Jornalismo Crítico | Biblioteca e Edição Brasileira | Copyleft | Contato | Participe! |
Uma iniciativa


» “Não esqueçam Julian Assange”

» Índia ocupa a Caxemira muçulmana

» Portugal, o novo alvo da extrema-direita

» Portugal, o novo alvo da extrema-direita

» E quando nos levantaremos contra os rentistas?

» “Quem tá na rua nunca tá perdido”

» Eles querem organizar a população de rua

» Municipalismo, alternativa à crise da representação?

» A China tem uma alternativa ao neoliberalismo

» Marielle, Moa, Marley, Mineirinho

Rede Social


Edição francesa


» Population, subsistance et révolution

» Une nouvelle classe de petits potentats domine les villages

» Vers une « révolution agricole »

» En dehors de la « Petite Europe » d'autres débouchés s'offriront aux produits tropicaux

» Dans le domaine agraire il serait dangereux de vouloir brûler toutes les étapes

» L'expérience de M. Fidel Castro pourrait être mise en péril par une socialisation trop rapide de l'industrie cubaine

» Au Japon, le ministre de la défense s'inquiète

» Les soucoupes volantes sont-elles un sous-produit de la guerre froide ?

» Ovnis et théorie du complot

» Boulevard de la xénophobie


Edição em inglês


» Manufacturing public debate

» August: the longer view

» Trump returns to the old isolationism

» Yellow vests don't do politics

» Kurdish territories in northern Syria

» The changing shape of the Balkans: 1991 / 2019

» Minorities in Kosovo

» Borders 1500-2008

» Man with a mission or deranged drifter

» The Louise revolution


Edição portuguesa


» Edição de Agosto de 2019

» Plural e vinculado à esquerda

» Os talibãs de São Francisco

» Edição de Julho de 2019

» Inconsistências (ou o sono da razão?)

» Comércio livre ou ecologia!

» Edição de Junho de 2019

» As pertenças colectivas e as suas conquistas

» A arte da provocação

» 20 Anos | 20% desconto


OUTROS CINEMAS

Filme debate o estado do mundo

Imprimir
Enviar
Compartilhe

Seis diretores aceitam desafio de organização portuguesa e produzem obra coletiva sobre o tempo em que vivemos. Contribuições enxergam crise e necessidade de mudanças, mas o fazem por meio de poesia e metáforas — exceto no caso do curta brasileiro de Vicente Ferraz...

Bruno Carmelo - (06/03/2008)

Uma organização portuguesa resolveu reunir seis cineastas para realizarem curtas-metragens em torno de um tema espinhoso, “o estado do mundo”. Logo de início, já se impõe a dificuldade da especificidade do projeto: o que se entende por esse conceito? Como em outros filmes episódicos, os temas muito abrangentes como Paris (Paris, Eu Te Amo) ou o erotismo (Eros) geralmente resultam obras que parecem insuficientes perto da grandeza da proposta.

No caso, pela (coincidente?) escolha de cineastas provindos de países de terceiro mundo (Brasil, China, Índia, Tailândia), o projeto parecia encaminhar-se para rumos claramente ideológicos, direcionado para a denúncia social e para o retrato das minorias.

O resultado, no entanto, mostra como cada realizador compreendeu a proposta de modo completamente diferente; e como cada um criou artifícios para escapar ao confronto direto com o tema. Exceto o filme brasileiro de Vicente Ferraz (diretor de Soy Cuba), que decidiu atacar diretamente as mazelas terceiro-mundistas, todos os outros buscaram saídas minimalistas ou poéticas.

Este filme brasileiro, intitulado Germinal, expõe a história de pescadores cariocas frente à falta de trabalho. Com uma imagem estranhamente estilizada (cores vibrantes, que conferem ao curta um aspecto irreal, fantástico), ele mostra essas pessoas que choram, xingam e reclamam com todas as palavras seus problemas. Fica clara uma certa brasilidade de tentar verbalizar todas as sensações, e atribuir culpa à um poder sem rosto. Xinga-se tudo e todos, nessa revolta tão típica de conversas de bar, nas quais não se busca compreender as complexidades cenário político. A culpa é do poder.

Por outro lado, o diretor português Pedro Costa retrata a difícil vida de cabo-verdianos expulsos de Portugal e forçados a voltar para seu país de origem. Mesmo que clarame inteinteressado na sensibilização do público, ele mantém- se sempre afastado dos personagens e, por meio de planos fixos, observa-os enquanto caminham e conversam pelas casas paupérrimas.

JPEG - 10.7 KB
"Onde está o “estado do mundo” nessa dança de grãos, ondas e sons? "

No curta indiano, quae não há palavras — só tristeza. No tailandês, estranha granulação faz referência à morte

Em chaves mais moderadas, o curta-metragem indiano mostra a rotina de um porteiro. Quase não há palavras, mas a tristeza dessa vida rotineira sem perspectivas de ascensão contamina toda a obra e deixa um gosto triste de poesia do real.

Dois extremos ficam por conta dos curtas chinês e tailandês. O primeiro é brutal e faz referência ao período de ditadura comunista, enquanto o segundo, no pólo onírico, é assinado por Apichatpong Weerasethakul, diretor que sempre recusou o panfletarismo político, e que não faz diferente neste caso.

Através de uma família que joga as cinzas de um parente em pleno mar, o diretor faz um curta experimental, próximo da vídeo-arte, no qual a granulação exagerada da película confunde- se com o ritmo das ondas, e os planos muito próximos chegam à própria materialidade do suporte e afastam- se do que esse material representa, de modo que as formas e os objetos não sejam mais reconhecíveis.

Onde está o “estado do mundo” nessa dança de grãos, ondas e sons? Talvez no velório como símbolo de indiferença perante à morte (não há grande emoção entre os parentes do falecido), ou talvez ainda da morte de uma certo tipo de cinema, mais próximo da experimentação, da poesia e da liberdade de formas.

Contribuição francesa foca a China e alterna plano fixo com imagens publicitárias em seqüência, das quais não se pode escapar

No entanto, sobre o questionamento da imagem, o fantástico curta final vem elevar o nível do filme e finalizá-lo com seu segmento mais complexo. Feito ironicamente pela única cineasta vinda de uma país rico, a francesa Chantal Akerman, ele retrata uma primeira viagem da diretora a Pequim, e é construído com uma simplicidade impressionante. Embora alguns poucos planos iniciais situem a localidade e, acima de tudo, o ritmo contemplativo, é uma imagem única que vai se fixar e se encarregar de transmitir toda a mensagem da diretora e todo o tema do “estado do mundo”.

Neste plano fixo de mais de dez minutos (ver foto), são mostradas dois grandes prédios chineses no cair no dia. Assim que a noite se estabelece por completo, essas construções se transformam em lugares de projeções de imagens publicitárias. Logo, vemos propagandas de roupas, de produtos alimentícios, de programas de televisão, e mesmo de quadros famosos. A trilha sonora, igualmente insólita, varia sobre o tema do pop e da reapropriação, com músicas remixadas (incluindo um inesperado I Will Survive em ritmo de salsa).

A intensidade das imagens projetadas (a rápida sucessão das projeções, a trilha incoerente) contrasta imediatamente com esse plano fixo do curta-metragem, que não apresenta nenhum discurso explícito e que não possui um diálogo sequer.

Entretanto, é nessa abordagem inusitada que se explicita a sobrecarga contemporânea de imagens e a impossibilidade de escapar de sua influência. Esta é uma obra cinematográfica que força o espectador a assistir à televisão, justamente porque nenhuma outra alternativa é oferecida, não há outros pontos de ação para se olhar. Somos prisioneiros de uma projeção indesejada.

Esse curta inteligentíssimo completa, por fim, a impossibilidade de se delimitar esse “estado do mundo”. Enquanto ele se dedica a investigar o próprio poder do cinema, outro filme acusa os problemas econômicos, outro mostra as dificuldades sociais, outro faz apelo à história. Independentemente do mundo retratado, ele está em crise, dotado de faltas e excessos, de inadequações e desigualdades. Em níveis diferentes de engajamento e de proximidade com a proposta, os seis curtas vêem o mundo pelo que eles gostariam que ele fosse e pela urgência de mudanças.

O Estado do Mundo (2008)
Filme coletivo de Apichatpong Weerasethakul, Vicente Ferraz, Wang Bing, Pedro Costa, Ayisha Abraham e Chantal Akerman.
Produção de Lx Filmes (Portugal).
Duração de 1h45.

Veja:

- Fotos

- Vídeo

Mais:

Bruno Carmelo assina a coluna Outros Cinemas. Também mantém o blog Nuvem Preta, onde resenha e comenta outros filmes. Edições anteriores da coluna:

Hou Hsiao Hsien celebra a criação
Em Le Voyage du Ballon Rouge, novo filme do diretor chinês, os artistas são trabalhadores comuns, que andam pelas ruas, fazem compras, pagam aluguel. Mas uma série de surpresas estéticas sugere quanto é singular o seu ofício: propor outras formas, ousadas e inventivas, de enxergar o mundo e a vida

A morte é para toda a vida
Coluna revê El espíruto de la colmena (1973), primeiro filme de Victor Erice. Muito mais que homenagem ao cinema, ou debate sobre influência da TV, obra investiga o amadurecimento, em especial o trauma provocado pela noção de que teremos fim

Alexandra, o elemento perturbador
Em seu novo filme, Alexandre Sokurov introduz uma avó num acampamento de soldados russos na Tchetchenia. Por meio de um jogo de opostos, ele passeará por temas como as relações familiares, os desejos incestuosos, os conflitos entre Rússia e vizinhos e, em especial, a banalidade da guerra

Como se não fosse ficção
Abdellatif Kechiche dá ares de documentário a La Graine et le Moulet, seu novo filme — talvez para fundir prosa e poesia e criar obra sutil em que afirma, sem descambar para o panfleto, a igualdade entre franceses e marroquinos, cristãos e muçulmanos

XXY aborda um tabu
Diretora argentina encara o desafio de tratar do hermafroditismo, um tema quase ausente do cinema. Mas falta uma pitada de ousadia: opção por narrativa lateral, baseada sempre em metáforas e alusões, produz clima opressivo, que contrasta com humanismo da proposta

Garage: o mito do homem bom
Filme irlandês premiado em Cannes traça, delicado e flertando com o humor negro, o retrato de um ser solitário, que não tem idéias próprias nem opiniões divergentes. Alguém tão puro que não encontrou seu lugar na sociedade

California Dreamin’ e os absurdos do poder
Premiado em Cannes, filme de Cristian Nemescu serve-se da comédia e do absurdo para revelar impasses da autoridade, impotência oculta do militarismo e limites de certas resistências. Mesmo inconclusa, por morte do diretor, obra revela ascensão do novo cinema romeno

Suspiria, arte e sentidos
Avesso às fórmulas e clichês dos filmes de terror, o italiano Dario Argento produz obras marcadas por cenários, tons e música incomuns; tempo e espaço não-lineares; debates psicanalíticos. Texto inaugura nova coluna do Diplô, agora sobre cinema e diversidade



Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BUSCA

» por tema
» por país
» por autor
» no diplô Brasil

BOLETIM

Clique aqui para receber as atualizações do site.

Leia mais sobre

» Cinema
» Cultura
» Outros Cinemas


Destaques

» O planeta reage aos desertos verdes
» Escola Livre de Comunicação Compartilhada
» Armas nucleares: da hipocrisia à alternativa
» Dossiê ACTA: para desvendar a ameaça ao conhecimento livre
» Do "Le Monde Diplomatique" a "Outras Palavras"
» Teoria Geral da Relatividade, 94 anos
» Para compreender a encruzilhada cubana
» Israel: por trás da radicalização, um país militarizado
» A “América profunda” está de volta
» Finanças: sem luz no fim do túnel
Mais textos