mãe, outrora ausente, como ele próprio conclui em suas reflexões.

As “universidades” do jovem escritor

Em Ganhando meu pão, o segundo volume da trilogia, ficamos cientes que Górki muda-se para Kazan, saindo de sua terra natal, Níjni-Nóvgorod, na tentativa de estudar e entrar na universidade, um de seus desejos mais íntimos. No entanto, é a vida que se torna o seu banco de escola, já que nada era tão simples quanto parecia ser. Num período que vai de 1884 a 1888 (dos dezesseis aos vinte anos de idade do autor), Minhas universidades relata o contato de Górki com estudantes politizados, em eterno embate contra o tsarismo. De início, trabalha numa padaria, onde tem contato bem íntimo com tais estudantes e suas idéias revolucionárias, assim como com as de quem freqüenta o lugar, ponto de encontro para discussões sobre o regime. Mais tarde, num segundo momento, o jovem vai morar numa aldeia e volta a ter contato, como antes, quando vivia com sua avó, com pessoas rudes e sem instrução.

Neste período na aldeia, Górki volta a fazer trabalhos considerados pequenos, como "bicos", lidando com a lavoura, aqui e ali, em regime de curta contratação. O futuro escritor se impacienta e desanima, percebe que para os que o cercam as palavras dos intelectuais e dos que lidam com a ciência nada valem, são tratadas com desprezo. No entanto, é dessa gente que labuta de sol a sol que Górki vai recolhendo material para seus futuros contos, peças e romances. Em seu contato com a prostituição, através de colegas de trabalho, começa a perceber a natureza da mulher, a maneira como são exploradas pelos homens e como, por sua vez, se deixam explorar e, ao mesmo tempo que as teme, sente-se atraído pela idéia de analisá-las em sua natureza. E, muitas vezes, as palavras mais sábias que o marcam para sempre vêm justamente desta gente que vive em condições precárias, aviltantes, que povoa o seu cotidiano miserável — uma gente também vivendo em condição materialmente miserável, mas muitas vezes dotada de um senso do real que surpreende o jovem.

Minhas universidades se encerra com o período em que o autor realiza sua união com a atriz amadora e a colaboração com a imprensa, sem no entanto mencionar o sucesso que alcançaria nos anos seguintes como escritor consagrado e seu envolvimento mais direto com a política russa. Ficaríamos com a impressão de um certo vácuo, não fosse o prefácio do também tradutor do texto, Rubens Figueiredo, e o posfácio de Boris Schnaiderman, em Ganhando meu pão. Neste, diz: "Como contraponto à trilogia, penso sempre num livro que não foi muito traduzido e provavelmente não existe em português. Chama-se Notas de um diário — Reminiscências e contém uma narração de episódios (...). Aliás, Górki me parece insuperável nessa capacidade de captar o essencial de um momento histórico e nos dar a impressão de projetá-lo numa tela. Deste modo, o que parecia episódico e jornalístico se torna realmente grande literatura". [4]

Há, no Brasil, ainda que em muitas edições esgotadas, obras que podem nos dar uma visão do trabalho de Máximo Górki como escritor e dramaturgo, como Os pequenos-burgueses, Ralé, Mãe e alguns contos seletos. A trilogia a que nos referimos em três resenhas, que são narrativas literárias de cunho autobiográfico, marcadas pela sua rica imaginação, vêm elucidar o seu caráter e a sua visão de mundo em idade muito tenra, mas num período bastante significativo, pois são épocas de sua formação e consolidação ideológica, enquanto temáticas preferenciais, como escritor, e percepção do universo político. Sendo assim, podemos constatar que o “aluno” Górki — inteligente, sensível, perseverante e perspicaz — pouco gazeteou nos seus tempos de estudante na “universidade” (abundantemente diversa, plural) que, por motivos alheios à sua vontade, veio forçosamente a freqüentar. Como merecimento, é preciso, então, atribuir-lhe por Infância, Ganhando meu pão e Minhas universidades, sem pestanejar, o que lhe é devido: nota dez, com louvor.



[1] “A Infância de Máximo Górki” e “Ganhando meu pão, de Máximo Gorki”.

[2] Minhas universidades, de Máximo Górki, Editora CosacNaify; 2007 – pág. 64.

[3] Minhas universidades, de Máximo Górki, Editora CosacNaify; 2007 – pág. 247.

[4] Ganhando meu pão, de Máximo Górki, Editora CosacNaify; 2007 – pág. 441.

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