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Dominação, petróleo e ideologia

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Três hipóteses provocadoras sobre a presença dos EUA no Oriente Médio: o controle sobre os campos petrolíferos visa, mais que tudo, constranger Europa e Japão; Arábia Saudita e Egito jamais poderão ser aliados centrais de Washington; a aliança com Israel frustra o mundo árabe e será fonte de tensões cada vez mais graves

Cláudio César Dutra de Souza, Sílvia Ferabolli - (29/02/2008)

Esse breve ensaio busca responder três questionamentos centrais que intrigam aqueles que acompanham o desenrolar dos conflitos no Oriente Médio. São eles: 1) qual é o real interesse dos Estados Unidos no Oriente Médio? 2) por que a aliança com os dois Estados-chave do Mundo Árabe – o Egito e a Arábia Saudita – não é vista como suficiente para assegurar os interesses norte-americanos na região? 3) por que Israel é percebido como o aliado central e necessário dos Estados Unidos na região? Esse debate, que envolve necessariamente entender do peso do petróleo, do poder e da ideologia nas ações de política externa norte-americana para o Oriente Médio, terá por base o pensamento de Emmanuel Todd e Edward Said sobre tais assuntos.

Todd acredita que fixação dos Estados Unidos no Oriente Médio não decorre do temor de abastecimento insuficiente de petróleo. Metade das importações petrolíferas dos EUA provém do chamado Novo Mundo, que está militarmente seguro para Washington. Se forem somadas as quantidades provenientes desses países à própria produção americana, chega-se a um total de 70% do consumo dos Estados Unidos.

Os países do Golfo Pérsico fornecem apenas 18% do consumo norte-americano. A energia que se trata de controlar não é a dos Estados Unidos, mas a do mundo — especificamente, a da Europa e do Japão, os dois pólos que, economicamente, desafiam a supremacia norte-americana. “A verdade é que, pelo controle dos recursos energéticos necessários à Europa e ao Japão, os Estados Unidos esperam manter a possibilidade de exercer pressões significativas sobre eles.” (TODD, 2003, p. 167).

Essa afirmação, feita pelo demógrafo francês, em 2003, vai ao encontro de uma fala do secretário de Estado norte-americano, John Foster Dulles. Ainda em 1958, ele advertia que o fornecimento vital de óleo para a Europa Ocidental, pelo Oriente Médio, tornaria-se crítico se os Estados árabes uniformizassem suas políticas petrolíferas. Hoje, impedir por todos os modos que os países árabes unifiquem suas políticas de petróleo, que empreguem suas reservas em seu próprio interesse (e não dos mercados internacionais), aparece como algo de vital importância para a manutenção da pretensa hegemonia americana no pós-Guerra Fria.

O desgaste da hegemonia dos EUA obriga o país a atacar Estados fracos, como Iraque e Afeganistão, para "mostrar" ao mundo que ainda é indispensável para a defesa do planeta

Por certo, as políticas petrolíferas dos Estados árabes estão parcialmente unificadas via OPEP. Contudo, essas políticas servem aos interesses dos membros dessa organização, especialmente das petromonarquias, não do mundo árabe como um todo. É parte da política norte-americana impedir o desenvolvimento de qualquer forma de integração árabe que possa alterar a correlação de forças na região em favor daqueles que querem mudanças democráticas. Nas palavras de Said,

[ . . . ] assim como as campanhas francesas, britânicas, israelenses e americanas contra Nasser foram desenhadas para derrubar uma força que abertamente demonstrava sua ambição de unificação dos Estados árabes em uma força política independente, o objetivo americano hoje é refazer o mapa do mundo árabe para servir aos seus interesses, não os dos árabes. A política estadunidense gera fragmentação, ausência de ação coletiva e fraqueza política e econômica árabe. (2003a, p. 1)

A invasão norte-americana do Iraque, em 20 de março de 2003, esteve diretamente relacionada com essas questões, pois visava permitir a instauração prolongada de um regime subserviente no país. A Arábia Saudita, desde o 11 de setembro, é uma aliada problemática para os Estados Unidos, já que a maioria dos terroristas envolvidos nos ataques de 2001 eram sauditas, e a possibilidade de tê-la sob controle militar direto, via novo Iraque, certamente deve ser considerada um dos motivadores da intervenção estadunidense.

Porém, o percebido declínio da hegemonia norte-americana também deve ser considerado uma força significativa por trás das ações que levaram à invasão do Iraque. Ainda conforme Todd (2003), o desgaste da hegemonia estadunidense obriga o país a atacar Estados fracos, como o Iraque e o Afeganistão, para mostrar ao mundo que ainda é indispensável para a defesa do planeta; e que a comunidade internacional precisa de sua proteção contra o terrorismo global – o inimigo contemporâneo que veio substituir o comunismo como legitimador das ações imperialistas norte-americanas.

Arábia Saudita e Egito não podem ser o centro da estratégia norte-americana no Oriente Médio porque os regimes árabes, em sua totalidade, são a antítese do modelo norte-americano de democracia e livre mercado. Convencer as elites dos EUA da desejabilidade de criação de um sistema centralizado em uma monarquia absolutista e numa ditadura militar seria negar a supremacia dos valores norte-americanos.

Além disso, a importância dos aspectos culturais não deve ser subestimada:

de um lado, a América, país das mulheres castradoras, cujo anterior presidente foi obrigado a depor numa comissão de inquérito para provar que não dormiu com uma estagiária; de outro, Bin Laden, um terrorista polígamo com seus inúmeros meios-irmãos e meias-irmãs. (TODD, 2003, p. 162)

País ocidental por natureza, Israel é visto pelos norte-americanos como uma democracia virtuosa, moderna e racional. Além disso, há a poderosa AIPAC, centro do lobby sionista

Israel, por outro lado, é um país ocidental por natureza, que é visto pela população norte-americana como uma democracia virtuosa, moderna e racional. Ou seja, o Estado israelense é a antítese dos regimes árabes-islâmicos — pelo menos na percepção de boa parte dos norte-americanos.

Além desse compartilhamento de valores democráticos e liberais capitalistas, as políticas de Israel e dos Estados Unidos são aproximadas por meio do Comitê de Relações Públicas Israelense-Americano – AIPAC – um poderoso lobby que há décadas vem influenciando, desde Washington, a política estadunidense para o Oriente Médio, e cuja força advém de uma população judaica bem organizada, bem conectada, altamente visível, bem-sucedida e abastada e que, por isso mesmo, enfrenta pouquíssima resistência. “Há um saudável temor e respeito pelo AIPAC em todo o país — mas especialmente em Washington, onde, em questão de horas, o Senado quase inteiro pode ser conduzido a assinar uma carta ao presidente em favor de Israel.” (SAID, 2003b, p. 98). Já os árabes “são muito fracos, divididos, desorganizados e ignorantes” (SAID, 2003b, p. 96). para fazer frente ao poder político da comunidade sionista norte-americana.

No que tange à terceira questão, pode-se então inferir que a centralidade israelense no esquema estadunidense para o Oriente Médio é assegurada pela afinidade de visões de mundo entre Israel e Estados Unidos e pelo forte lobby sionista que trabalha efetivamente para a manutenção da posição de Israel como o mais importante aliado norte-americano na região.

Essas conclusões parecem corroborar mais uma tese de Said (2003a). Nos mais de cinqüenta anos desde que os Estados Unidos impuseram a sua pax no mundo — e especialmente no pós-Guerra Fria — o país apóia sua política externa para o Oriente Médio em dois princípios únicos e essenciais: a defesa de Israel e o livre fluxo do petróleo árabe. Ambos se opõem diretamente aos desejos de independência dos povos árabes frente à dominação ocidental — que começou há mais de 200 anos, com a invasão napoleônica do Egito, e parece não ter previsão para acabar.

Bibliografia:

SAID, Edward. The Arab Condition. Al-Ahram Weekly, Cairo, May 2003a. Disponível aqui. Acesso em 01 de maio de 2005.

SAID, Edward. Cultura e Política. São Paulo: Boitempo, 2003b.

TODD, Emmanuel. Depois do Império. Rio de Janeiro, Record, 2003.

Mais:

Cláudio César Dutra de Souza e Sílvia Ferabolli são colaboradores do Caderno Brasil de Le Monde Diplomatique.

Edições anteriores:

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