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LITERATURA

O Yeti com maleta executiva

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Os grandes mestres compõem um subtexto hitchcockiano, com violinos ao fundo, para o leitor. Eles deixam a dúvida e não a certeza. Em vez de “será que é a pessoa X”, o leitor fica se perguntando “será que essa pessoa existiu ou foi só muito bem-inventada?”.

Simone Campos - (07/03/2008)

Sílvio Santos tem no auditório suas colegas de trabalho; já os meus trabalham nos respectivos home offices, mas ocasionalmente trocamos uma palavrinha, nem que seja via mensageiro instantâneo. Quer dizer, sendo escritora, é inevitável conhecer também um pouco de como são escritos os livros das pessoas. Você vê que, como em qualquer ramo, alguns trabalham duro até produzirem algo que presta: andam com cadernos pra cima e pra baixo, obstinam-se com as frases, consultam pessoas e livros, chegam a fazer diagramas; outros são iluminados e mal precisam pensar antes de produzir textos extraordinários (ai, que inveja); e outros... digamos que, como qualquer ramo, este não está livre da picaretagem.

Claro que levaria muitíssimas laudas para descrever a picaretagem em toda a sua glória e esplendor, então escolhi explicar aquele que, para mim, é o pior dos males, até por ser meio nebuloso. Não tem problema. Ele pode ser destilado a partir de uma pequena anedota.

“Você não só alega ter visto um Pé-Grande (Yeti), mas também que ele estava com uma maleta executiva na mão?”, indaga a repórter à suposta testemunha. “Uma maleta executiva de couro”, retruca o entrevistado, muito sério. Esta entrevista fictícia (da animação Daria [1], produzida pela MTV na época em que ainda passava videoclipes) é uma excelente metáfora para a torrente de textos autobiográficos metidos a transgressores de hoje em dia, aclamados literariamente ou não.

Yetis executivos. Ai que pós-moderno. Mas comigo não cola. Os anglos dizem melhor, “I don’t buy it” – ao pé da letra, “Eu não compro”. Yetis não carregam maletas executivas. Curupiras não fazem escova de chocolate no salão da esquina. Espíritos selvagens não se domesticam e sentam-se ao teclado da noite para o dia, senão ou não são selvagens ou não escrevem direito. Freqüentemente os dois. E, como o marketing da coisa é todo calcado na “energia selvagem e real” do texto, quero selvageria real bem-escrita ou meu dinheiro de volta.

Falta de vitaminas

Não tenho paciência com fofoca. Geralmente é mal-contada, bem-recebida mais pelo gosto em se informar dos podres dos outros. Mas não adianta desestimular. É uma lei de Newton, ou talvez de Murphy: a fofoca chega. Como me agrada qualquer personagem interessante, original ou estrambótico, até gosto quando o futrico chega direito; por isso leio Te dou um dado? [2] e nenhum outro site de fofocas. Quem escreve lá pinça detalhes que tornam aquela gente vazia interessante. Não é Fitzgerald, mas vale.

Agora, as pessoas que têm a sarna de escrever livros, por Deus, livros sobre suas vidas vazias ainda “verdes”, mesmo quando são capazes de formar uma frase, nunca são interessantes – na vida real ou em papel. Ao menos eu nunca vi. E aí você vê os livros delas entrarem em liquidação por R$ 9,90 e atravancarem todos os sebos da cidade e pensa: pelo menos o público não se deixa enganar tão fácil. Há doidos que escrevem coisas boas sobre suas vidas depois de algum tempo, ou num intervalo entre dois “acessos”, nunca durante a loucura, e chegaram a best-seller. Citemos: Colette. José Mauro de Vasconcellos. Não, não gosto de Bukowski.

Quer dizer, quando a pessoa acima de 16 anos escreve em ritmo de diário depois da balada premeditando futura publicação, será que não desconfia que milhares de pessoas pelo mundo estão fazendo igual naquele exato momento? Como é que ela pode acreditar ser, realmente, original? E de quem bate palmas para isso, o que dizer? Muito me escapa. Espero que seja efeito de drogas, e não de um violento auto-engano, falta de tutano ou coisa parecida.

A propósito, segundo a Wikipédia, carência de vitamina B1 [3] causa, entre outros sintomas, insônia, nervosismo, irritação, depressão e problemas de concentração. Ah, e álcool, cigarros e barbitúricos prejudicam sua absorção. Praticamente um catálogo de autores autobiográficos do novo milênio, e pode ser curado com ervilhas.

É divertido não ter certeza

Eu sempre ficava imaginando o que aconteceria se um livro fosse incensado só por ser “baseado em fatos reais” e depois se descobrisse que era tudo inventado. Aí veio o caso J. T. Leroy [4] que me lavou a alma. Por vários motivos. Reafirmou o poder da imaginação, tanto da verdadeira autora, Laura Albert, como da minha, que o previu. Deixou quem defendia aquilo como “um relato pungente e verdadeiro” com a cara no chão. E eu, que li Sarah nem aí para qualquer relação daquilo com a realidade dos fatos, continuei achando o livro bom.

A questão não é demonizar tudo o que possa remotamente cheirar a realidade. É fato que muita boa ficção possui um ou outro ingrediente de vida real, assim como boas biografias possuem uma ou outra pitada de ficção. Não é preciso seccionar e apartar tudo, saber qual é o quê, até porque é divertido não ter certeza. Talvez não para Bentinho, nem para os adolescentes que são obrigados a ler suas aventuras no Ensino Médio, mas certamente para a população mais madura. Os grandes mestres sabem brincar com isso e compõem um subtexto hitchcockiano, com violinos ao fundo, para o leitor – o próprio Machado de Assis, Oscar Wilde, Nabokov... Eles deixam a dúvida e não a certeza. Em vez de “será que é a pessoa X”, o leitor fica se perguntando “será que essa pessoa existiu ou foi só muito bem-inventada?”.

O problema é que é difícil lutar contra o interesse extra gerado por livros com aura de fofoca – ou, como costumam eufemismá-los, “baseados em fatos reais”. E realmente, para que lutar? Por que isso (me) incomoda tanto? Em parte porque o fator fofoca deixa de ser um interesse extra para virar um interesse central, um sinal alarmante de que as pessoas – sejam elas mídia, editores, leitores ou escritores – não estão prestando atenção às coisas certas: boas histórias, bem-escritas, e não a vida dos outros por si só. No caso de profissionais, também revela incompetência.

Claro que há o “valor documental”, grande pedra no sapato dos jornalistas literários, que costumam ser espinafrados por escritores ciumentos com a famosa frase “isso pode ser bom, mas não é literatura, é jornalismo”. A grande diferença é que, hoje em dia, a futilidade e o desregramento puro e simples, a rebeldia de butique, também estão adquirindo um suposto valor documental e um definitivo valor financeiro.

A primeira vez em que testemunhei esse fenômeno foi quando ganhei de presente Confissões de adolescente, de Maria Mariana. Eu tinha 13 anos e discernimento suficiente para perceber o quanto aquilo era mal-escrito. Os melhores livros com e para adolescentes, na minha opinião à época e na da minha irmã postiça com atualmente 14 anos, eram/são os escritos por Pedro Bandeira (um senhor cinqüentão, pela foto do livro da época) e Sylvia Orthof, que – descobri mais tarde naqueles tempos pré-internet – contava com mais de oitenta anos. Pensando bem, devia ser por isso que quase nunca colocavam fotos dela nos livros. Uma decisão de marketing. Preferiam deixar o adolescente pensando que era alguma publicitária de vinte e seis anos a autora (não tem cara? Sylvia Orthof...), ao invés de disseminar a idéia de que a idade pode trazer sabedoria e bobagens assim.

Mas o livro de Maria Mariana, tal como fenômenos parecidos com que cheguei a ter contato depois, era uma obra de valor documental mínimo e valor literário nulo, e mesmo assim foi elogiado pela imprensa e presenteado a uma adolescente em fase de formação de gosto e caráter. Aí é que entra, ou deveria entrar, a responsabilidade da mídia e das editoras, porque na verdade trata-se de todo um país em fase de formação. Ao se levantar ou meramente se dar espaço a livros de má qualidade recheados de fuxico (ou decalques de uma realidade bobinha, o que para mim dá no mesmo) está se dando chiclete antes do almoço à criança desnutrida que é a cultura brasileira. Sim, a tia está fazendo ai-ai-ai.

Dou essa bronca porque me vejo como exceção. Muitos adolescentes, seres auto-centrados que são, hão de cair na esparrela da identificação imediata e nela se viciar. E uma vez crescidos, mesmo que continuem a gostar de ler, só aceitarão livros que recontem as suas vidas e acariciem os seus umbigos. Obras sobre mulheres encalhadas para mulheres encalhadas. Obras sobre executivos de sucesso para executivos de sucesso. E o mundo vai ficando cada vez mais chato.

Em suma: é preciso pinçar os detalhes certos para criar boa literatura, bom jornalismo ou boa fofoca. Ser jovem não credencia ninguém a escrever para jovens, especialmente se usar a própria vida como modelo. Se quiser escrever, leia antes O cabotino, de Paulo Polzonoff, vista a carapuça e calce as sandálias da humildade. Escolha: ou trabalhe direito, ou tende piedade de nós e não publique. Senão você vai parar no limbo, ou pior, no saldão do sebo.



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