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Rosa de fevereiro

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Se os antigos, em pastorais de telas e sinfonias, exultavam de retratar o alívio explosivo das cores a brotar, os modernos têm a ousadia insolente de desmerecer as rosas, reduzidas a atavio.

Diego Viana - (07/03/2008)

Saio à rua; não sabia da chuva, uma irritação infrutífera me assedia. Seguindo o hábito, embico à esquerda na rua de Levis, por onde os carros não podem passar. As lojas enfileiradas já vão fechando, mas os últimos clientes ainda se dispersam bamboleantes, carregando sacolas na mão que ficou livre do guarda-chuva. É fácil distingui-los dos que voltam do trabalho, a pequena multidão escarrada pelos degraus do metrô: esses têm o passo apertado, fazem pouco dos mostruários, deixam as compras para o sábado.

Tenho certeza de que não sou o único que classifica a formigante infinidade de pequenos eventos de um fim-de-tarde segundo sua regularidade tão, mas tão previsível. Por sorte, os olhos existem para se contrapor ao rigor injusto do entendimento. Com um pouco de atenção e boa vontade, eles podem revelar os eventuais desvios da órbita de que é capaz o espírito humano. É sua razão de ser. Mesmo quando está escuro, chove e o mau humor nos assalta.

Já ao final da rua, uma mulher se põe de joelhos. É para apanhar do chão uma rosa mal aberta, que o vendedor deixou tombar ao partir. Que pode haver de mais amável, num momento de borraça, penumbra e melancolia? Uma mulher, dos pés à cabeça fantasiada de tribunal ou banco, que agacha para recolher uma flor amarfanhada, cujo destino seria algum aterro suburbano? Não posso negar que fui tocado. Diante de meus olhos, ela se despia da fantasia que carrega seu nome de família, seja lá qual for, para retornar à pele do nome de batismo. Graças apenas a uma rosa quase em botão.

Minha imaginação fez daquela mulher um esboço de heroína dos espíritos livres. Fixei a atenção sobre ela quando se ergueu e retomou a marcha decidida; a mesma de antes, senão pelo caule de flor entre os dedos. Acompanhei o gesto que esperava: ela levou as pétalas entortadas ao nariz e se apropriou do perfume que por pouco não foi malbaratado. E assim passou a mulher. E assim, de uma truculência trivial, esfacelou as cores heróicas com que eu a quis pintar.

É fevereiro. Inverno ainda frio e lúgubre, conforme ao relato das lendas. Tempo em que as rosas estão longe de florescer nos campos de Castela e da Provença. De supetão, me vêm à mente os séculos: tantas gerações de ancestrais dessa mulher jamais puderam, como ela, consolar-se da miséria e da sujeira da triste estação graças ao perfume de uma flor! Que milagre, exclamariam esses ascendentes, mal escondendo o ceticismo. Uma flor, em plena rua, em pleno inverno, em plena Paris. Que milagre!

O gesto de apanhar a rosa e aspirar sua essência testemunha o triunfo da humanidade, que incinerou suas amarras, projetou e construiu estufas, tornou simples e corriqueiro o milagre das flores no inverno. Tão simples, tão corriqueiro, que resultamos incapazes de reconhecer a maravilha. Desprezamos a conquista de nossos pais, como se não pudéssemos perder amanhã o que ganhamos ontem. Se os antigos, em pastorais de telas e sinfonias, exultavam de retratar o alívio explosivo das cores a brotar, os modernos têm a ousadia insolente de desmerecer as rosas, reduzidas a atavio.

Golpe de misericórdia

Pois a mulher, conquanto um observador aquietado se emocionasse, fez pouco caso do próprio lirismo. Cheirou a flor com o olhar petrificado que deveria reservar aos concorrentes e magistrados. Não vi o mais ínfimo alçar dos lábios, nem traço algum de satisfação. Foi como se todo aquele teatro não tivesse passado de uma ação amestrada, mecânica. Findo o ritual, bastou um instante para que a desditosa flor flutuasse sobre uma poça que a borraça ia formando. Poucos metros além de seu pouso original.

A insensível senhora deu ao quadro, já infausto, o golpe de misericórdia. Com agilidade, limpou os dedos na manga da camisa. Asco, talvez? Os caules verdes deixam, ao que parece, uma sensação extravagante em mãos mais habituadas a canetas e teclas. Pois, resolvida a situação, ela enveredou por outra rua. Seu percurso habitual.

Perdi-a de vista. Não sei bem o que foi que perdi. Por alguns instantes, imóvel sobre a calçada lustrosa, acreditei que algo me havia sido arrancado. Mas não me entreguei por demais às reflexões debaixo da chuva. Segui o exemplo da autômata que cheira rosas. No mesmo espírito, retomei minha marcha, com o cuidado de erguer as abas do capote para me abrigar contra o incômodo do clima.



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