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Greenaway dialoga com Rembrandt

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Em seu mais novo filme, diretor inglês debate as artes plásticas. Mas a abordagem — inovadora, ousada, livre de referências banais — perde-se, em parte, na tentativa de criar suspense policial e apontar, em Ronda Noturna, a imagem de um assassinato

Bruno Carmelo - (17/03/2008)

Peter Greenaway sempre foi um apaixonado pelas artes plásticas. Praticamente todos seus filmes estão relacionados direta ou indiretamente com esse universo das artes. Em Nightwatching, seu novo filme, ele toma por tema justamente um dos quadro mais conhecidos do pintor holandês Rembrandt, o Ronda Noturna.

O mais interessante, no entanto, é o modo como o diretor se relaciona com o quadro, com o pintor em questão e com o próprio fato de de tratar de fatos históricos. Longe da homenagem ou do questionamento crítico, Greenaway inova na relação com sua obra-referência.

Primeiro, pode-se dizer que o filme não constitui, em momento algum, uma biografia de Rembrandt. O personagem do pintor existe e é o protagonista de Nightwatching, mas não há desejo de fidelidade na reconstrução de fatos, na cronologia ou mesmo na caracterização da personalidade do pintor. Contra a maioria dos “filmes biográficos”, que ressaltam o caráter genial do artista (e mostram que sua obra é fruto de uma grande paixão pessoal por este), Greenaway não mostra qualquer afeição particular por Rembrandt. A escolha do personagem parece um tanto aleatória, como se o diretor pudesse ter pego igualmente Raphael ou Vermeer. A intenção era unicamente de discutir a arte, e para isso um objeto foi pego como exemplo.

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" Rembrandt pinta virado para nós, e a tela se posiciona invariavelmente de costas para o espectador (num questionamento do papel da imagem que nos remete às {Meninas} de Velásquez)".

Nightwatching também não pretende retratar fielmente a elaboração do quadro homônimo. Diferentemente de outros filmes, como Moça Com Brinco de Pérola, em que a narrativa se desenvolvia em torna da investigação das circunstâncias que deram origem à obra, neste a obra de arte também é apenas um exemplo, um elemento representativo da obra de arte em seu valor mais geral e abstrato.

Para esses dois primeiros “afastamentos”, tanto da obra quanto do autor, Greenaway faz escolhas interessantes: no papel do pintor, ele escala Martin Freeman, ator norte-americano mais conhecido por filmes cômicos como O Guia do Mochileiro das Galáxias. Freeman confere à Rembrandt um caráter invariavelmente bonachão e intelectualmente limitado. Embora isso pareça constrastar com o desejo de Greenaway de discutir a fundo a arte, há uma certa coerência em deixar os argumentos questionadores unicamente para a imagem e para a mise-en-scène — ou seja, para o próprio diretor.

Contra a ironia e a coerência do pintor holandês, o diretor oferece um cinema teórico e disperso, um mosaico de cenas confusas que pouco se articulam e dialogam entre si

Quanto ao quadro, basta dizer que ele não aparece para o espectador durante quase toda a narrativa. Rembrandt pinta virado para nós, e a tela se posiciona invariavelmente de costas para o espectador (num questionamento do papel da imagem que nos remete às Meninas de Velásquez). Sabemos pela história que nosso protagonista não tem a menor vontade de pintar este retrato de grupo encomendado pela nobreza, e que ele é conhecido por incluir alguns elementos irônicos, mesmo satíricos sobre as figuras em suas pinturas.

Talvez por isso, o público cria uma grande espectativa quanto ao resultado desse quadro que nos é omitido. E é na chave da tensão que Greenaway apóis seu filme: uma vez que nos deparamos finalmente com a figura da Ronda Noturna, somos incitados a perceber a possibilidade de um assassinato escondido no fundo do quadro, através do elemento de um arma cujo cano aponta para uma direção indeterminada. Assasinato num quadro holandês? Esse é o slogan do filme, e o gênero suspense veio gravado junto de Nightwatching em sua distribuição pelos cinemas mundiais.

É justamente enquanto suspense policial, no entanto, que o filme decepciona. Somos apresentados a uma vasta gama de condes, barões e outros nobres, cujos nomes se intercalam e confundem a narrativa — que até então não tinha pretensão alguma de coerência ou linearidade narrativa.

No fim, abandonando a intenção de elucidar os problemas levantados, a visão de Ronda Noturna é finalmente oferecida ao espectador, aberta e longamente. Greenaway nos oferece um bom tempo para contemplá-la, e faz desse museu cinematográfico uma oportunidade de discutir o quadro e, em última instância, as artes plásticas de modo geral. Uma voz off (o diretor enquanto personagem) comenta em profundidade a imagem: porque o quadro incomodou na época, qual o papel deste na história das artes plásticas, quais elementos específicos carregam ironia e cinismo no retrato da nobreza da época. Neste momento o filme finalmente parece dizer a que veio — no caso, para discutir teoria e história da arte. O próprio cinema se transforma em suporte de discurso, em imagem como reflexo da imagem.

Isso porque, enquanto cinema, Nightwatching recusa-se a recorrer a estratégias comuns a filmes dedicados à arte: não se tenta recriar no filme a estética dos quadros de Rembrandt, principalmente na questão da luz, que é tão particular ao pintor. Greenaway cria uma estética própria, nada rebuscada ou referencista. Novamente, a possibilidade de homenagem passa longe.

A Ronda Noturna de Greenaway, enfim, tem pouco a ver com a Ronda Noturna de Rembrandt. O diretor mostra como tomar a obra de origem e utilizá-la para criar um filme pessoal e investigador, no bom e no mau sentido da palavra. Contra a ironia e a coerência do pintor holandês, o diretor oferece um cinema teórico e disperso, um mosaico de cenas confusas que pouco se articulam e dialogam entre si. Nightwatching marca o diálogo de artistas que se enfrentam se igual para igual, ressaltando e constrastando as diferenças entre pontos de vista, épocas e formas de arte diferentes.

Nightwatching (2008)
Dirigido por Peter Greenaway.
Com Martin Freeman, Emily Holmes, Michael Teigen.
Duração: 2h05.

Veja:

- fotos

-trailers

Mais:

Bruno Carmelo assina a coluna Outros Cinemas. Também mantém o blog Nuvem Preta, onde resenha e comenta outros filmes. Edições anteriores da coluna:

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