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ECONOMIA EM CRISE

Nas finanças, a doença da Saúde

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Sinal da gravidade das turbulências econômicas: nos EUA, o sistema de assistência médica já desequilibra o orçamento das famílias e do Estado — e transborda para o debate eleitoral. Mas haverá vontade política para desatrelar a Saúde dos vínculos mercantis que a estrangulam?

Flávio Dieguez - (08/03/2008)

A campanha presidencial nos EUA, umas das mais concorridas de que se tem notícia, trouxe de volta polêmicas que se dizia estar para sempre enterradas no passado. Uma delas é que o Estado não tem que se meter na economia, inclusive na economia básica: aquela que trata, por exemplo, de assegurar os serviços essenciais de qualquer sociedade, como a educação e a saúde.

Esse ideário, essencialmente estimulado pelo Partido Republicano, vigorou desde os anos 70 nos Estados Unidos. Expressa, de acordo com o economista Paul Krugman, quarenta anos de disputa com o Partido Democrata. Agora, ainda segundo Krugman, seria a hora de pagar para ver e por as cartas na mesa no campo da saúde. Por que? Porque o sistema de saúde é próprio espelho da crise: os dois nasceram juntos; cresceram e se enredaram nas mesmas dificuldades.

Hoje a despesa total com a saúde nos Estados Unidos é de 7 mil dólares por pessoa, em média — ou cerca de 2 trilhões de dólares, no total. Isto é, 15% de toda a renda nacional (o PIB) gira dentro da indústria da saúde. Também é o que custa na renda pessoal, porque os norte-americanos gastam 14% do salário com saúde, atualmente — quase três vezes mais do que nos anos 60, antes da montagem do atual sistema de saúde. E nem por isso têm melhor atendimento, como se verá adiante.

Os gastos do governo são mais preocupantes. O motivo é que a crise econômica nos Estados Unidos tem duas pontas: uma é a dívida de quase 10 trilhões de dólares, a maior do mundo, e que cresce à taxa de 1,5 bilhão ao dia. Esse é realmente o núcleo das dificuldades, que coloca em xeque o papel hegemônico dos EUA na economia e na política mundial. Mas a dívida não seria tão premente se não fosse a outra ponta da crise – o déficit persistente no orçamento federal, que espreme o Estado num corredor estreito: como não se consegue cortar gastos nem fechar as contas, o déficit vira dívida, que eleva os gastos, que aumentam o déficit, etc.

Por cima da Saúde, um "cobertor maluco" formado por financeiras, empresas farmacêuticas, fabricantes de equipamentos médicos e hospitais comerciais

Isso é o que Krugman, falando do ponto de vista dos democratas, chama de pagar para ver. Era hora, diz ele, de empurrar a campanha eleitoral para um debate crucial. Ele colocaria, de um lado, a proposta dos democratas — de atendimento universal, similar ao do Canadá, no qual o serviço é gratuito para o cidadão. De outro, a dos republicanos, que são os pais dos atuais planos de saúde, no qual o atendimento é um negócio como outro qualquer, prestado por empresas privadas em troca de pagamento.

Para Krugman, isso não funciona porque tem por cima um “cobertor maluco”, formado por grandes empresas — financeiras, fabricantes de equipamentos médicos e remédios e hospitais comerciais, que também é um dos setores mais dinâmicos da economia.

Ninguém duvida que esse sistema encalacrou — nem os republicanos, que o defendem. “O sistema de atendimento à saúde deste país está irrecuperavelmente quebrado”, afirma no seu site de campanha o pré-candidato republicano, Mike Huckabee. Ele parece saber o que está dizendo, porque saiu do desconhecimento público total para mais de 20% das intenções de votos. Mas aparentemente Huckabee prestou atenção ao que os eleitores estão falando nas pesquisas, nas quais a saúde empata com a guerra do Iraque, em termos de preocupação com o futuro, perdendo só para a economia. Mas é justamente o lado econômico da saúde que conta, diz Krugman.

Claro; além do bolso, a saúde física dos norte-americanos também está sentindo o peso do sistema. Houve queda sensível de qualidade no atendimento à saúde, especialmente depois que a crise econômica apertou para valer, entre o final da década passada e o começo desta. Nesse aspecto, os EUA passaram a ser considerados os piores, no clube dos desenvolvidos: ocupam o 37º lugar numa avaliação feita pela ONU em 2001, na qual a França chegou em primeiro. E o sistema francês custa bem menos: 10% do PIB, e não 15% como o norte-americano. Os Estados Unidos têm menos médicos que a média da Europa: 2,3 por mil habitantes, contra 4,1 por mil. Têm mortalidade infantil maior — e não só comparados à Europa. São o 28º colocado do mundo nesse item, com 7 mortes a cada mil nascimentos. Também vão mal nas doenças infecciosas, que continuam entre as principais causas de morte nos Estados Unidos.

As observações de Krugman são interessantes porque expõem com clareza as opções tomadas na década de 70, que levaram a essa situação. Havia acabado nessa época o tempo das vacas gordas, de crescimento econômico e de queda na desigualdade social. A economia entrou em crise e voltou a se recuperar — embora só parcialmente, já que a desigualdade vem crescendo desde então. A questão é: a solução adotada, que incluiu o crescimento vertinoso da indústria da saúde, foi boa ou ruim? Esse parece ser, de fato, o debate que pode decidir alguma coisa. De fato, poucos eleitores reclamam da saúde propriamente dita: mais de 70% acham que ela está bem. O que os preocupa é que 37% dos americanos têm dívida acumulada por causa de gastos com saúde. Que 44% têm dívida ou dificuldade para pagar contas médicas. Que 45% da inadimplência total nos Estados Unidos, nos anos recentes, têm como causa esse mesmo tipo de despesa.

Os norte-americanos sem nenhuma assistência médica regular já são 46 milhões, ou 16% da população. O número aumenta a cada mês, e acaba pesando sobre o Estado

E o diagnóstico é pior para o conjunto do país. Krugman cita, por exemplo, os últimos relatórios do comitê de orçamento do Congresso, nos quais se afirma que o custo do sistema de saúde é a preocupação principal do orçamento federal, nesse momento, e que, tal como está, é insustentável. O número relevante, dizem os congressistas, é que quase um quarto das despesas federais – estimadas em 2,7 trilhões de dólares, em 2007 – são contas de saúde. Embora o Congresso seja dominado pelos democratas, não há contestação de fundo a essa situação.

Porque a doença do sistema contamina virtualmente todo mundo: empresas, assalariados e consumidores em geral. Nem as empresas agüentaram a escalada de preços. Nos anos 60, elas gastavam 36 bilhões de dólares com benefícios de saúde para os empregados. Nas décadas seguintes gastaram 100, 201, 316 e 465 bilhões, mais de 500% de aumento. Parte disso, é verdade, acabou compensado pela redução paralela dos salários: de 52% dos gastos das empresas, nos anos 60, agora representam 45%. Mesmo assim, muitas empresas desistiram dos planos de saúde, recentemente. Em 1987, no auge do sistema, 70% das empresas norte-americanas ofereciam plano. Em 2005 o percentual tinha caído para 60% e continua caindo.

Ou seja, até o sistema já encolheu sem alterar as despesas. Elas só mudam de lugar. Basta ver o que aconteceu com quem ficou sem plano de empresa, nos últimos cinco ou seis anos. Só havia três opções. Um grupo passou a pagar plano individual, e como ele sai mais caro do que o coletivo, contribuiu para ampliar os gastos pelo lado familiar. Outro grupo buscou um programa público gratuito e fez inchar os gastos do lado do governo (há dois grandes programas: o Medicaid, para os pobres ou quase; e o Medicare, para maiores de 65 anos ou deficientes). A última opção é a ‘não-opção’, representada pelos que ou foram demitidos ou perderam os planos das empresas. Essa é a parte mais escandalosa das distorções da saúde, porque já há 46 milhões de norte-americanos nessa situação, ou 16% da população. Essa é a última estatística federal, que sobe todo mês. E até esses marginalizados aumentam os gastos: os do governo. Como não fazem exames e deixam de comprar remédios por falta de dinheiro, deixam agravar as doenças e acabam num hospital público.

Krugman escreveu, em 2006, um longo ensaio para o New York Times, criticando o sistema de saúde nesse termos. Diz que o “cobertor maluco” acrescenta custos sem acrescentar valor. Recentemente repetiu o raciocínio ao dizer que alguns traços do sistema estariam preservados na proposta do pré-candidato democrata, Barack Obama. Especialmente numa questão-chave: quando se trata de serviços essenciais de uma sociedade, é razoável supor que a iniciativa privada presta melhor serviço do que o Estado?

Nem Hillary, nem Obama, questiona o ideário privatista. Fazem promessas vagas. Mas quando as dificuldades são grandes e o debate pobre, o eleitor se apega ao que tem mais à mão

Pergunta ainda mais pertinente porque, apesar de o sistema ser privado, boa parte dos gastos acaba na conta do Estado, como se vê pela situação do orçamento. Além dos gastos diretos que assume nos dois grandes programas públicos, ainda subsidia parte dos planos de saúde. E, mais importante, o Estado também subsidia as pesquisas de onde sai a alta tecnologia médica e são a força inconteste da medicina norte-americana.

E essa — a conta do Estado — é a parte realmente difícil da enrascada, porque é a parte que se mistura com a crise e deixa de ser só um problema econômico, mas político. Qual é a responsabilidade dos democratas nessa questão? Krugman foi cuidadoso: diz que o ex-presidente Bill Clinton não foi capaz de vencer o Congresso nessa questão, nos anos 90. Mas há críticos menos cautelosos. Um deles é o pesquisador da Universidade Harvard, David Himmelstein, um dos mais respeitados estudiosos da questão da saúde norte-americana e um militante pela causa.

Ele relatou ao jornal Counterpunch, numa entrevista de 2004, uma conversa que teria tipo com Hillary Clinton, quando o marido era ainda candidato. Diz que foi apresentar a ela a proposta de seu grupo de trabalho para reformar o sistema de saúde. Hillary teria dito: muito bom. Mas com que força política vamos enfrentar uma indústria de 300 bilhões de dólares? Isso talvez explique porque figuras de segundo ou terceiro plano político nos Estados Unidos, como Barack Obama e Mike Huckbee, vieram para a frente do palco nessas eleições. Ambos fazem apenas promessas vagas de mudança. Nem um nem outro questiona o ideário de saúde boa é saúde comprada. Mas as promessas bastam, muitas vezes: quando as dificuldades são grandes e os debates não tocam no essencial, o eleitor se apega ao que tem mais à mão.

Veja:

Ensaio de Paul Krugman artigo sobre Barack Obama no New York Times:

Aqui

Aqui

Sobre a proposta de atendimento universal à saúde:

Aqui

Aqui

Aqui

Aqui

Sobre a situal fiscal do orçamento:

Aqui

Sobre a situação dos que não têm assistência de saúde:
Aqui

Mais:

Flávio Dieguez assina a coluna Economia em Crise. Edições anteriores da coluna:

No fundo, a desigualdade
As análises sobre as turbulências financeiras recentes costumam omitir um dado essencial: nos EUA, epicentro da crise, a concentração de renda voltou aos níveis de 1929. O empobrecimento levou a uma espiral de dívidas — que, ao se romper, produz quebradeiras em série e ameaça a economia



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