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LITERATURA

Balthazar

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Ao deixar um pouco de lado a trama principal para enveredar por um desses caminhos secundários e quase sempre tortuosos, Durrell revela toda sua competência como ficcionista.

Luiz Paulo Faccioli - (07/03/2008)

“Intercalar realidades”, escreveu Balthazar, “é a única forma de ser fiel ao Tempo, pois cada um de seus momentos é infinito em sua multiplicidade. Viver consiste no ato da escolha. Sempre fazemos juízos, sempre escolhemos”.

Treze páginas antes do final de Balthazar, deparo-me com o mote perfeito para começar esta crônica. E me apresso em admitir que, tiradas de seu contexto, as três frases aí em cima não têm nada de muito especial: são como aqueles peixinhos ornamentais que misteriosamente perdem a cor quando surpreendidos fora d’água. Mas elas também trazem a melhor das justificativas para o romance que está prestes a acabar. Não que a obra tenha de ter necessariamente uma justificativa, por assim dizer, “funcional”. É que, neste caso, trata-se da repetição de uma história já contada, só que vista agora sob outro prisma — e o resultado é exata e obviamente o que o leitor está pensando neste momento: uma nova história.

Desta vez não aconteceu como em Justine. A capa do segundo volume de O Quarteto de Alexandria, de Lawrence Durrell, que traz a foto de uma cena crepuscular em tons terrosos, água abundante em primeiro plano e, ao fundo, a silhueta iluminada do que tem jeito de ser uma pequena cidade — será possível que seja Alexandria? Os créditos do livro não fazem menção à foto —, chega a parecer mera abstração se comparada à do primeiro, com sua concretude explícita num varal de roupas. Todavia, no conteúdo, quanta diferença! Seria essa a hora de Durrell matar a pau, assim havia prometido meu amigo Sergio Faraco. Talvez o entusiasmo dele continue tendo um toque de exagero. Contudo, a leitura de Balthazar flui de fato bem melhor que a de Justine, e acho que descobri por quê.

Mas vamos com calma.

Entre Justine e Balthazar, vários livros se passaram. Viajei pelo pragmatismo do judeu norte-americano Philip Roth em seus dois mais recentes romances, O animal agonizante e Homem comum, fazendo escala nas ótimas cartas-contos de minha conterrânea Martha Medeiros, em Tudo o que eu queria te dizer, e na delicadeza do chileno Luis Sepúlveda, no infantil História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar. Tudo isso embalado por um tempo magnífico e ocioso na praia do Campeche, em Florianópolis — segundo a versão romântica, o “Campo de Pesca” assim batizado por Saint-Exupéry, que lá pousava o avião do correio francês antes de seguir viagem para Buenos Aires. O ecletismo dessas escolhas funcionou como os cubos de queijo servidos numa degustação de vinhos: “limparam” meu paladar para a retomada de uma tarefa que tem se revelado bem mais difícil do que a imaginei em meu projeto. Por que a dificuldade? Em primeiro lugar, porque Justine não me havia cativado. Depois, porque o tour de force empreendido por Durrell para escrever quatro vezes a mesma história, alterando o ponto de vista em cada uma delas, veio repercutir também no meu trabalho, pois tenho agora de fazer das tripas coração para que cada um das crônicas sobre os tais quatro romances irmãos tenha alguma originalidade.

É necessário voltar brevemente a Justine para lembrar que o primeiro romance da tetralogia abre com o narrador auto-exilado numa pequena ilha do Mediterrâneo, em companhia de uma menina, filha de Melissa – esta, por sua vez, uma das pontas de um dos dois triângulos sobre os quais a trama se estrutura: um deles é formado pelo narrador, que vive com Melissa enquanto mantém um caso com Justine; o outro, vivido por Justine e seu marido Nessim em relação ao narrador. O que eu ainda não havia contado é que da sobreposição desses dois triângulos acaba nascendo um terceiro, só revelado ao final de Justine: a menina é na realidade filha de Nessim. Além desse núcleo principal — e dessa urdidura algo promíscua —, outros personagens aparentemente periféricos são trazidos à tona, têm seu momento de vôo solo e voltam à obscuridade; entre eles, o médico Balthazar, a artista plástica Clea e o escritor Pursewarden. O narrador se dedica a resgatar e escrever a história vivida anos atrás em Alexandria.

Um direito inalienável do leitor

Agora sim podemos começar com Balthazar.

Concluída a primeira versão da obra, o narrador, que segue anônimo, remete seus originais ao médico e amigo que dá título ao volume — e que em Justine tem uma participação discretíssima — para uma leitura crítica. Meses depois, Balthazar em pessoa aporta na ilha, vindo de Alexandria para uma visita relâmpago e trazendo consigo os originais, acrescidos de seus “Comentários” (assim eles estão referidos no livro). Nem seria preciso dizer que são eles os responsáveis pela radical mudança na trama que o narrador julgava tão bem conhecer. Antes, Balthazar já havia antecipado numa carta:

Enxergo você com pose de sábio, meditando sobre (...) os diários de Justine, Nessim, etc., imaginando que neles encontrará a verdade. Ilusão! Ilusão! Um diário é a última fonte a ser consultada quando se busca a verdade sobre alguém. Ninguém ousa confessar ao papel as verdades supremas acerca de si mesmo: pelo menos no que tange ao amor. Por acaso sabe quem Justine realmente amava? Acredita que era você, não?

Através de Balthazar e de seu raciocínio nem sempre convencional, o narrador descobre, por exemplo, que Justine era de fato apaixonada por Pursewarden, a quem perseguia com obstinação, e que o caso extraconjugal tivera o único propósito de desviar a atenção do poderoso marido para outro alvo que não fosse a sua verdadeira paixão. A ousadia ficcional de tal artimanha é digna de um brasileiríssimo Nelson Rodrigues. Ou, melhor, digna da própria tragédia grega, terra de todos esses lios bárbaros que a literatura vive de repetir.

Claro que a novidade sozinha, ainda que de inegável impacto — talvez por conta de sua bizarrice —, não é suficiente para sustentar todo um novo romance. É quando entram em cena outros personagens, alguns deles que já haviam aparecido em Justine e têm suas histórias agora aprofundadas em Balthazar. Ao deixar um pouco de lado a trama principal para enveredar por um desses caminhos secundários e quase sempre tortuosos, Durrell revela toda sua competência como ficcionista. Um bom exemplo são as tragédias familiares de Nessim, a começar pela da mãe, Leila, uma outrora beldade que enviuvou muito cedo, teve depois o rosto deformado pela varíola e desde então vive reclusa na rica propriedade que a família mantém às margens do deserto. A administração dessas terras, por sua vez, compete a Naruz, irmão caçula de Nessim, que também vive ali recluso por se ressentir de um lábio leporino não corrigido a seu tempo. À construção de Naruz e de sua paixão oculta por Clea, a quem viu apenas três vezes na vida, Durrell dedica uma expressiva porção de seu romance — e arrisco acrescentar que é quase o que ele tem de melhor. Eis aí o motivo pelo qual Balthazar é mais atraente que Justine. E sigo cada vez mais aferrado à convicção de que uma história bem contada é direito inalienável do leitor.

Falhas de revisão?

Outro percalço que tive em Justine foram as deficiências da tradução quanto à colocação pronominal, o que fazia desviar a todo o momento minha atenção. Foi impossível ler Balthazar sem procurar pelos mesmos problemas. A boa surpresa é que eles foram sensivelmente reduzidos. Em todo o livro não há um único caso de ênclise esdrúxula (do tipo “abandonaria-me”) que pululavam no romance anterior. Continua, entretanto, a tentativa de emular o português do além-mar e sua natural tendência à ênclise, que no Brasil soa muitas vezes forçada. Mas, perto do que se viu até então, nem chega mais a comprometer.

Um outro detalhe continua até agora me encafifando. Há um personagem que já havia aparecido em Justine e cuja história tem seu desfecho — nada inspirado, por sinal — em Balthazar. Trata-se de Scobie, um velho lobo-do-mar que trabalha agora para o Serviço Secreto britânico em Alexandria e que não consegue resistir a uma fantasia íntima das mais grotescas. Sujeito de pouco estudo e mesmo simplório, teria sido uma opção válida fazê-lo falar de um modo tosco, falhando na gramática e na pronúncia de certas palavras. O problema é que Durrell não adota tais soluções realistas, modulando o registro conforme a voz de cada personagem, mas sem se descuidar em manter sempre uma estrutura formalmente impecável. Assim, causa estranheza que Scobie tenha usado as formas “piderasta” e “piderastia” por três vezes num universo de três páginas. Assim, de graça. Se era para ser intencional, não atino qual seria a razão. Talvez tenha sido outro erro grosseiro que a revisão não detectou? Não sei a resposta. E é incrível o poder que têm certas minúcias em interferir negativamente no processo de leitura.

Ou talvez eu esteja virando mesmo um preciosista incurável.

* * *

Recebi um e-mail comentando a crônica sobre Justine. Veio de outro amigo, o também escritor Airton Ortiz que, como todos sabem, vira o mundo em busca de aventuras pitorescas que depois transforma em livros de sucesso. Ortiz me conta que antes mesmo de ter se decepcionado com a leitura de O Quarteto..., ele já havia se decepcionado com Alexandria itself. Lá nada mais existe do tempo de Durrell — e nem mesmo da época de Cleópatra e de Alexandre. Parece que a cidade deu as costas para seu passado glorioso. O escolado viajante contou também uma história que eu já havia lido alhures, mas sem saber a autoria. Ao visitar o Hotel Cecil, famoso em seu tempo e onde se passam algumas cenas de Justine, Ortiz perguntou ao porteiro pelo Quarteto. A resposta foi desconcertante: havia muito que não se ouvia falar deles; achava inclusive que não tocavam mais na cidade.



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